Semana decisiva para a CESP

Reproduzimos abaixo algumas entrevistas publicadas na Folha de São Paulo.



ILDO SAUER
“Falta visão capaz de criar valor no setor elétrico”


Governos seguem cartilha dos anos 90, diz Sauer



FOLHA – Por que ser contra a privatização?
ILDO SAUER –
A privatização do setor de energia é resultado de uma avaliação que foi hegemônica em meados dos anos 90, que dizia que nenhuma empresa pública podia funcionar adequadamente e que só a gestão privada e os mercados são capazes de resolver todos os problemas. Os notórios exemplos dos apagões de Califórnia, Brasil, Argentina, Chile e Colômbia mostraram que a situação é mais complexa.


FOLHA – Qual a importância da energia para o país?
SAUER –
Quando o petróleo atinge mais de US$ 100, o controle desses sistemas é capaz de gerar enorme riqueza e empregos. Infelizmente, os governos estaduais e federal ainda não tiveram a visão de compreender o que se passa no mundo. Privatizar a Cesp é um equívoco político, estratégico e econômico. Não é só um problema do governo do Estado, é uma ausência de visão política e estratégica do setor.


FOLHA – Qual modelo seguir?
SAUER –
Deveríamos aprender com países como a China e a Rússia, que, em torno da estratégica do setor de energia e de infra-estrutura, têm buscado soluções que levaram a um crescimento econômico e a um poder geopolítico relevante. O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, era vice-presidente da Gazprom. Pela sua atuação, credenciou-se a virar o presidente da Rússia. A Rússia, que decretou a moratória em 1998, saiu desse pesadelo em grande parte se articulando com instrumentos de atuação estratégica em torno do gás, do petróleo e da energia.


FOLHA – Para o Estado, não é mais importante investir em outros setores, que não interessam à iniciativa privada?
SAUER –
Botar dinheiro no caixa do governo do Estado tem mais a ver com estratégias eleitorais do que com uma visão de futuro que compreenda o grande movimento do capital e do papel dos recursos naturais. Botar alguns bilhões nos caixa do Tesouro e abrir mão de capacidade enorme de atuação é um equívoco estratégico, que vale tanto para o governo do Estado como para o federal, que deixou o sistema Eletrobrás à míngua nos últimos seis anos. Fala-se muito em converter a Eletrobrás em uma Petrobras, mas não senti nada, está tudo parado.


FOLHA – Se é um equívoco do Estado, seria uma oportunidade para o setor privado?
SAUER –
Não vejo assim. Há riscos enormes. É uma aposta. Não acho que seja bom nem para o setor privado, porque tem muitos riscos jurídicos e econômicos. Muitas empresas sérias, que poderiam estar interessadas, afastaram-se. Acho que não convém concretizar agora. Há todo um imbróglio não resolvido com as concessões.


FOLHA – Qual a lição tomada se o leilão da Cesp fracassar?
SAUER –
Seria o momento de o governo do Estado e do federal darem uma olhada para o que está acontecendo no mundo, definirem uma nova visão coerente com os tempos de hoje e definir um modelo de reorganização empresarial do setor. Chamo tanto Serra como Lula para essa reflexão.






Leilão da Cesp exibe gargalos na energia

Risco regulatório e incertezas sobre formação de preços ameaçam sucesso de leilão da geradora, marcado para quarta

TONI SCIARRETTA
DA REPORTAGEM LOCAL

Marcado para a próxima quarta-feira, o leilão de privatização da Cesp, a terceira maior geradora brasileira, reabriu as discussões em torno do modelo de comercialização de energia e de regulação do setor no Brasil, país em que um crescimento robusto pode esbarrar na falta de eletricidade.
Além de gargalos regulatórios, como as regras deficientes para renovação das concessões, as elétricas enfrentam ainda um sistema de formação de de preços que dificulta o planejamento de fornecedores e dos consumidores, entre eles indústrias intensivas em energia, como as siderúrgicas. Parte dos preços é regulada, e o restante, em tese, livre, formado nos leilões de energia, que têm preços máximos.
O resultado dessas incertezas pode redundar no fracasso da venda da Cesp. Se concretizado, será o maior leilão de privatização desde a venda do Banespa, em 2000. Os concorrentes não confirmam sua participação no leilão, sob a alegação de que o preço pode não compensar os riscos assumidos.
Não está claro, porém, se esses riscos afastarão realmente os competidores da Cesp ou se a desqualificação faz parte de uma estratégia para diminuir a concorrência e comprá-la pelo menor valor possível. Na disputa, estão a franco-belga Suez/ Tractebel e a brasileira CPFL.
“Isso acontece em todos os leilões. É uma estratégia para comprar da forma mais barata possível. Nós fixamos um preço mínimo pelo qual vale a pena o Estado se desfazer da Cesp”, disse Mauro Ricardo Costa, secretário da Fazenda, que minimiza o problema das concessões. “Todas serão renovadas.”
Com a oferta de energia apertada em relação à demanda nos próximos quatro anos, a tendência clara é de alta nos preços do setor. O mercado brasileiro de energia cresce 5% ao ano, e as maiores elétricas do mundo passam por uma consolidação sem precedentes, que as impele a explorar mercados novos, como o Brasil. No caso, os riscos regulatórios e de preços representam também oportunidades de entrada em negócios com um preço mais baixo.
Prevendo pouca concorrência, o governo paulista fixou o preço da Cesp em patamar considerado alto, a R$ 49,75 por ação -na quinta, as ações terminaram a R$ 43,40. O custo total de investimento na aquisição da Cesp chega a R$ 22 bilhões, incluindo a oferta obrigatória aos minoritários, dívidas e investimentos.
O preço enfureceu os concorrentes, que desde sua fixação têm pressionado para diminuir o valor da aquisição. No mercado, comenta-se que alguns bancos fizeram operações financeiras sofisticadas de “aluguel de ações”, com o objetivo de derrubar o preço dos papéis.
O governo paulista afirma que decidiu vender a Cesp não por uma necessidade de caixa, mas para viabilizar seu programa de investimentos em infra-estrutura de transporte, uma vez que o setor privado tem interesse em explorar e em investir em energia.
“Dá para esperar mais cinco anos até resolver o problema das concessões? Pergunte ao usuário de metrô se ele pode esperar mais cinco anos para ter uma nova linha. Pergunte ao passageiro da CPTM se ele pode esperar cinco anos para converter o trem de superfície em metrô. Pergunte à população se dá para esperar dois ou três anos para ter coleta e tratamento de esgoto”, diz Costa.


Governo do Estado de SP minimiza problema da renovação das concessões e vê pressão para venda sair pelo menor valor possível






“Plano B” prevê pulverização de ações na Bolsa

DA REPORTAGEM LOCAL


Se o leilão da Cesp fracassar, o governo paulista poderá vender as ações excedentes ao controle do Estado na Bolsa. A venda funcionaria como as últimas ofertas de ações do Banco do Brasil. O problema é que, nesses casos, os papéis costumam sair abaixo do preço de mercado.
O governo sustenta que poderia conseguir um ágio, fixando um preço e atraindo o interesse de grandes investidores. A venda poderia levantar até R$ 3 bilhões, mas há dúvidas operacionais.
“Nós temos várias alternativas para monetizar esse ativo. A primeira é a venda na forma que foi estabelecida. Se não tiver lance, pode vender as ações em Bolsa. Pode-se fixar um preço. Existe plano B, C, D, E. Não temos só uma bala no revólver”, disse Mauro Ricardo Costa, secretário da Fazenda.




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