Sobre a Vale do Rio Doce



Coando um mosquito e engolindo um camelo


Argemiro Pertence*


Na edição de janeiro de 2008 da revista Brasil Energia, o empresário Eike Batista, dono da holding EBX, controladora da MMX mineradora, revelou alguns dados que associados a fatos recentes fazem o escândalo dos cartões corporativos do governo Lula parecer brincadeira. Indagado sobre o faturamento do grupo que comanda, Eike foi taxativo: estamos numa fase pré-operacional. O valor de mercado da MMX (mineração) é de aproximadamente US$ 8 bilhões. O valor da LLX (logística) é de cerca de US$ 2 bilhões. O da MPX (energia elétrica), que abriu o capital em dezembro gira em torno de US$ 4 bilhões. E o da OGX (petróleo e gás) está entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões.


Em outras palavras, uma mineradora estreante, desconhecida da maior parte do público e dirigida por um auto-assumido play boy vale R$ 8 bilhões, enquanto o governo Fernando Henrique vendeu a Vale do Rio Doce, a maior e mais produtivas mineradora de ferro do mundo por R$ 3,3 bilhões, ou seja, menos da metade do valor da MMX!!!


Para piorar o quadro, uma notícia de 27/09/2007, veiculada no sítio http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios revela algo estarrecedor: “a forte valorização das ações da Companhia Vale do Rio Doce nos últimos dias fez o valor de mercado da mineradora atingir R$ 291,14 bilhões, encostando no da Petrobras, atualmente em R$ 291,22 bilhões, segundo dados daBolsa deValores de SãoPaulo (Bovespa).


Portanto, a partir de dados da Bovespa, o valor de mercado da Vale é atualmente cerca de 90 vezes o preço cobrado pelo governo tucano pela empresa num daqueles obscuros leilões dos anos 90. Para agravar ainda mais. O grupo que adquiriu o controle da Vale no leilão dos tucanos foi um tal de Bradepar, uma empresa de fachada, criada pelo Bradesco para se esconder, já que o próprio Bradesco participou da “avaliação” da Vale do Rio Doce e não poderia arrematar seu controle, conforme as regras do leilão (jornal Brasil de Fato de 24/08/2007).


Este quadro apresenta indícios muito claros de um crime. As diferenças entre o valor de mercado e o valor da avaliação são muito gritantes para serem atribuídas apenas à incompetência dos avaliadores. Até hoje ninguém investigou as arbitrariedades desse quilate praticadas pelos tucanos e seus asseclas. Um país sério não conviveria com fato semelhante por mais de meia hora. No entanto, já se passaram mais de 10 anos e todos os tucanos envolvidos nessa lama continuam vagando lépidos e fagueiros pelo mundo afora, vomitando regras de boa conduta. Alguns deles ainda são mantidos pelos impostos que nós pagamos, como é o caso do Fernando Henrique.


O volume de dinheiro público envolvido neste imbroglio daria para manter a farra com os cartões corporativos do governo Lula por mais de 100 anos. Exigimos que se apurem todos os crimes e se punam os criminosos, desde os depósitos na Suíça até a tapioca do ministro, nesta ordem. Isto me faz recordar o aforismo bíblico que nos aconselha a eleger prioridades. Será que estaríamos “coando um mosquito e engolindo um camelo?” – Evangelho de São Mateus 23:24.


* Engenheiro mecânico, ex-diretor da AEPET

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