O valor da Eletrobras – Artigo no Valor

https://www.valor.com.br/opiniao/6139669/o-valor-da-eletrobras

Joaquim de Carvalho e Roberto D’Araujo (*)

Demorou, mas finalmente a Eletrobras conseguiu se livrar das distribuidoras de energia elétrica do Norte e do Nordeste, que sempre foram exploradas por políticos, para empregar correligionários e parentes, quando não para coisas piores.

Agora a Eletrobras pode ser altamente rentável, desde que seja isolada da influência dos políticos e submetida a administradores profissionais, reconhecidamente competentes e honestos.

Depois de ter feito isto, o governo celebraria com a empresa contratos de gestão, nos quais, além de metas de eficiência, seriam fixadas as obrigações do governo e da estatal. Evidentemente, por esses contratos, o governo não poderia decidir pela Eletrobras, por exemplo, no sentido de comprar distribuidoras estaduais ou praticar tarifas abaixo do previamente calculado na base do custo + lucro, e aprovado pelas partes.

Devido à inadequação do modelo criado no governo de Fernando Henrique Cardoso com o objetivo (inatingível) de converter em commodity um monopólio natural como a energia elétrica, a Eletrobrás vinha tendo grandes prejuízos, por ter sido obrigada a arcar com os efeitos negativos do modelo. Tais prejuízos corresponderam a lucros astronômicos para as comercializadoras e outros intermediários não produtivos. A situação piorou muito com a Medida Provisória 579/12 da então presidente Dilma Rousseff, que obrigou a Eletrobras a vender energia abaixo do custo, numa frustrada tentativa de reduzir tarifas.

Entretanto, o fraco desempenho da economia fez com que a demanda por energia crescesse menos do que na década anterior. Mesmo assim, para afastar o risco de racionamentos, foi necessário implantar uma capacidade adicional da ordem de 2.200 MW (uma hidrelétrica do porte de Xingó), por ano. Para isto, o governo obrigou a Eletrobras a entrar, em condições muito desfavoráveis, como sócia de grupos privados, para a implantação de novas unidades geradoras. Isto contribuiu para mergulhar ainda mais a estatal na crise da qual só agora está saindo.

As hidrelétricas ainda pertencentes ao grupo Eletrobras (Furnas, Chesf, Eletronorte e metade de Itaipu) têm idades em torno de 30 anos, portanto, a maior parte do capital nelas investido está amortizado. Assim, a energia nelas gerada custa atualmente cerca de R$ 39/MWh.

O grupo Eletrobras responde por uma oferta da ordem de 170 milhões de MWh por ano. Eliminando-se os intermediários não produtivos, esta energia poderia ser repassada diretamente às distribuidoras, por uma tarifa de R$ 160/MWh. Portanto, o lucro do grupo Eletrobras pode chegar a R$ 20 bilhões/ano.

Em vez de privatizar esse extraordinário fluxo financeiro, o governo deveria destinar uma parte, digamos, 45%, para a própria Eletrobras, que aplicaria esta fatia na expansão do sistema elétrico e seu desenvolvimento tecnológico, com o apoio do Centro de Pesquisas da Eletrobrás (CEPEL).

Outros 45% iriam para o Tesouro Nacional – e os 10% restantes capitalizariam um fundo a ser criado no Banco do Brasil, cujas ações seriam vendidas ao público.

As termelétricas a carvão seriam desativadas, cedendo lugar aos parques eólicos – e as térmicas a gás ficariam de reserva, para casos de crise hídrica.

Aqui é importante lembrar a diferença que existe entre o espaço público e o espaço privado, assunto que os políticos e economistas brasileiros parecem ignorar.

O espaço privado é ocupado por empresas industriais, estabelecimentos comerciais, instituições financeiras e outras, que têm entre os seus objetivos o de gerar lucros. No espaço público ficam atividades não lucrativas, como a diplomacia, a segurança nacional, o policiamento, o ensino básico, a saúde pública, etc, além de certas “utilities”, vitais para as demais atividades e que são monopolizáveis.

Ora, a energia elétrica é um monopólio natural, do qual dependem a produção industrial, as comunicações, a conservação dos alimentos, os estabelecimentos de ensino, ou seja, praticamente tudo. Assim, tarifas elétricas não devem ser formadas no espaço privado, pois influenciam todos os custos da economia e constituem um privilegiado instrumento de arrecadação de parte da renda dos demais setores.

