Tendo em vista os artigos reproduzidos abaixo, de autoria do jornalista George Vidor, e que foram publicados no web-site do OGlobo, fazemos algumas considerações acerca do teor destes artigos, por considerarmos que abordam um tema importante para ser tratado no momento, que é a ‘Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (CCC)’, cobrada de todos os consumidores atendidos pelo Sistema Interligado Nacional (SIN) e que tem um peso considerável nas nossas contas de consumo de energia elétrica, ficando este encargo embutido na parcela “encargos” que vem agora discriminada na conta emitida pela concessionária de distribuição de cada localidade no Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e parte do Norte do país. Dessa forma, em relação às linhas de transmissão entre Tucuruí e Manaus, são chamadas de “gigantescas” com razão, pois, além da sua enorme extensão, o seu projeto e construção significarão um marco para a engenharia nacional, com a superação de grandes desafios técnicos. Dentre estes desafios estão a travessia aérea do rio Amazonas, e também a adequação a rígidos cuidados com o meio ambiente na floresta amazônica. A construção destas linhas de transmissão é muito importante, pois ampliarão o Sistema Interligado Nacional – SIN (aquele que vai do extremo sul do Rio Grande do Sul até Belém do Pará) não apenas até Manaus, como também até Macapá e Boa Vista, através de ramais deste tronco de transmissão citado nestes artigos. E qual a vantagem disso? São várias, como por exemplo permitir atender estas capitais com o “excedente” de energia hidrelétrica do SIN (de valor muito barato, pois, como excedente, é gerada com água que está sobrando nos reservatórios e que seria vertida sem produzir nenhum kWh). Além disso, estas capitais são responsáveis por cerca de 80% da cobrança da CCC (Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis), que é cobrada de todos os consumidores do SIN, e cujo montante está ao redor de 3,6 bilhões de reais por ano, valor que tende a subir ainda mais por conta da elevação dos preços do petróleo e do aumento do consumo nos sistemas isolados da amazônia. Estas localidades citadas (Manaus, Macapá e Boa Vista), ao passarem a ser supridas pelo SIN, através da construção do linhão Tucuruí-Manaus-Macapá-Boa Vista, trarão como mais um efeito benéfico imediato a eliminação da cobrança da CCC destas localidades, que deixará automaticamente de existir, representando uma redução anual da ordem de dois bilhões e oitocentos milhões de reais, que deixarão de ser cobrados de todos os consumidores do SIN por ano. Mas as vantagens não param por ai, já que o gás que é extraído da província de Urucu poderá ser utilizado em Manaus para também gerar energia elétrica, energia elétrica esta que poderá, em alguns períodos do ano, ser “exportada” para os outros estados brasileiros. Ou seja, no período de baixa hidraulicidade (quando a água dos reservatórios das hidrelétricas fica mais cara, por estar mais escassa), as usinas termelétricas de Manaus poderão atender aos demais estados brasileiros também, dando maior confiabilidade ao parque gerador do país (parque este que passa, então, a ser caracterizado, cada vez mais, como de base hidro-térmica, e não mais de base hidrelétrica). O gasoduto de Coari até Manaus tem realmente estado com a licença ambiental para a sua construção como um filho de um parto muito difícil. Não sei se este é o caso de corpo mole da Petrobrás, até porque todo o óleo diesel que ela deixará de importar para as atuais térmicas de Manaus (o que é uma quantidade muito grande) significará um saldo extra nas suas exportações líquidas, melhorando seu desempenho corporativo (além de continuar mantendo como seu cliente todo o mercado de Manaus, atendido com o insumo gás natural produzido em Urucu pela Petrobrás para a geração termelétrica nesta cidade). Quanto ao “gasoduto do Sul”, como o Presidente da Venezuela o está chamando, sem entrar no mérito de sua importância estratégica para a integração energética e econômica da América do Sul, o linhão Tucuruí-Manaus-Macapá-Boa Vista (ainda que indiretamente e sem querer) ajudará enormemente na obtenção da licença ambiental de instalação e operação do mega-gasoduto Venezuela-Brasil-Argentina, pois