Desinformação.gov.br II

Roberto Pereira D’Araujo

Mais um documento do governo brasileiro repleto de informações falsas.

A pergunta que fica é: Essa política de desinformação seria aceita num país realmente republicano? As frases emitem opiniões não fundamentadas que revelam a velha receita da privatização mal feia, disfarçada sob um manto de mercado, como se fosse uma novidade ainda não experimentada no país.

Abaixo, alguns trechos em itálico marrom:

CAPITALIZAR PARA CRESCER COM O BRASIL

… o Brasil precisa ter um ambiente competitivo com empresas sólidas e capitalizadas. Aqui entra em cena a situação da Eletrobras. O Brasil, para crescer, precisa contar com a participação de uma Eletrobras com recursos em caixa que a permita participar do esforço de investimento no setor elétrico.

Frase que tenta desinformar que, num passado bastante recente, justamente causando prejuízos à estatal, a Eletrobrás foi obrigada a oferecer parcerias ao setor privado assumindo projetos minoritariamente. E não foram apenas alguns exemplos! Cerca de 178 iniciativas (22 GW de geração hidráulica, muitas eólicas e milhares de km de linhas de transmissão). Investimentos da ordem de R$ 3 bilhões/ano tentando “animar” o setor privado.

A Eletrobras, que hoje tem capacidade de gerar 30,1% da energia e detém 44% das linhas de transmissão do País, é tecnicamente capaz de participar desse movimento, mas não dispõe de capital para investir. Precisa ser capitalizada. Em outras palavras, precisa ir ao mercado em busca de recursos, que é a forma usada por grandes corporações no mundo todo.

A experiência real brasileira mostra que a frase “ir ao mercado em busca de recursos” ainda não foi transformada em realidade no Brasil. Para justificar essa afirmação, mostramos os registros atualizados monetariamente de desembolsos do BNDES ao longo de 25 anos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O gráfico mostra um dispêndio total de R$ 3,8 trilhões! Desse total, R$ 1,3 trilhões foi destinado ao setor elétrico, o que deixa evidente que não foi “o mercado” que atuou na nossa história econômica.

No mesmo documento, um gráfico, já mostrado pelo Presidente Wilson Moreira, que salienta apenas os dados depreciativos da Eletrobrás. A participação % da estatal se reduziu em função dos “socorros” que a empresa teve que prestar ao modelo privado mercantil. Suportou distribuidoras rejeitadas, praticamente doou energia ao mercado livre, foi obrigada a oferecer parcerias ao setor privado e bancou sozinha a inútil tentativa de redução tarifária.

Gráfico do Documento

Além disso, é possível perceber pelo gráfico abaixo (que mostra a quantidade de MW adicionados em cada ano) que o planejamento se deteriorou completamente na expansão do setor.

Nele é possível perceber os “booms” de térmicas no pós racionamento de 2001 e no leilão de 2008 patrocinado, ai sim, pelo setor privado. Seria honesto salientar que a expansão hidroelétrica no período pós 2014 foi proporcionada pelas parcerias minoritárias da Eletrobras nos grandes projetos de Belo Monte e Rio Madeira

Os recursos hídricos, rios, lagos, reservatórios – continuam sendo propriedades da União e a concessão pela exploração e uso será revertida ao final do prazo de concessão (30 anos). O potencial hidráulico é concedido, a água não.

O gráfico abaixo mostra que até essa última frase é falsa. Sob o mecanismo de mercado aplicado no singular sistema brasileiro, quem se aproveitou da água foi o mercado livre. A Linha vermelha mostra o preço de referência do “mercado” e a linha azul, para ter comparação, o preço válido para o MWh do setor residencial. Como se pode ver, por quase 10 anos, quem se aproveitou da água, seja proveniente de “sobras”, seja resultado de chuvas, foram os agentes que atuam no mercado livre.

Sobre o insistente comentários de que existem poucas estatais no mundo moderno, citamos um estudo da USP: Das dez maiores empresas do mundo segundo o valor dos ativos, 60% são estatais da China, EUA e Japão, destacam os professores da USP Alessandro Octaviani e Irene Patricia Nohara, no livro Estatais. Há 1,5 mil estatais multinacionais. A China tem 150 mil estatais, a Alemanha 15,7 mil, os EUA 7 mil, a Coreia mais de 300, o Canadá mais de 100, a França 81 e o Brasil, 138, segundo dados de 2018. (citando a reportagem da Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/economia/como-seria-o-brasil-de-guedes-sem-bndes-petrobras-caixa-e-bb/?fbclid=IwAR2gk_PWxwkCt6S3iPjcoOk1WkPQZ3lVTSuGqPUaOlMtpE3AlrCe9zFl36Q

Na maioria dos países, com matriz energética baseada em hidrelétricas semelhante ao Brasil, a concessão é privada. Nos Estados Unidos, 10% das usinas hidrelétricas são de propriedade federal, 27% pertencem a estados, municípios, distritos e cooperativas e 63% das hidrelétricas são privadas.

Vejam como é grave tal afirmação! Aqui, o governo brasileiro presta falsas informações sobre outros países. Mentiu sobre China, Canadá, Rússia, Noruega, Suécia e até Estados Unidos. A maioria das hidroelétricas americanas, consideradas sua potência, é, não só do “governo” como do Corps of Engineers, um orgão ligado ao exército americano, como pode ser constatado no quadro abaixo. Para o governo brasileiro uma usina de 1 MW vale o mesmo que uma de 1000 MW!

Para finalizar, perguntamos quantas desinformações adicionais seriam necessárias para exigir explicações dos responsáveis???

  1 comentário para “Desinformação.gov.br II

  1. NARCISO DE OLIVEIRA CARDOSO
    14 de março de 2021 at 9:55

    Excelente estudo sobre as informações necessárias acerca do tema setor elétrico brasileiro.

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