Recebi alguns e-mails pedindo mais explicações sobre o gráfico abaixo. Sendo assim, aproveito para, num texto mais longo, explicar as bizarrices do nosso modelo.
Roberto Pereira D´Araujo

Vamos por partes:
· O conjunto de usinas hidroelétricas brasileiras, que funciona integrado em um só sistema, é capaz de armazenar cerca de 200 TWh em seus reservatórios.
· A soma total do consumo brasileiro em 1 ano é aproximadamente 500 TWh.
· Dividindo o primeiro número pelo segundo, chegamos a 0,4, ou, em percentual, 40%.
· Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado mês a mês dividindo-se a energia armazenada (água já transformada em energia) pela carga mensal.
· Isso daria uma idéia da qualidade do nosso “estoque” perante a demanda.
· Mas a carga (ou o consumo) não é atendida apenas por hidroelétricas. As térmicas geram energia. Portanto, seria mais correto, descontar da carga a geração térmica. É isso que chamamos “carga líquida”, ou seja, a carga que “sobra” para as hidráulicas.
· Essa é a conta do gráfico. As eólicas, muito promissoras, ainda são menos de 0,5 % da geração brasileira. Por isso não foram incluídas.
· O que se vê no gráfico? De 2004 (e mesmo antes) há uma tendência declinante da “qualidade” do nosso estoque em relação à carga liquida.
· Por que isso é grave? Porque, se a geração térmica é tida como “complementar”, a política adotada está insensível a esse decréscimo constante.
· Teoricamente, há pelo menos 4 saídas para esse problema:
1. Constroem-se mais reservatórios.
2. Aumenta-se a oferta eólica em mais de 30 vezes a atual, torcendo que haja realmente a não coincidência de hidrologia e ventos.
3. Atua-se sobre a demanda.
4. A complementação térmica tem que mudar radicalmente.
· Vamos examinar uma a uma as opções.
1. De 2002 a 2012, a demanda brasileira cresceu cerca de 30%. Se quiséssemos recuperar o índice de “conforto” do estoque que tínhamos, teríamos que construir mais de 30% de reservatórios. Isso significaria construir usinas equivalentes a todo o Rio São Francisco + Tucuruí e ainda estaria faltando. Sob a atual política mercantilista, que trata hidroelétrica como mera fábrica de kWh, essa hipótese é um sonho de uma noite de verão. Portanto, não vemos sinal positivo nesse caminho.
2. O volume de investimento e a velocidade de implantação de tantos parques eólicos seriam um projeto megalômano. Não parece ser possível.
3. A demanda por energia no Brasil tem muitos problemas. Entre eles, um enorme volume de perdas, principalmente na distribuição (cerca de 15%) e um estilo de desenvolvimento energívoro. Basta ver os planos de expansão que prevêem aumentos de produção de 200% em 10 anos. Uma atuação sobre as perdas seria bastante interessante, mas com uma regulamentação que não estimula as distribuidoras a diminuí-las, uma vez que a energia consumida, perdida ou roubada é cobrada, fica muito difícil. Um sistema de certificados de energia, que desvincula o que se pode vender do que se realmente gera. Para que se importar com eficiência?
A MP 579, que foi urdida sob a idéia de que a competitividade da indústria depende do preço da energia, mostra o poder da indústria eletrointensiva sobre o governo. A tarifa brasileira está absurdamente cara, mas se a tese fosse verídica, as indústrias italianas e japonesas estariam falidas, pois pagam tão caro ou mais do que a brasileira. Dado o grau de influência conseguido pela FIESP, que praticamente destrói a Eletrobrás por um desconto de menos de 20% na tarifa, parece que daí não sai nada.
4. Quem tiver curiosidade de ver as estatísticas de geração dos últimos 10 anos vai notar uma situação estranha. As hidráulicas, que em termos de MW instalado representam cerca de 70% do parque, muitas vezes chegam a gerar mais de 90% da energia consumida. Assim ocorreu em 2011, o ano anterior à estratégia de operação que, de repente, em 2012, vê que precisa de térmicas. Ora, se a tendência da qualidade do estoque é decrescente, como mostra o gráfico, e a operação é “perdulária” com a água estocada, alguma coisa está muito errada. A culpa não é do operador, porque a metodologia que é usada para operar o sistema não incorpora os “cuidados” do ONS, que, por incrível que pareça, entram “por fora” e geram essa conta bilionária que teremos que pagar como consumidores ou contribuintes.
Se fosse só isso, ainda poderíamos incorporar esses cuidados e estaria tudo resolvido. Mas, a verdade é que “os certificados” das usinas, que dizem o quanto cada uma pode vender, foram emitidos sem incorporar a realidade. Pior! Muitos foram emitidos sob critérios totalmente distintos por terem sido calculados em datas anteriores. A não incorporação dos cuidados e os critérios que caducaram levam a uma situação onde, com grande probabilidade, a capacidade total do sistema está super avaliada. Ou seja: FALTAM USINAS! Principalmente térmicas que gerem a preços razoáveis. Mais grave! Os interesses comerciais estariam comprometidos caso os defeitos fossem sanados.
· Como se vê, não há sinais de nenhuma “vida inteligente” em nenhuma das opções acima.
· Porque tudo isso? Resultado da fragmentação de responsabilidades e metodologias que tomou conta do setor sob a ideologia de um sistema mercantil mimetizado de esquemas de base térmica.
· Nesse momento, é preciso voltar à questão das tarifas. Com quase 40% de impostos e encargos incidindo sobre os custos da parte real, geração, transmissão e distribuição, como inserir geração no entorno de R$ 200/MWh?
· Outra obsessão por mais uma redução tarifária obtida por meios contábeis? Um tiro de misericórdia na já vitimada Eletrobrás?
Como é possível se perceber pela situação dos fevereiros de cada ano, o período seco de 2013 vai se iniciar sem o estoque adequado. Por mais irritação que isso cause em certas autoridades, lamentavemente, o racionamento não está totalmente descartado.