O ROMANCE “LINHA DE TRANSMISSÃO” DE ÁTILA BRANDÃO
Olavo Cabral Ramos Filho
Atila Brandão foi advogado de Furnas, Ele e seu colega mineiro Aldo Mota, pioneiros da empresa ainda antes de 1960, foram muito bem escolhidos por John Cotrim pelos seus profundos conhecimentos do comportamento dos povos das Minas Gerais. Isso facilitou as negociações, caso a caso, fazenda a fazenda dos processos de desapropriação das áreas a serem inundadas pelo reservatório de Furnas.
Entre março e dezembro de 1977, Atila escreveu romance Linha de Transmissão. Misturou ficção com realidade, mais realidade do que ficção. Na ficção com uma dose de autobiografia amorosa que corria o risco em face de uma esposa bravíssima.
O livro publicado em 1978 contou a história heróica do nascimento da Central Elétrica de Lapas S.A.
O espantoso em 2007 foi o fato dos dirigentes de Furnas terem esquecido de patrocinar uma reedição do livro esgotado durante os festejos do cinqüentenário da empresa. Um livro editado quando a empresa fazia 30 anos.
Como documento da história recente transcrevemos a seguir um trecho do livro. O ano de 1978 antecedeu o ano < />
““… Por tudo isso é bem de calcular-se a apreensão, o temor, a expectativa que de mim se apossaram quando, pela primeira vez em Lapas, o Dr. Duarte chamou-me a seu gabinete. Ali entrei receoso, meio arvorado e, enquanto sorvíamos goles curtos de café, Sua Senhoria ordenou-me que elaborasse a minuta de um ofício para um Ministro qualquer. Lembro-me bem de que, depois de explicar-me, com minúcias, o assunto a ser enfocado, encareceu-me da necessidade de que tal correspondência se cingisse ao estritamente necessário e, tirando os óculos para esfregá-los com um lenço, acentuou em tom grave:
– Pois saiba o senhor, seu Dr. Aloísio Florence, que isto aqui, basicamente, é uma Companhia de engenheiros… insistiu na definição, escandindo o vocábulo, sílaba por sílaba: – En-ge-nhei-ros…Órgão eminentemente técnico, empresa essencialmente prática…E o estilo de Vocês, advogados, parece-me meio empolado, com excesso de adjetivos… Não quero nada disso… Redija a minuta com carinho…Mas antes de trazê-la, leia-a e releia…Pode aqui, corte acolá…Quero tudo sintético, reduzido, bem sucinto…
Confesso que, ao sair da entrevista, essa minha primeira impressão sobre aquele Diretor, não foi lisonjeira; pareceu-me algo “poseur”.
Desnecessário se torna esclarecer que, ao redigir o malsinado ofício, fi-lo e refi-lo com redobrada atenção. Seguindo as instruções, retifiquei-o, suprimi frases, podei outras, tudo isso – guardadas as proporções – com a beneditina. paciência de Gustav (sic) Flaubert, ao burilar as páginas de Madame Bovary.”
O trecho é longo. Estão nas páginas
Aos dirigentes da empresa nos seus cinqüenta mais um ano, e aos novos que lá estão neste ano de 2008, sugerimos sua amena leitura. Conhecerão o primeiro “controvertido” Presidente da Central Elétrica de Lapas, Dr. João Godinho/John Cotrim. Conhecerão o Diretor Financeiro Dr. Basílio Duarte/Benedito Dutra e o Vice-Presidente Dr. Fausto Henrique da Silveira/Flavio Henrique Lyra da Silva.
Aquela diretoria que Godinho/Cotrim, nos anos noventa, contava que tinha sido uma mera coincidência história, difícil de repetir, pois sua existência tinha sido como o alinhamento de todos os planetas do sistema solar, isto é, só ocorre de cem mil em cem mil anos.
Com esperança da correção de um esquecimento típico de tempos mais bicudos cujos protagonistas esquecem histórias mais gloriosas, senhores dirigentes de Furnas: providenciem uma reedição de capa dura. Não esqueçam de procurar o filho único do Átila. Ele foi engenheiro da empresa. Ou ainda é.
Átila foi um otimista como todos nós eramos. Apesar de seu estilo, quiçá produto piegas daqueles anos da ditadura militar, transcrevo as ultimas linhas do livro:
“… Lapas Centrais Elétricas S.A. continuava hoje, o que fora ontem e, fatalmente, seria amanhã: uma célula viva, uma fonte criadora, uma forja de trabalho, uma força espiritual, indestrutível e eterna. Sob as bênçãos de Deus e para maior grandeza da pátria!…”.