Mais de 70% da eletricidade consumida no Brasil vêm de usinas hidrelétricas – e a geração de energia é apenas uma das utilidades dos reservatórios, ao lado de outras, importantes, como o abastecimento de água, a regularização dos rios, a irrigação, etc. Cumpre enfatizar que, além da manutenção das barragens propriamente ditas, todos os usos dos reservatórios requerem importantes despesas permanentes em preservação ambiental – e a experiência mostra que investidores privados relutam em fazer tais despesas. As tragédias de Mariana e Brumadinho reconfirmam isto.

O controle das grandes usinas hidrelétricas é estratégico. Por esta razão, até nos Estados Unidos as grandes hidrelétricas são públicas, embora algumas hidrelétricas menores pertençam a empresas privadas, mas a soma das capacidades destas é muito menor do que a das grandes hidrelétricas públicas.

Na campanha pela privatização das estatais elétricas, movida pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, argumentava-se que o Estado não dispunha de recursos para expandir o sistema elétrico, papel que caberia à iniciativa privada – e prometia-se que, no ambiente competitivo do mercado, as tarifas ficariam mais baratas.

Hoje o sistema elétrico é majoritariamente privado. Só no segmento de geração, cerca de 60% dos ativos estão privatizados. No segmento de transmissão a Eletrobrás tem 48% das linhas, mas controla e opera apenas 11% delas. As principais distribuidoras também foram privatizadas.

O resultado dessa quase completa privatização foi o oposto do prometido. O setor privado investiu abaixo do esperado, obrigando a Eletrobrás a continuar atuando na expansão do sistema. E, em vez de mais baratas, as tarifas para o setor residencial subiram mais de 55% e as do setor industrial subiram cerca de 130% acima da inflação, levando inúmeros estabelecimentos industriais a fechar as portas, desempregando centenas de engenheiros e milhares de operários qualificados.

 

(*) Joaquim de Carvalho é mestre em engenharia nuclear e doutor em energia pela USP, e foi engenheiro da Cesp e diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear). Roberto D’Araújo, mestre em engenharia elétrica e ex-professor da PUC/Rio, foi chefe de departamento e membro do Conselho de Administração de Furnas e é diretor do Ilumina.

  15 comentários para “O valor da Eletrobras – Artigo no Valor

  1. José Antonio Feijó de Melo
    27 de fevereiro de 2019 at 10:18

    Roberto e Joaquim
    Parabéns pela resistência, pela luta de tantos anos que parece não ter fim, repetindo uma argumentação clara, correta e irrespondível, mas que nenhum governo, nenhuma autoridade, nenhuma liderança empresarial e nem mesmo a mídia deu ouvidos ou qualquer atenção. Seguem sempre repetindo os mesmos erros que têm levado o setor elétrico brasileiro às sucessivas crises, sempre com graves consequência para o País.
    Porém, tudo indica que faz muito bem aos “bolsos” de certos grupos.

  2. Uriel
    27 de fevereiro de 2019 at 10:48

    Parabéns pela clareza e obrigado por disponibilizar conteúdo tão importante.

  3. José Jander Borges
    28 de fevereiro de 2019 at 9:29

    Belo e lúcido artigo.

  4. VAUCLERC BRAGA CORDEIRO
    28 de fevereiro de 2019 at 12:16

    Infelizmente vocês do Sul e Sudeste não estão nem aí para o Norte do Brasil.

    Você sabia que no Interior do Amazonas vivem brasileiros, tais como indígenas e nativos? Por que quando festejam a venda da Amazonas Distribuidora, vocês nunca opinam sobre quem vai gerar energia para esses povos?
    Sou totalmente a favor da venda das distribuidoras, mas deveria ter sido mais estudado e debatido esse tema.

    A Eletrobras tem que ser privatizada sim para que os políticos do Sul e Sudeste deixem de interferir e roubarem nessa holding.
    Lamento, tenho 35 anos de setor elétrico e seu artigo não me convenceu.

