OBSOLESCÊNCIA OU INADEQUAÇÃO?




Eng. Felício Limeira de França             Recife, 21 de dezembro de 2012



            É preciso não se confundir inadequação com obsolescência. O guarda-chuva, por exemplo, ainda é um invento atualíssimo. Já usá-lo durante um temporal, com ventos a 100 km/h, é totalmente inadequado. Ás vezes as coisas ficam inadequadas antes de se tornarem obsoletas.

            Essas considerações vêm a propósito da configuração da SE de Itumbiara, qualificada como obsoleta e como tal causadora do último grande apagão no SIN. Num sistema que evolui continuamente em tamanho e complexidade, aqui acolá, componentes e/ou configurações tendem a se tornar inadequadas antes de caírem em obsolescência. O importante não é identificar o substantivo mais adequado para informar melhor a opinião pública e sim a capacidade de identificar tempestivamente o inadequado ou obsoleto antes que eles criem problemas de embaraçosa explicação.

            No caso do nosso SIN, parece que a incapacidade de agir tempestivamente vem causando sucessivos problemas à confiabilidade do sistema. Como a análise antecede à ação, fica a dúvida se a dificuldade reside na identificação antecipada dos problemas, na consecução de sua solução, ou em ambas as coisas. Não tenho condições de avaliar o nível atual de “expertize” dos agentes envolvidos no planejamento e operação do SIN, mas sou capaz de apostar que ele continua muito bom. Já não tenho a mesma opinião sobre a organicidade do arranjo institucional do Setor Elétrico.

            É fato que as mudanças na configuração organizacional da indústria de energia elétrica, mundo afora e aqui, para atender às exigências do “novo modelo” aumentaram tremendamente a dificuldade para operar os sistemas elétricos, já complexos por natureza.

            Ao negar a economia de escala e separar funções que antes operavam como um todo – geração, transmissão, operação – e estabelecer, pelo menos aqui no Brasil, uma interseção fortíssima entre a área técnica e aquela de regulação normativa predominantemente comercial e institucional, introduziram-se os vírus da indefinição e da lentidão.

            Adaptando-se o modelo às nossas peculiaridades e tentando ajustar-se ao “planejamento indicativo”, criou-se um órgão de planejamento (EPE) totalmente divorciado daquele encarregado da operação (ONS), com o agravante de que o primeiro é um órgão publico e o segundo uma entidade de caráter privado.

            O que antes funcionava sob um mesmo teto (Eletrobras) foi separado para adaptar um modelo importado às nossas circunstâncias.

            Para garantir um equilíbrio de competências técnicas entre essas diversas áreas (EPE, ONS, ANEEL) seria preciso quase que replicar equipes; um verdadeiro contra-senso. Em outras palavras a negação da economia de escala migrou, como conseqüência, do mundo físico para a área conceitual-operacional, com resultado que aí está.

            Se o sistema está apresentando inadaptabilidade nas condições atuais, imagine o que vem por aí, com algumas mudanças de paradigma: de predominantemente hidráulico para hidro-térmico e de forte reservação hidráulica para blocos maciços de energia à fio d’água.

Que Deus nos ajude.

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