Uso de térmicas bate recorde, mesmo com quatro usinas desligadas

 


 

 

Comentário: Qual a semelhança entre o que ocorre no setor elétrico e o que poderá ocorrer com as tarifas do transporte público? Quem assistiu as declarações do prefeito de São Paulo deve ter notado uma impressionante afinidade de pensamento entre Haddad e do governo federal no setor elétrico. Em ambos há dois mitos intocáveis: Melhorias da eficiência física e contestações sobre a receita das empresas.

 

Segundo o prefeito, para reduzir a tarifa, alguma mágica contábil terá que ser feita retirando recursos de outra área. Examinar as planilhas das empresas ou mudar a forma de remuneração, nem pensar. Reorganizar o sistema de linhas buscando mais eficiência também não está nos planos.

Cada MWh perdido ou roubado nas redes de distribuição custa, em média, R$ 100. Cerca de 15% da nossa carga se perde por sobrecargas ou roubo. São aproximadamente 75 TWh. Se apenas metade dessas perdas fossem alvo de uma política pública, estaríamos economizando por volta de R$ 3,5 bilhões. Isso não é muito diferente se o tempo médio de viagem dos ônibus urbanos fosse reduzido em 7,5%. Raciocínio semelhante pode ser feito sobre o modelo que acaba causando o absurdo relatado na reportagem abaixo.

Em 2010 o TCU percebeu que, na tarifa de energia, custos fixos estavam sedo inflados pelo mercado. Corrigiram dali para frente, mas o ganho injustificado ocorrido até então ficou intocado. O mesmo se dá com a ausência da simples menção de se examinar as contas das empresas de ônibus.

Portanto, cuidado jovens manifestantes! O dinheiro pode estar apenas mudando de bolso.

 



 

Por Claudia Facchini | De São Paulo

 

O sistema elétrico nacional ainda depende fortemente da energia gerada pelas usinas térmicas (movidas a gás, óleo combustível, diesel e carvão), apesar de o governo ter anunciado, em maio, o desligamento de quatro unidades. Essas usinas possuíam um custo elevado de operação, em torno de R$ 1 mil por MWh, e aumentavam as despesas para assegurar o abastecimento energético do país.

 

Ainda assim, o despacho de termelétricas atingiu, no dia 13 de junho, um volume recorde neste ano, com a geração de 14.396 MW, afirma a comercializadora de energia Compass. A informação está contida no IPDO (informativo preliminar diário da operação), elaborado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).

 

Segundo Paulo Mayon, diretor da Compass, novas unidades entraram em operação no país, como a de Pecém e Parnaíba, o que explica o aumento na geração térmica este mês. O volume despachado na semana passada indica que praticamente todo parque térmico está ligado, afirma o executivo.

 

As térmicas continuam gerando para economizar a água dos reservatórios das hidrelétricas durante o inverno, quando o volume de chuvas é sazonalmente pequeno. A ocorrência de precipitações está cerca de 30% acima da média histórica nos dois últimos meses, o que é positivo para o sistema elétrico. “Mas isso não é suficiente para encher os reservatórios”, diz o executivo da Compass. Segundo ele, a quantidade de chuvas é muito baixa nessa época do ano.

 

Na região Sudeste, os reservatórios devem fechar o mês de junho em 64%, patamar bem superior ao registrado em dezembro de 2012, quando as reservas caíram para níveis críticos, de 30%. Ainda assim, os lagos estão relativamente baixos. Em junho do ano passado, os reservatórios da região Sudeste estavam 73% cheios, segundo a comercializadora Comerc.

 

De acordo com Mayon, até o fim do período seco, em novembro, é esperado que os reservatórios continuem esvaziando, atingindo 43% na região Sudeste. Mas, para isso, as térmicas terão de continuar ligadas. Se o ONS retirar mais térmicas do sistema, há o risco de que os lagos das hidrelétricas cheguem em novembro abaixo da meta de 43%, o que comprometeria a segurança energética em 2014.

 

O acionamento das termelétricas, contudo, faz com que a conta de energia fique mais cara a cada mês para o país. Estima-se que as despesas com o despacho das usinas térmicas aproximem-se de R$ 1 bilhão por mês. Por enquanto, o governo decidiu arcar com os gastos. Recursos estão sendo repassados às distribuidoras para que elas só aumentem as tarifas em 3% neste ano.

 

O governo também tentou dividir uma parte dos custos com os geradores e os comercializadores de energia, que nunca antes pagaram essa conta. Mas várias entidades e empresas entraram na Justiça e algumas já conseguiram liminares que impedem a cobrança do Encargo de Serviço do Sistema (ESS), na qual são contabilizados os gastos com o despacho das térmicas mais caras, para segurança energética.

 

Com as liminares, os gastos com as térmicas vão pesar ainda mais no bolso dos consumidores, ou vão exigir que o governo destine mais recursos para as distribuidoras, por meio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).

 

A partir de agosto, entra em vigor um novo sistema, que mudará a forma como são financiadas atualmente as usinas térmicas pelo setor elétrico. O custo com as térmicas (ESS) passará a estar embutido no Preço de Liquidação das Diferença (PLD), o preço da energia no mercado de curto prazo.

 

 

 

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