No Brasil a “meia-sola” das usinas sem reservatório continuará a gerar dependência da energia térmica à vontade, para alegria das petroleiras e redução do crescimento das renováveis.
Ivo Pugnaloni

Segundo artigo de Diarmaid Williams, editor internacional da revista “Power Engineering International”, publicado em 22 de março último, o Conselho de Eletricidade da China divulgou novas estatísticas naquela semana, mostrando que a produção de energia a partir de fonte eólica cresceu mais do que a produção de energia a partir do carvão em 2012.
Na verdade o crescimento do eólico foi simplesmente fantástico para os padrões ocidentais, superando em mais de 100% o acréscimo de produção daquela fonte fóssil. O uso de energia térmica cresceu apenas 0,3% em 2012, adicionando 12 terawatt-horas (TWh) mais eletricidade ao sistema.
Em contraste, a produção de energia eólica expandiu-se em mais de 26 terawatt-horas, saindo dos 74 TWh em 2011 e atingindo os 100 TWh em 2012, superando até mesmo a marca dos 98 TWh que a energia nuclear atingiu no mesmo ano.
Ou seja, em apenas um ano, a geração de energia a partir dos ventos na China, cresceu 33%, superando a média mundial de crescimento que tem sido superior a 22% ao ano.
Mas a maior surpresa não é essa.
As estatísticas mostram que o maior crescimento, entretanto, ocorreu na nossa velha e desacreditada amiga, a energia hidroelétrica cujo total gerado cresceu 196 TWh, ou 22%, atingindo a produção total de 864 TWh, devido às condições climáticas favoráveis do ultimo ano com relação a 2011 e a ao aumento de capacidade de geração hidroelétrica.
De acordo com o coletivo de energia do Conselho, embora o carvão continue a representar 79% da produção de eletricidade da China, essa predominância vem sendo crescentemente desafiada pela competição de várias formas de energia limpa, devido a políticas governamentais e a preocupação da opinião pública com a qualidade do ar.
O Décimo Segundo Plano Quinquenal de Energia do governo chinês ( 2011-2015 ) visa reduzir a participação do carvão de para 70% ou 65% do total da energia produzida em 2015, objetivando elevar a participação das energias não-fósseis para 30% no final do mesmo ano.
Queda nas compras de carvão: avanço eólico-hidráulico ou retração do PIB?
Em artigos dos últimos dias, agências de notícias ocidentais trataram desse mesmo assunto, mas preocupadas principalmente com a queda do preço do carvão que, a partir da sobra no mercado chinês, estava caindo no mercado mundial ameaçando os resultados da Billington na Indonésia, principal fonte de importação para a China.
Ao que parece, as principais agências de noticias do Brasil não possuíam esses dados estatísticos sobre o crescimento da energia eólica e hidroelétrica na China, pois preferiram atribuir essas quedas nas compras de carvão apenas à retração da economia chinesa, que como se sabe, foi anunciada em 2010, quando a Assembleia Nacional decidiu reduzir o crescimento do PIB para o quinquênio de 10% para 7,5%.
Ocorre que essa redução proposital e planejada do PIB, numa economia como a da China, não significou reduzir o crescimento da geração de energia, muito menos das energias renováveis, cujo crescimento em 30% ao ano, é meta do décimo segundo dos planos quinquenais chineses para o setor.
Além disso, a redução do PIB chinês, na forma como proposta visou não propriamente reduzir o crescimento da economia como se poderia pensar, mas sim empregar mais investimento governamental na melhoria da qualidade de vida, nos serviços públicos, na diminuição das enormes desigualdades sociais ainda existentes no gigante asiático.
Ou seja, a redução do PIB não seria um objetivo em si, mas seria uma consequência prevista, um risco calculado, de um novo foco, um novo direcionamento dos investimentos governamentais em atividades “menos produtivas”.
Acontece que embora sejam menos rentáveis do ponto de vista do crescimento, investimentos em áreas sociais tem impactos significativos sobre o aumento do consumo de energia. Ainda mais num país com as dimensões da China.
Um exemplo importante deste tipo de impacto é o esforço para diminuição da desigualdade entre campo e cidade, com a melhoria dos serviços de saúde, de educação e de assistência social e de infraestrutura de transporte, que, embora não sejam diretamente “produtivos”, aumentam e muito a demanda por mais TWh/ano, num país com regiões muito frias e muito quentes e de grandes distâncias.
A determinação de atendimento integral de emergências durante as 24 horas por parte de grande número de postos de saúde e hospitais que em cidades pequenas do interior e nas regiões mais distantes, é uma dessas atividades que aumentam o consumo de energia elétrica. Bem como o aumento do número de escolas técnicas e até de universidades e escolas de medicina, enfermagem e áreas afins, que precisaram passar a funcionar em dois turnos.
Na contramão, Brasil planeja e executa plano de maior dependência das térmicas.
Enquanto isso, dependendo cada vez mais de termoelétricas caríssimas, movidas a óleo diesel, “shale gas” , gás natural liquefeito e carvão, o Brasil caminha na contramão do mundo.
Aqui a energia termoelétrica de origem fóssil chegou a ser comprada por R$ 1200,00 por megawatt-hora, quando a de fonte hidroelétricas de grande porte é cotada apenas R$ 118,00, mas ninguém se importa com isso, pois afinal, enquanto existir energia elétrica, enquanto não houver o risco de um “apagão”, ninguém se preocupa seriamente com o assunto.