o seu trajeto se utilizará justamente da “faixa de passagem” na floresta obtida para a construção do referido linhão. Coluna do Vidor De volta aos sistemas isolados 11/04 Agora com a licença ambiental liberada, o gasoduto Urucu-Porto Velho pode ser que finalmente saia do papel e livre ao menos as usinas térmicas de Rondônia e do Acre da nefasta dependência do uso de óleo diesel, que exige a manutenção de um subsídio (bancado pelos consumidores de energia elétrica de todo o país) da ordem de R$ 4 bilhões anuais, em seu conjunto. Em uma outra coluna recente que tratei desse tema chamei a atenção para o desinteresse em relação à construção dos gasodutos na Amazônia, apontando entre outros fatores a possibilidade de se construir gigantescas linhas de transmissão para interligar os atuais sistemas isolados de capitais como Manaus, Porto Velho, Rio Branco, Macapá e Boa Vista, ao sistema elétrico interligado nacional. Alguns técnicos defendem essa última opção, mas não como alternativa ao uso das termoelétricas a gás, pois na verdade seriam complementares. O linhão para Manaus, com troncos para Boavista e Macapá, seria alimentado pela usina hidrelétrica de Tucuruí e por outras usinas do Rio Tocantins, que chegam a verter água (ou seja, os reservatórios transbordam) durante uma certa época do ano. Mas em outros meses os reservatórios se esvaziam a ponto de os técnicos considerarem provável que as usinas térmicas precisem alimentar o linhão no sentido inverso. Seja como for, a construção de linhas de transmissão nessas distâncias será um desafio técnico jamais enfrentado. Fala-se até em uma travessia aérea do Rio Amazonas (!!!!). Quanto ao gasoduto Coari-Manaus, certamente uma das dificuldades (além das resistências na área ambiental) é o reduzido número de cidades que podem ser atendida no caminho. Além de Manaus, apenas oito localidades teriam geradores de porte para serem adaptados ao uso do gás. Mas bote-se na ponta do lápis todos os possíveis contratempos, e ainda assim continuará sendo economicamente viável suprir com gasodutos o combustível necessário para que as usinas térmicas de Manaus e de Rondônia (e Acre, por tabela) não permaneçam eternamente dependente de um subsídio como a CCC. Não dá para entender 23/3 Onde o Brasil tem hoje gás de sobra? No Estado do Amazonas. Grande parte do gás extraído dos poços de Urucu é reinjetado nos reservatórios – houve um tempo que essa proporção chegou a comprometer a produção de óleo. Uma outra parte é transportada por dutos até Coari e lá é processada. O gás de Urucu processado em Coari, juntamente com a produção da refinaria de Manaus, tem sido suficiente para abastecer todo o mercado de GLP (vulgo gás de cozinha) da região Norte e mais o Maranhão. Há outra reserva considerável de gás no Juruá, também no Estado do Amazonas, e a Petrobras tem esperança de encontrar óleo e gás em um bloco batizado de Urucu II – embora os poços que já foram perfurados não tenham dado bom resultado (estavam secos). Com todo esse gás disponível, é irracional que a energia elétrica do Amazonas, Rondônia, Acre, Roraima e parte do Pará seja dependente de usinas que queimam óleo diesel. Nas épocas de vazante, o óleo para as usinas de Rondônia é transportado de Paulínia (São Paulo) até Porto Velho e Rio Branco por caminhão. Gasta-se no transporte o mesmo volume de diesel necessário para gerar a energia elétrica. Cogita-se ainda da construção de gigantescas linhas de transmissão para levar energia gerada em Tucuruí até Manaus. A irracionalidade econômica e a ineficiência energética são alimentadas por um subsídio para o óleo diesel, custeado pelos consumidores de energia elétrica de todo o país. O custo da energia nesses sistemas isolados deve ser equiparado, com esse subsídio, ao da energia do sistema interligado, calcado basicamente pela geração em grandes hidrelétricas. A liberação de licenças ambientais para o assentamento de gasodutos tem sido um parto difícil. A Petrobras poderia assegurar um bom mercado para o gás hoje inaproveitado. Mas parece fazer corpo mole nessa história. Será que por conta da redução na venda de óleo diesel decorrente da substituição pelo gás? Simultaneamente, fala-se em construir um imenso duto para se importar gás da distante Venezuela…