    • Roberto D'Araujo
      28 de fevereiro de 2019 at 14:03

      Vauclerc:

      A Eletrobras não foi criada para ter distribuidoras. O que você reclama deveria ser dirigido ao governo Fernando Henrique que vendeu o filé e empurrou o rejeitado para cima da Eletrobras. Você tem toda razão quando cita a interferência política na Eletrobras. Só esqueceu que esse tipo de ingerência ocorreu no congresso para aprovar emendas que favoreciam grupos privados. A amostra que tivemos nos últimos anos deixa claro que esse setor privado empreendedor, honesto e independente do estado, simplesmente não existe.
      Com todas as deficiências da Eletrobras, massacrada por todos os partidos, sugiro dar uma olhada nos investimentos feitos nessas distribuidoras rejeitadas para ver que a ineficiente Eletrobras investiu mais do que está prometido pelos novos donos.
      Lamento o rumo que o país está tomando.

      Abcs

    • ROLDAO LIMA JUNIOR
      9 de março de 2019 at 8:18

      Prezado. Sobre indígenas: Povos indígenas vivem na floresta porque querem. É onde pescam, caçam, apanham seus coquinhos, fazem suas necessidades fisiológicas, curam suas doenças e criam seus curumins. São povos da floresta. Gostam de viver sem energia elétrica, sem água encanada, sem saneamento, sem estradas de rodagem. Não querem ter acesso à nossa civilização. Se quiserem ter mais conforto como acesso à energia elétrica, por exemplo, eles têm que deixar de morar na floresta. Tem que procurar os centros urbanos onde tem energia elétrica. Não é cabível lançar uma rede elétrica até a cabana do índio na floresta. Custa muito caro. Dá muito trabalho. Dá prejuízo. É incontrolável. Vão roubar a fiação. É inviável. É demagógico. Alem do mais, não se urbaniza floresta. Hoje, é possível atender os povos indígenas com sistemas de geração distribuída (fotovoltaica, diesel e eólica). Mesmo assim, é muito caro e incomoda o coitadinho do indígena hightech. O gerador diesel faz tanto barulho que perturba o sono dos seus antepassados. A fotovoltaica só funciona durante do dia e depende da bateria a noite. Não tem vento na floresta. Não sou indígena, mas já morei na floresta do Sul do Pará, na década de 70 do século passado.

  5. José Eliaz Rosa
    28 de fevereiro de 2019 at 22:53

    Excelente artigo e espero que chegue às pessoas que lamentavelmente não entendeu a importância da Eletrobras. A privatização das distribuidoras foi correta, pela minha experiência de trinta anos no setor elétrico, onde atuei e contínuo trabalhando na geração, transmissão e distribuição e concluí o nixo distribuição de energia elétrica, cujo DNA do negócio é privado, porém a geração por UHES e linhas de tramitação estratégica não pode ser privatizado, não podermos abrir mão do controle das águas e a distribuição destes recursos à sociedade brasileira.

  6. ROLDAO LIMA JUNIOR
    9 de março de 2019 at 8:53

    O artigo é mais um chororô da esquerda tupiniquim estatizante e que não quer largar o osso. Sou engenheiro eletricista e, a meu ver, a Eletrobrás nunca deveria ter existido. Fiquei pasmo quando o articulista fez alusão – en passant – às tragédias de Mariana e Brumadinho. Foi muito infeliz. Os articulistas, que são profissionais da Engenharia Elétrica, devem saber que “uma coisa é uma coisa e que outra coisa é outra coisa”. Não se comparam as atividades de manutenção de barragens das hidrelétricas com as das barragens de resíduos de mineração. O custos e cuidados de manutenção destas são bem maiores do que os daquelas. As tragédias de Mariana e Brumadinho não se aplicam ao tema abordado pelos articulistas. Não existe correlação com o assunto, a menos que a finalidade seja a de “espetar” o atual governo que está decidido a dar um fim a Eletrobrás.

    • Roberto D'Araujo
      9 de março de 2019 at 9:33

      Senhor Roldão;
      O estilo do seu comentário me dá o direito de considerá-lo típico da direita irresponsável (se é que existe direita e esquerda no Brasil). Se a Eletrobrás não tivesse existido, você estaria sem energia. Como se percebe, ser engenheiro eletricista não é suficiente para conhecer o mínimo da história do setor no Brasil. Demonstrou total desconhecimento sobre o que foi imposto à Eletrobras por falhas justamente do privatismo fundamentalista que defende. Ninguém afirmou igualdade entre as barragens do setor elétrico e as de mineração. O que é espantoso é que o tema de privatização mal feita não esmorece nem quando uma empresa privada mata dois rios do país. Como se vê, o que desmoronou no Brasil, além das barragens PRIVADAS foi a inteligência.

