ARTIGO Bombom envenenado?

Bombom envenenado?(*)

Os trabalhadores da Eletrosul obtiveram uma vitória junto à Justiça em Santa Catarina. O MPT-SC notificou a Eletrobrás e sua coligada Eletrosul para que suspendam imediatamente a implantação da “nova política de operação” que introduz o sistema de telecontrole em usinas e subestações, nos três Estados do Sul do Brasil.

A nova política, explicada como “modernização tecnológica”, reduz drasticamente o trabalho humano na operação dessas unidades, substituindo-o por equipamentos cujos sinais de comando são dados por operadores localizados remotamente. Essa é uma interpretação insensível do que seja evolução tecnológica, pois elimina o emprego do ser humano e o substitui por equipamentos. Na prática descarta o empregado e o trata apenas como um objeto de consumo, não mais necessário a essa política supostamente moderna, com o argumento de “diminuição dos custos operacionais”, leia-se, diminuição da folha de pagamento.

Fazendo um exercício de criatividade, poderemos imaginar, por absurdo, que se a empresa em questão demitir todos os seus empregados humanos na área de operação, teremos como consequência uma drástica diminuição dos custos operacionais. Os novos equipamentos, mesmo sendo robôs, não serão sindicalizados e nunca irão recorrer à Justiça do Trabalho para tentar reparar as injustiças cometidas. Um absurdo. Saindo do imaginário e voltando ao real, lendo os “considerandos” do MPT pode-se ver claramente que essa implantação foi feita à revelia dos maiores interessados, os que foram atingidos diretamente, que são os trabalhadores, o capital humano da empresa. Pior ainda, colocou-se em risco a área FIM da empresa, que é a Operação, motivo da existência dela como uma empresa estatal federal responsável pelo fornecimento de energia elétrica para uma vasta e economicamente importante Região do Brasil.

O telecontrole e a operação remota de equipamentos começaram a ser implantado na década de 70/80 na Europa e Estados Unidos, limitando-se ao controle remoto de subestações isoladas, sem grande importância para o sistema, onde manter uma equipe de operadores era muito custoso. Após as falhas iniciais normais em uma nova tecnologia, o sistema foi incrementado e funciona normalmente. Usinas e subestações de grande porte, essenciais ao Sistema, não eram operadas remotamente, embora fossem assistidas on line pelos Centros de Controle.

A implantação de qualquer nova tecnologia deve ter normas claras e rígidas e ser exaustivamente testada na prática exigindo a colaboração direta dos empregados que operam o sistema, principalmente quando implica em relocações e possíveis dispensa dos empregados. Uma empresa moderna aproveita essa ocasião para dar novas oportunidades aos empregados que tenham que ser deslocados para outras funções, direcionando-os para tarefas mais nobres, com treinamento adequado e possibilidades de crescimento funcional.

Nada contra a implantação de novas tecnologias, pede-se apenas bom senso por parte da direção das empresas e que isso seja feito sem riscos para o sistema elétrico e para os operadores. O que se vê neste caso é uma empresa federal, que deveria dar o exemplo, descumprindo normas técnicas e preocupada prioritariamente com o aspecto comercial. Foi preciso a intervenção da Justiça para abrir os olhos da empresa para os absurdos que estavam cometendo.

O momento exige maturidade por parte dos gerentes da empresa e dos dirigentes sindicais para superar as dificuldades e impasses de uma forma que seja a melhor para todos os atores e para a população que consome o produto essencial que é a energia elétrica.

Luiz Pereira

Eng. Eletricista

Diretor do Ilumina

 (*)Artigo publicado no jornal LINHA VIVA, n° 1122,  do SINERGIA-SC/INTERSUL

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