É curioso até notar como algumas pessoas fazem questão de dizer, orgulhosas: “de eletricidade só entendo de ligar o interruptor”, mas em contrapartida, quando o assunto é vinho, adoram fazer charme, deslumbrando a todos com seu conhecimento, aparentemente profundo, das vantagens do cabernet chileno sobre o merlot da Borgonha.
Afora a mídia especializada, que conta com relativamente poucos veículos, a chamada grande mídia parece ter interesse superficial no assunto, normalmente quando uma tempestade desliga um sistema ou quando existe ameaça real de um apagão.
À mercê de estarmos em meio da desinformação quase total sobre energia, ainda quer o governo federal baixar o custo das tarifas na “marra”, numa época em que não construímos hidroelétricas com reservatórios “porque os índios não deixam”.
Para baixar tarifas seria muito prudente não aumentar custos de sua aquisição.
Se formos obrigados a pagar 2,7 bilhões de reais por mês, no ano que vem, para sustentar as termoelétricas disparadas este ano a todo vapor, como poderemos baixar as tarifas?
No nosso planejamento, devemos fazer escolhas claras, ter metas claras, assumidas por todos e conhecidas por todos. E não apenas continuarmos a prever o dia e o ano do desastre da energia inacessível, com o preço mais caro do mundo, como se fosse o nirvana.
Devemos escolher claramente o que queremos: continuar a comprar mais energia cara das térmicas, queimando dinheiro transformado em fumaça ou pagarmos uma ínfima parte disso aos atingidos pela construção de novas hidroelétricas e fazer programas de compensação sustentáveis?
Devemos preferir correr os riscos da dependência estratégica do petróleo para gerar energia, deixando-nos reféns de conflitos armados sobre os quais não temos controle ou investir no completo e perfeito atendimento ao previsto nos programas ambientais das hidroelétricas que tenham reservatórios capazes de viabilizar o crescimento de novas usinas de produção de energia renovável, cíclica e complementar?
Devemos continuar queimando óleo diesel, carvão, óleo combustível e gás importado, ou pagar um pouco mais pela geração de energia renovável, que viabilizem essas fontes das quais temos combustível farto e baratíssimo no país?
Usinas sem reservatórios e “shale gas”: a manipulação de que Francisco falou?
A jabuticaba é uma fruta que só nasce no Brasil. Mas aos poucos nossos conhecimentos sobre vão se expandindo e descobrimos que construir grandes usinas hidroelétricas de grande porte, sem reservatório, também é privilégio do nosso Pindorama.
Nessa questão de reservatórios, diga-se, há muitas outras bobagens sendo ditas. E que precisam ser desmistificadas por uma atuação coordenada dos envolvidos.
A primeira é que todo mundo sabe que os povos indígenas não pedem muito. E que, apesar do que pareçam nas fotografias, eles não são “totalmente contra as usinas hidroelétricas”.
Essa crença é muito mais um mito, criado por gente da cidade, – que não pode ficar um minuto sem energia elétrica – , mas que quer ensinar os índios a continuarem a ter a vida que tinham há quinhentos anos atrás.
Que essas pessoas utilizem nessa atividade recursos de grandes empresas petrolíferas interessadas em aumentar sua participação no mercado de geração de energia de origem termoelétrica, impedindo que aconteça aqui, o avanço das renováveis como na China, pode não ser muito ético.
Mas é algo permitido. Desde que digam isso claramente e mostrem seus balanços anuais para dar transparência às suas ações e às fontes de seus recursos. Afinal, o Papa Francisco alertou os jovens para que não se deixem manipular. E isso também vale, não só para os jovens indígenas, mas para os homens e mulheres, brancos, pardos, pretos, amarelos, de qualquer idade.
É preciso deixar claro que os povos indígenas só querem que se cumpram as leis que determinam que eles, como atingidos, igual aos ditos “brancos”, também devem usufruir um pouco que seja, dos resultados líquidos da produção de energia e também devem participar do planejamento, do projeto das usinas e de sua implantação.
A segunda é que os impactos ambientais de usinas com reservatório e sem reservatório não são muito diferentes, se forem considerados os custos de aplicação de projetos de compensação ambiental e sócio-economica consistentes.
A terceira é que sem reservatório, não existe viabilidade econômica real para a geração de energias renováveis, pois estas são cíclicas, previsíveis sim, mas não muito exatamente. Sem os reservatórios, que guardem a agua das usinas maiores, o nosso sistema, que é todo interligado, não terá como armazenar a energia que as pequenas hidroelétricas, as solares, eólicas, e à biomassa, que são cíclicas, gerarem a mais.
Ou seja, construirmos usinas sem reservatório, como uma “meia sola”, como um “remédio amargo”, é continuar na mesma. É muito ruim por dois motivos: primeiro por não resolver nada do ponto de vista da capacidade de armazenar a energia do sistema e, ao mesmo tempo, por não resolver nada para reduzir os conflitos com as populações indígenas.
Por nos deixar desarmados para o futuro, essas usinas sem reservatório nos deixarão, como “único caminho” e “taboa de salvação” para gerar energia elétrica, a exploração do “shale gas”, ou gás de xisto não-convencional pelo processo “fracking”, a mais nova pirâmide financeira montada nos EUA para enganar incautos e aquecer a indústria de equipamentos.
( Ivo Pugnaloni, eng. Eletricista, diretor do grupo ENERCONS e da ABRAPCH, foi diretor da COPEL e do ILUMINA )