Joaquim Francisco de Carvalho *
Um sistema interligando as hidrelétricas com as eólicas e as termelétricas a biomassa, com as capacidades e fatores de capacidade indicados na tabela abaixo poderá gerar cerca de 1.103 GWh por ano.
Sistema Interligando parques hídricos, eólicos e biotérmicos
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Parque gerador |
Capacidade (GW) |
Fator de capacidade * |
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Hídrico |
209 |
0,43 |
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Eólico |
143 |
0,22 |
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Térmico a bagaço |
15 |
0,30 |
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* Conservadoramente, tomei fatores de capacidade isolados e baixos. No sistema interligado, o f.c. deve superar a média ponderada dos sistemas isolados. Observação: Os potencias hídrico e eólico acima indicados já levam em conta as alterações previsíveis, em função das mudanças climáticas. |
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As usinas térmicas a gás natural já existentes seriam acionadas (com suprimento flexível de combustível) apenas em períodos hidroeólicos críticos, otimizando a operação do sistema e servindo como seguro para reduzir riscos de racionamento.
Para isto, será necessário realizar grandes investimentos na modernização dos sistemas de transmissão e distribuição, inclusive mediante o emprego de tecnologias avançadas, como as redes inteligentes (smart grids), para que o despacho dos parques eólicos seja continuamente associado ao despacho das hidrelétricas, elevando consideravelmente o fator de capacidade do sistema interligado.
Igualmente necessário é que o planejamento do setor energético seja mais abrangente, siga diretrizes estratégicas bem definidas para o longo prazo e seja normativo, diferentemente dos planos feitos nos dias de hoje, que são influenciados pela conjuntura política, por pressões corporativas e até por interesses mercantis de curto prazo.
E será indispensável que a Empresa de Pesquisa Energética e o Operador Nacional do Sistema sejam formalmente vinculados, a fim de compatibilizar os planejamentos de curto e médio prazos, com a operação do sistema; evitando os desentendimentos que têm colocado em risco o suprimento de energia, embora a afluência mínima dos rios brasileiros, em seu conjunto, não tenha passado por mínimos inferiores a 15% abaixo da afluência média, nos últimos 10 anos.
Observações:
1. Nesta nota, não considerei o potencial fotovoltaico, o qual –com o desenvolvimento tecnológico nos campos dos semicondutores e das redes inteligentes – poderá desempenhar um papel muito importante no sistema elétrico brasileiro.
Tampouco foi considerado o potencial energético dos mares (energia das ondas, das marés, das correntes marinhas, etc.). Considerando que o Brasil tem mais de 8 mil quilômetros de costa atlântica, presume-se que este potencial seja significativo.
Também não foi tomado em conta o aproveitamento de resíduos urbanos em minicentrais termelétricas que, em conjunto, podem ter um potencial muito grande, dada a magnitude do problema colocado pelo descarte desses resíduos, num pais de população urbana superior a 160 milhões de habitantes.
2. É importante ter em mente que, a partir de um patamar razoável, o bem estar de uma sociedade não depende, necessariamente, do crescimento à outrance da produção física, nem de um grande consumo de energia.
Países como a Suíça e a Alemanha, por exemplo, não crescem desmesuradamente e, em termos per capita, consomem três vezes menos energia do que os Estados Unidos, no entanto os suíços e alemães desfrutam de uma qualidade de vida superior à dos norte-americanos.
Em outras palavras, o desenvolvimento deve ser buscado através do aprimoramento da educação e da saúde pública, do aperfeiçoamento dos processos de produção e da qualidade dos produtos, da racionalização da infraestrutura de telecomunicações e dos sistemas de transportes e assim por diante – e, naturalmente, do uso racional da energia para essas finalidades.
Se não for assim, carece de sentido o crescimento a qualquer custo, tão ansiosamente almejado por determinadas correntes de economistas.
Conclusão
Pode-se afirmar que um sistema hidroeólico estruturado nas condições brasileiras seria inteiramente sustentável e teria capacidade para cobrir indefinidamente a demanda brasileira por energia elétrica.
De fato, como foi mostrado acima, graças aos seus imensos potenciais hídrico e eólico, o Brasil poderá estruturar um sistema hidroeóloico capaz de gerar, de forma renovável e sustentável, cerca de 1.103 GWh por ano.
Assim, a partir de 2.050, quando, segundo o IBGE, população estará estabilizada em 215 milhões de habitantes, o sistema hidroeólico teria capacidade para oferecer ao país, em caráter permanente, algo em torno de 5.100 kWh por habitante por ano.
Isto significa que, apenas com o aproveitamento de fontes de energia limpas e sustentáveis, o Brasil poderá, em matéria de energia elétrica, equiparar-se a países europeus altamente desenvolvidos. Naturalmente, o fato de ter a possibilidade de fazer isso não significa que o Brasil fará isso, porque os nossos governantes deixam-se levar por injunções conjunturais de curto prazo, e não por critérios técnicos.
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* Pesquisador associado, IEE/USP e pós-doutorando, COPPE/UFRJ