O ILUMINA tem alertado sobre este problema: A busca desesperada de soluções para a crise pode esconder o problema de um novo patamar de preço da energia para a sociedade brasileira. Seria vergonhoso para o Brasil sair dessa carência com preços incompatíveis com o que se espera de um país com tantos aproveitamentos hidráulicos baratos. Os US$ 70 para cada MWh citados na reportagem são extremamente caros para o país. Basta olhar os exemplos da Noruega e do Canadá e verificar que esses países, coincidentemente com uma participação significativa hídrica, são também países que oferecem energia barata.
Energia equivaleria a 2 turbinas de Itaipu
Produção excedente de todas as usinas do Estado poderia alcançar 1,5 gigawatt
RIBEIRÃO PRETO – Se as 131 usinas e destilarias do Estado de São Paulo gerarem 40 quilowatts/hora de energia excedente por tonelada de cana, elas produzirão tanto quanto duas turbinas de Itaipu ou 1,5 gigawatt. São Paulo mói 240 milhões de cana por safra.
Uma tonelada de cana rende 240 quilos de bagaço. Essa tonelada tem potencial para gerar 70 quilowatts/hora, dos quais 30 são usados na produção do açúcar e álcool (autoconsumo da usina) e 40 na forma de excedentes.
O bagaço da cana é queimado numa caldeira, que gera energia térmica em forma de vapor d’água. Numa turbina, essa energia é transformada em mecânica e, no gerador, em energia elétrica. É a tecnologia da co-geração. Já existem tecnologias mais sofisticadas, de alta pressão, condensação e gaseificação, de custo elevado, que permitem utilização maior do bagaço para co-gerar a eletricidade.
Segundo o empresário Jairo Balbo, o emprego dessas novas tecnologias será possível quando a remuneração das usinas pelas concessionárias for de US$ 70 por megawatt/hora. "Esse é o valor mínimo exigido pelo Banco Mundial para financiar a co-geração a partir do bagaço e ampliar seus benefícios", esclarece o engenheiro eletricista Arthur Padovani, consultor de co-geração desde o início do processo no Brasil. Por enquanto, as usinas que firmaram contrato com a CPFL recebem cerca US$ 40,00 por megawatt/hora.
Das usinas que geram excedente de energia no Estado, cinco estão na região de Ribeirão Preto. Juntas, elas alimentam a rede da CPFL com cerca de 40 megawatts – energia equivalente de 170 mil megawatts hora (MWh), suficiente para abastecer 113 mil residências durante a safra – seis meses.
Palhiço – Segundo Padovani, se em vez do bagaço as usinas utilizarem o palhiço (palha e ponteiro) da cana cortada crua, o poder de geração de eletricidade dos canaviais será duas vezes maior. Essa realidade está se aproximando rapidamente, com a redução gradativa da queimada da palha da cana para a colheita e para a mecanização do corte.
Enquanto um hectare de cana, que rende 90 toneladas, oferece, em média, 22 toneladas de bagaço, a mesma área fornece 25 toneladas de palhiço. O poder calorífico do bagaço é de 1.800 quilocalorias por quilo e o do palhiço, 2.900 quilocalorias, compara Padovani. Com 900 mil hectares de cana, a região de Ribeirão Preto, empregando o palhiço na geração, pode fornecer eletricidade para 6,36 milhões de residências (se todo o palhiço fosse usado exclusivamente na geração), com o consumo médio de cada residência avaliado pela CPFL em 250 quilowatts/hora por mês.
A utilização do palhiço, porém, dependerá das condições econômicas. Ainda não existem meios de enfardamento e transporte eficientes para levá-lo do campo à usina, após a colheita da cana. Deixado no solo, esse palhiço tem se mostrado muito útil na proteção da terra e como agente inibidor do crescimento de ervas daninhas, reduzindo a necessidade de aplicação de herbicidas.