      • ROLDAO LIMA JUNIOR
        21 de março de 2019 at 7:26

        Prezado. Folgo em saber que você também não acredita muito que exista esquerda e direita no Brasil. A meu ver, o que existe no Brasil é a esquerda tupiniquim que cria a própria direita – a direita tupiniquim – ao alijar para essa banda pseudo-ideológica aqueles que discordam das suas ideias. É a esquerda tupiniquim que reluta em largar o osso. Os tons de seus artigos e das suas falas levam-me a considera-lo um típico militante da esquerda tupiniquim – sem eira e nem beira ideológica, mas que reclama de tudo pelo simples fato de não ter argumento para defender as suas causas quixotescas diante das evidências dos fatos, atirando flechas de bambu a torto e a direito. Como discordo dos seus posicionamentos, você já me colocou – automaticamente – na direita tupiniquim. Compreendo a sua atitude. Mas saiba que não sou de direita e tampouco de esquerda. Sou pelo direito. Um pouco de Eletrobrás: Essa excrescência foi criada em 1962. Eu já tinha os meus 12 aninhos de idade. Estava cursando o ginasial. Se você não sabe, já existiam muitas regiões no interior do Brasil com eletrificação urbana e rural. Na minha vida de criança e de adolescente tomei muito choque elétrico. Não morri porque o meu Anjo da Guarda era muito vigilante. Quando a minha família mudou de Leopoldina/MG para Goiandira/GO, em 1963, perdemos a geladeira ao ligá-la, inadvertidamente, na tomada de energia elétrica em Goiandira. Não entendia por que, em 1963, a energia elétrica em Leopoldina/MG era 110V e em Goiandira/GO era 220V. Muito bravo com a perda da geladeira, o meu pai disse que a esperança dele era que a recém-criada Eletrobrás iria acabar com a bagunça de tensão nas tomadas das casas das pessoas. Só fui entender um pouco dessa história e tomar conhecimento da encrenca quando cursei Engenharia Elétrica, no IME, no final da década de 70 do século passado. Meu pai faleceu há 20 anos atrás. Até hoje a tensão de entrega para o consumidor residencial em Leopoldina/MG é 220/127V e em Goiandira/GO é 380/220V. Conclusão: Nos últimos 56 anos, a Eletrobrás frustrou a expectativa do meu pai em arrumar a bagunça do sistema elétrico brasileiro. A transmissão/distribuição de energia elétrica no Brasil sempre foi e ainda é um pandemônio. Quantos níveis de tensão de transmissão e de distribuição existem no Brasil? De que adianta ter um parque gerador de grande porte de energia elétrica firme, se a Dona Maria não tem tranquilidade e segurança de ligar um mísero eletrodoméstico na tomada. A Eletrobrás, como toda empresa estatal, foi criada para atender as necessidades de bem-estar do cidadão brasileiro. Só que, no meio do caminho, a Eletrobrás tornou-se uma sinecura a serviço de grupos políticos e econômicos. Ou você acha que o motivo do Estado de Roraima ainda não estar ligado ao SIN são os antepassados dos índios Waimiri-Atroari? É por essas e outras, incluindo casos de corrupção explicita na Eletronorte e na Eletronuclear, que tenho a convicção de que a Eletrobrás nunca deveria ter existido. Em tempo: As barragens que se romperam em Brumadinho e Mariana foram construídas e utilizadas pela Vale quando era estatal.

        • Roberto D'Araujo
          21 de março de 2019 at 10:22

          Roldão:
          Minha resposta é a mesma! Saber o que é 110 e 220 V não é suficiente para entender a estrutura e história do setor. Lamento, mas a sua queixa dirigida à Eletrobras está totalmente equivocada. A estatal criada em 1962 nunca teve como meta ter distribuidoras. Leia um pouco sobre a história do setor desde seu início. Nós tínhamos domínio privado no passado, as empresas não investiam e por isso foi necessária a intervenção do estado. A Eletrobras não nasceu em 1962 e sim em 1957 com Furnas. Dessa época a capacidade total do sistema era 3767 MW. Em 1998, ano onde começa a destruição da Eletrobras, a capacidade atingiu 63.000 MW. Pouco? Mas, para sua alegria, a Eletrobras está praticamente destruída. Vamos ver como ficamos sem ela. O seu argumento sobre a Vale não merece nem ser respondido. Aconselho você assistir um pequeno vídeo para que se informe sobre a atual situação do setor e que mostra que suas queixas só podem vir de pessoas totalmente desinformadas.

