Artigo: O Desafio 1

A CRISE DO GÁS COM A BOLÍVIA



É consenso hoje que o desenvolvimento social e econômico da América do Sul passa necessariamente pela integração dos países da região em várias áreas, na chamada “Comunidade Sul-americana de Nações”. Porém, esta entidade é, por enquanto, uma instituição existente apenas no papel, ficando o desafio para todos os países sul-americanos transformá-la em realidade.



Esta integração, para acontecer na prática, é o grande desafio para os países da América do Sul, e passa pelos aspectos comerciais, econômicos, diplomáticos, culturais, mas, principalmente, pela questão energética.



Na visão do sociólogo Hélio Jaguaribe, o Brasil é o único país sul-americano que pode prescindir dessa integração sul-americana sem que seu desenvolvimento social e econômico (do Brasil) fique comprometido ou ameaçado. Entretanto, tem sido uma prioridade da política externa brasileira há muito tempo contribuir para que a integração física e energética, afora as demais citadas acima, seja uma realidade.



Porém, para impedir que os movimentos nacionalistas emergindo e chegando ao poder pela via eleitoral em vários países sul-americanos chantageiem os interesses “de Estado” do Brasil, é necessário que a sua política externa deixe patente para os demais países da região que a integração energética não é essencial para o desenvolvimento social e econômico do Brasil, mas sim para os demais países da região. A matriz energética do Brasil é variada e é a que utiliza energias renováveis em maiores proporções no mundo. No nosso caso, cerca de 45% da nossa matriz energética atual provém de fontes renováveis. A média mundial é de cerca de 13-14% e nos países industrializados cerca de 6-7%. Isto porque o Brasil dispõe tanto de recursos naturais abundantes e variados, quanto de capacidade de investimento e tecnológica para suprir suas necessidades energéticas.



Neste contexto, para tornar esta assertiva diplomática em realidade factual, é importante que sejam disponibilizadas o mais rapidamente possível duas plantas de re-gaseificação de gás natural líquido (GNL). Uma destas plantas está prevista para região Sudeste, na revisão recentemente feita dos planos de investimento da Petrobrás, prioritariamente no Rio de Janeiro, devido ao uso bastante disseminado deste insumo na matriz energética do estado (petroquímica, refinarias, usinas termelétricas a gás natural, alto consumo industrial, comercial, residencial e veicular). A outra planta tem previsão de ser instalada na região Nordeste, com capacidade total das duas plantas na casa de 6 a 8 milhões de m3/dia.



Paralelamente, é muito importante que a Petrobrás antecipe para 2.008-2.009 a produção das grandes reservas já encontradas na bacia de Santos e no litoral do Espírito Santo. Estas medidas irão praticamente eliminar a dependência do Brasil em relação ao gás natural produzido na Bolívia.



Gasoduto do Sul – o chamado gasoduto do sul (ou ‘del Sur’), defendido com grande entusiasmo pelo presidente da Venezuela, Hugo Chaves, pode ter sua viabilidade econômica e ambiental se for construído em etapas e não exatamente como quer o polêmico presidente da Venezuela. A melhor opção do ponto de vista da viabilidade deste empreendimento seria ampliar a planta de re-gaseificação de GNL a ser instalada no litoral do Maranhão ou Ceará (planta da região Nordeste), possibilitando trazer o gás natural da Venezuela por navios chamados ‘metaneiros’ (que são apropriados para transportar GNL). Isto evitaria grandes impactos ambientais causados pela instalação de um gasoduto rasgando a floresta amazônica. O transporte deste gás natural re-gaseificado até as demais regiões do Brasil, e chegando até o Uruguai e Argentina se daria pela rede de gasodutos existente e em construção percorrendo o litoral do país, interligando as redes desde o Maranhão até o Rio Grande do Sul.



Além destas providências na ampliação da oferta de gás natural para atender à demanda do país, há que se caminhar na direção da vocação por hidreletricidade aproveitando o potencial ainda existente para ser explorado (principalmente na região amazônica).



Para mais longo prazo, se prevê um esgotamento do potencial hidrelétrico econômica e ambientalmente viável, o que nos remete a repensar o uso de energia nuclear para suprir a demanda futura por energia elétrica. Isto nos aponta a necessidade de repensar o Programa Nuclear Brasileiro em novas bases. E, ainda, não se pode esquecer o incentivo à geração de energia elétrica através da biomassa e do carvão mineral, principalmente aproveitando as jazidas deste último já conhecidas na região Sul do país, onde o potencial hidrelétrico já está praticamente esgotado.



ILUMINA

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