Pioneira – A Usina Vale do Rosário, da cidade de Morro Agudo, é uma das fundadoras do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) e uma das pioneiras na co-geração de eletricidade a partir do bagaço de cana. Ela abastece a rede pública desde 1989. Hoje, é a maior co-geradora do País, com 30 megawats. E negocia com o BNDES financiamento para dobrar esse volume de co-geração em quatro anos, anuncia seu diretor Ricardo Brito Santos Pereira. "A meta, agora, é equipar a usina para disponibilizar mais vapor e gerar eletricidade exclusiva para alimentar a rede pública. Vamos entrar num processo de conservação de energia", diz.
"Hoje, uma usina eficiente, trabalhando, consome 500 quilos de vapor por tonelada de cana. É necessário que a otimização industrial faça essa usina consumir 280 a 300 quilos de vapor por tonelada", explica Ricardo Brito.
"Mas, para que esse empreendimento se desenvolva com segurança, é preciso que se estimule o Proálcool. Quanto maior a produção de cana, açúcar e álcool, maior a de bagaço para co-gerar essa eletricidade barata", lembra o empresário Cícero Junqueira Franco, um dos fundadores do Proálcool e diretor-superintendente da Usina Vale do Rosário. (M.C.)
Sudeste não supera os 16,5% de economia
Junto com o Centro-Oeste, Região não consegue chegar à meta de 20% de redução
GERUSA MARQUES
BRASÍLIA – A economia de energia nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste permanece 3,5 pontos porcentuais abaixo da média de 20% determinada pelo governo para evitar o apagão. De acordo com os números do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), até a meia-noite de sábado a média de redução no consumo em junho foi de 16,5% nessas duas regiões, igual ao índice registrado na média dos primeiros 14 dias do mês e de vigência do programa de racionamento.
No Nordeste, o índice que mede a economia apresentou um ligeiro crescimento, passando de 18,1% nos primeiros 14 dias para 18,3% na média de energia consumida de 1.º a 16 de junho. A Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) pretende divulgar na quarta-feira o segundo balanço oficial dos números do racionamento. No primeiro balanço, do dia 1.º a 11 de junho, a economia de energia chegou a 16% nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste e a 18% no Nordeste. A meta de 20% de redução no consumo tem como base a média do que foi gasto nos meses de maio, junho e julho do ano passado.
A avaliação dos números do consumo de energia e também do nível dos reservatórios que abastecem as hidrelétricas dessas três regiões será feita pelo núcleo executivo da GCE, que se reúne amanhã pela manhã. Nessa reunião, será possível fazer um balanço com dados de quase dois terços do mês junho.
Também será levada em conta a economia alcançada com o feriado prolongado de Corpus Christi, o que poderá subsidiar os integrantes da Câmara para uma eventual adoção do feriado às segundas ou sextas-feiras, como medida adicional para a redução do consumo.
Casos excepcionais – Também na reunião de amanhã, a GCE discute as medidas para os casos excepcionais, que faltam ser definidas para a execução integral do plano de racionamento de energia.
Entre elas estariam as regras para o setor de telecomunicações.
Representantes da Associação dos Operadores de Telefonia Celular (Acel) se reunirão novamente nesta semana com integrantes da Câmara. Estão sendo estudadas regras específicas para as empresas de telefonia, como a geração própria de energia pelas operadoras, para garantir o funcionamento das centrais de comutação e das estações radiobase, que concentram as ligações telefônicas.
Ainda nesta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF) deverá decidir sobre a constitucionalidade ou não das medidas do programa de racionamento. Os ministros do STF julgam na quarta-feira a ação declaratória de constitucionalidade (ADC) apresentada pelo governo para garantir a aplicação do programa. Os pontos mais questionados são os cortes de energia, a cobrança da sobretaxa para quem consome acima da 200 kWh por mês e descumprir a cota de 20% de economia. A ADC deverá ser julgada pelos ministros do Supremo em conjunto com as ações diretas de inconstitucionalidade (Adins) que questionam a medida provisória das regras do racionamento. (AE)