Sem Comentários XXIII

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A economia política da chacina da Baixada


Editor-chefe


A chacina da Baixada Fluminense clama aos céus. Ai de nós se considerarmos esse crime hediondo só como um fato policial isolado, resultado apenas do barbarismo e do desvio de conduta de alguns agentes da lei. Trata-se de um fato político decorrente e explicado pela ordem econômica e social em degradação na qual estamos inseridos, muitas vezes sem nos darmos conta disso. E é justamente porque não percebemos, no curso aparentemente normal da vida, esse processo de degradação que, ao depararmos com o choque da realidade, temos a sensação de estarmos diante de um terrível crime sem causa.


Entretanto, as causas são óbvias. Temos uma economia política que só favorece os ricos, deprime a renda do trabalho das classes médias, promove a concentração da renda e da riqueza, e espalha o desemprego em rigorosamente todos os segmentos sociais, exceto os muito ricos. Mergulhamos, em conseqüência, na maior crise social de nossa história, com mais de um quarto de nossa população ativa desempregada ou subempregada. Nesse contexto, proliferam as estratégias de sobrevivência na ilegalidade, aceitas moralmente porque não há alternativa. O relaxamento dos valores morais e legais é inexorável.


Nesse clima de degradação social e moral onde milhões de jovens não têm qualquer perspectiva razoável de vida, chamamos alguns homens e mulheres com alguma habilidade física e muito pouco preparo intelectual, damos-lhes um revólver a cada um, um salário de 800 reais e os mandamos cuidar da segurança dos outros. Nessa tarefa, aprendem que a vida deles vale muito pouco, porque estão continuamente expostos a ataques dos delinqüentes, também sem causa aparente, como tem ocorrido freqüentemente no Rio. Mas descobrem, também, o caminho do arbítrio e da prepotência, tirando proveito em face dos despidos de cidadania de sua situação de autoridade pública.


Que tipo de formação moral e ética têm nossos policiais? E quem que tenha sólidos fundamentos morais e éticos aceita trabalhar na Polícia, com os riscos inerentes à profissão, por um salário de 800 reais por mês? Certo, este salário não está muito longe do salário médio dos demais brasileiros com carteira assinada: numa situação de alto desemprego, ter um emprego, mesmo mal remunerado, acaba sendo um privilégio. Contudo, temos aqui risco de vida e de saúde, risco pessoal e da família. Não são todos os policiais que degeneram para a marginalidade, mas o fato é que, se apenas uma pequena percentagem degenerar, temos um exército de protetores do povo que se tornam seus opressores.


Naturalmente, isso não diz respeito aos ricos, que têm segurança particular. Diz respeito aos pobres da Baixada, ou a todos os pobres do Brasil. Como disse o senador Marcelo Crivella, a chacina de 30 não ocorreria nem em Ipanema nem no Leblon. O fato é que a degradação do aparelho policial segue um curso linear, decorrente da depauperação dos orçamentos públicos estaduais e municipais pela voracidade tributária da União, coroada pela estúpida Lei de Responsabilidade Fiscal, que estrangulou a Federação. Justamente quando, em face da crise social, mais se precisa de policiais, menos dinheiro o Estado tem para contratá-los.


Seria, porém, uma questão estritamente de remuneração dos policiais? Claro que não. Se dobrássemos os salários deles, ainda assim haveria estímulos morais e sociais para o desvio de conduta, na medida em que toda a sociedade continuasse sob a tensão da miséria e do alto desemprego. Não há nessas questões soluções isoladas. Só temos uma saída: entrarmos num ciclo econômico de prosperidade, que reanime as esperanças de todos. Em uma palavra, temos que promover o Estado de bem estar social, a partir de uma política decidida de promoção do pleno emprego.


Na famosa Noite de São Valentim, em Chicago, seis foram mortos numa única chacina. Eram todos integrantes de quadrilha, mas a matança serviu para sacudir a consciência de milhões de norte-americanos para exigir do Estado uma mobilização efetiva contra o crime organizado. Em face dos 30 mortos da Baixada Fluminense, em número cinco vezes maior, todos eles inocentes, algumas crianças e jovens, não é possível ficar indiferente. Ou resgatamos o Estado, e para resgatar o Estado é preciso sair do marco da economia neoliberal que só promove prosperidades para os ricos, ou acabamos na barbárie – se é que a chacina da Baixada não é um sinal de que já estamos nela.

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