Comentário: O que tanto a imprensa como o próprio governo parecem não entender é que o sistema de transmissão brasileiro passou a exercer crescentemente a função de garantidor da oferta. Quem checar os dados dos intercâmbios entre sistemas vai verificar que, cada vez, mais dependemos de geração vinda de outra região. Com a ideologia de que “o mercado resolve”, estamos expandindo sem escolher as fontes e os locais de geração. É como se o sistema brasileiro fosse semelhante ao Inglês, onde a geração corresponde a um combustível. Como é o contrário, as linhas passaram a ser tão importantes quanto usinas no papel de preservar a reserva hídrica, essa sim, a real natureza do nosso sistema. Essa função colide com a visão de que o sistema de transmissão pode ser fragmentado em pedaços com linhas de diferentes donos, obtidas em leilões com estranhos níveis de deságios e se conectando a subestações de outras empresas. A fragmentação é possível, mas implica em custos e riscos altos.
A notícia só está preocupada com o custo de O&M, insuficiente, para as modernizações necessárias. O ILUMINA chama a atenção para mais uma fragmentação. A da responsabilidade e iniciativa. Nos ativos atingidos pela medida provisória, as empresas são meras empreiteiras, apesar do governo achar que continuam concessionárias.
Enquanto o governo e os estados travam uma briga política no setor de geração, o sistema de transmissão — as veias que levam a energia pelo país — se deteriora a cada dia. Foram oito apagões em dois anos
Patrick Cruz, Revista EXAME
Um levantamento feito por EXAME com base em dados da Aneel mostra que, dos 22 000 quilômetros de novas linhas de transmissão em obras desde 2007, 16 000 estão atrasados. As empresas alegam problemas com licenças ambientais. Na avaliação de especialistas do setor, parte dos problemas decorre do fato de as empresas terem oferecido valores baixos para ganhar o direito de fazer as obras. Agora, elas teriam dificuldade de caixa para tocar os empreendimentos.
Em outro front, as linhas já instaladas dão sinais preocupantes. O Brasil teve quatro apagões de grandes proporções em 2012 — o mesmo número de ocorrências registrado em 2011 — e todos foram atribuídos a enroscos na transmissão. No Nordeste, por exemplo, entre setembro e outubro ocorreram três grandes blecautes. O maior, em 26 de outubro, deixou sem luz todos os nove estados da região mais Pará, Tocantins e Distrito Federal.
O abastecimento só foi normalizado 4 horas depois. As quedas localizadas também estão se tornando comuns. Manaus teve cinco apagões em 2012. Dois deles, em março, ocorreram com um intervalo de menos de 24 horas. Enquanto isso, a China não tem um único apagão há 15 anos.
A grande preocupação do setor é que as mudanças anunciadas pelo governo para reduzir a conta de luz podem piorar a situação. As estatais controlam 57% das linhas de transmissão em operação e há pelo menos uma grande estatal de energia em cada linha em construção hoje no país. São empresas como Chesf e Furnas, que aderiram incondicionalmente à proposta do governo. Para poder sobreviver com a redução da tarifa (que terá uma queda média de 20%), essas empresas terão de fazer cortes de custo e de pessoal.
Há estimativas de que a receita delas poderá cair para um terço do valor atual. Isso vai comprometer a capacidade para fazer a manutenção e a operação das linhas e, principalmente, investir. O sistema já tem defasagens que incomodam. Veja o exemplo dos transformadores. Eles são a alma da transmissão e custam mais de 1 milhão de reais. O ideal é que sejam substituídos a cada 40 anos.
No Brasil, um terço deles já passou dessa idade. “Não há dúvida de que os investimentos em transmissão estão comprometidos”, diz Cesar de Barros Pinto, diretor executivo da Associação Brasileira das Grandes Empresas de Transmissão. “Eu gostaria de ter uma bola de cristal para saber a consequência em cinco anos.” Mas não é preciso ser vidente para saber qual será o resultado.