Kelman assume falhas

Hoje, Kelman assume falhas na regulação

Aline Massuca/Valor

 

Jerson Kelman, presidente da Light, vive uma situação sui generis. No comando da empresa desde março de 2010, ele tem de enfrentar problemas que poderiam ter sido detectados na época em foi o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), entre 2005 e 2008. Kelman diz que, com o conhecimento adquirido em pouco mais de um ano de Light, teria agido de forma diferente em relação à distribuidora.

“Como regulador, proibi investimentos. Não porque não era necessário, mas porque não era pagável”, disse  “O raciocínio do regulador foi econômico, não foi financeiro. Porque o regulador não vê a concessionária, vê a concessão. O pressuposto é que o concessionário tem interesse em investir, porque ele vive disso”, disse.

Kelman, que escreveu o livro “Desafios do Regulador” depois que saiu da Aneel, explica que o principal parâmetro da agência reguladora para medir a eficiência da operação de uma distribuidora são os índices de DEC e FEC – que medem a duração e a frequência das interrupções de fornecimento para os consumidores. Kelman observa que há uma queda de braço que ele considera normal, tendo, de um lado, a concessionária tentando investir o máximo possível e, do outro, a agência limitando os gastos ao que é necessário.

A explicação é que a empresa consegue jogar para a tarifa os aportes autorizados pela Aneel, enquanto a agência tem que zelar pela modicidade tarifária. Dessa forma, Kelman explica que, do ponto de vista econômico, é ilógico uma companhia não trocar um equipamento velho, uma vez que o custo será repassado para a tarifa.

Agora, ao lado do regulado, ele vê com clareza falhas na regulação para enxergar problemas financeiros nas companhias, que podem limitar os investimentos. Além disso, ressalta que visões de curto prazo podem levar a problemas e o ideal é ter controladores com objetivo de longo prazo.

“O regulador tem de olhar também a concessionária além da concessão. Tem que checar se investimentos economicamente atraentes, que têm toda lógica, estão deixando de ser feitos e aí colocando em risco, por decisões da empresa, questões financeiras da concessionária. Isso eu não fiz na Aneel. Também não sabia. Seria mais uma recomendação. Quando saí, até por influência dos jovens, dei sinal verde quando eles disseram que tínhamos que compreender mais a realidade das empresas”, admite.

Dentro dessa visão as mudanças de controle na Light desde a privatização, em 1996, poderiam ser um indicativo dos problemas que surgiram agora. O controle da companhia mudou cinco vezes nos últimos 15 anos.

Curiosamente, em 2010, os dividendos da Light aumentaram 58,23%, avançando de R$ 502,6 milhões para R$ 795,3 milhões, enquanto o lucro líquido caiu 2,3%, de R$ 588,8 milhões para R$ 575,1 milhões no mesmo período. Os investimentos também cresceram, de R$ 563,8 milhões para R$ 700,6 milhões, um pulo de 24,26% em relação a de 2009. “Quando havia troca de controle acionário de empresas, achava aquilo o assunto mais tedioso do mundo quando tinha reunião de diretoria. Agora, do outro lado do balcão, percebo que tem que ter alguém a longo prazo”, diz Kelman. (CS e RR)

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