          https://www.youtube.com/watch?v=TdkiAoIS2pw&t=76s

          • ROLDAO LIMA JUNIOR
            24 de março de 2019 at 21:16

            Prezado. Se a sua resposta é a mesma, é irrelevante. Não me interessa retratação. O importante é a discussão sobre o quanto que o Estado pode influenciar na vida dos cidadãos sem perder o foco do bem-estar geral (welfare state). Assisti ao vídeo que você me enviou. Nenhuma novidade. Números são para estatísticos e economistas. A Dona Maria não está interessada nesses números. O argumento da Eletrobrás ter nascido em 1957 com Furnas não se sustenta. Se fosse assim, teríamos que retroceder a 1945, quando a CHESF foi fundada. A CHESF tem muito mais importância para o equilíbrio do SIN do que Furnas. Se o senhor não sabe (ou sabe e teima em não aceitar), a Eletrobrás foi criada, em 1962, como parte da implementação de política pública traçada pelo Governo Brasileiro da época para regular o setor elétrico que estava uma “zona”, diante da expansão incontrolável de empreendimentos dos estados e da iniciativa privada, visando à exploração da energia elétrica no Brasil. A construção da Hidrelétrica de Furnas, na calha do Rio Grande, em Minas Gerais, por exemplo, foi um empreendimento projetado e executado sem planejamento estratégico, atendendo à pressão do grupo político de São João Del Rey/Cláudio que, até hoje, tem influência na empresa, que contribuiu para agravar o descontrole do setor naquela época por competir com a CEMIG, fundada em 1952. Inclua nesse rolo a Hidrelétrica de Três Marias. A estorinha verídica que contei da geladeira queimada em Goiandira/GO ilustra a situação caótica do setor elétrico brasileiro no momento da implantação da Eletrobrás. O que interessa à Dona Maria é ter a tranquilidade de contar com energia elétrica firme e, tendo energia elétrica, não correr o risco de “queimar” o liquidificador ao conectá-lo à tomada de energia. Mas, como toda estatal brasileira, a Eletrobrás permaneceu adormecida em berço esplêndido durante os últimos 76 anos, perdendo, paulatinamente, o controle daquilo que deveria controlar e regular para tranquilizar a Dona Maria. Perdeu o controle do sistema elétrico para o ONS. Perdeu o controle do mercado de energia elétrica para a ANEEL/CCEE. Perdeu a capacidade de planejar o sistema elétrico para a inexpressiva EPE. Perdeu o controle (se é que teve…) sobre todas as concessionárias regionais de energia elétrica, inclusive as deficitárias que foram alienadas a preços simbólicos. Teve a chance de organizar a bagunça das concessionárias deficitárias, mas não teve “peito” de enfrentar as dificuldades. Na perda de controle das concessionárias, deixou de uniformizar a tensão de entrega de energia elétrica nas casas das donas Marias brasileiras. A grosso modo, só não perdeu, ainda, o CEPEL, a Itaipu Binacional e a Eletronuclear. A Eletronorte é uma incógnita. CHESF e Furnas continuam nas mãos das oligarquias regionais. A Eletronuclear é um sumidouro de recursos públicos. O sistema de geração/transmissão está, praticamente, nas mãos do ONS. O Estado de Roraima será interligado a força ao SIN pelo Governo Bolsonaro porque a Eletrobrás não teve “peito” de enfrentar os Waimiri-Atroari. Nos últimos 76 anos, “torramos uma grana preta” com a Eletrobrás e estamos na iminência de voltar à “zona” do sistema elétrico brasileiro do início dos anos 60 do século passado. A Eletrobrás, por culpa exclusiva da sua estrutura organizacional – dirigentes e corpo técnico, perdeu a credibilidade da Dona Maria. Discute-se, acaloradamente, o processo de privatização da Petrobrás. Mas, a da Eletrobrás não desperta o mínimo de interesse da Dona Maria. Apenas uns “gatos pingados” da esquerda tupiniquim lamentam a privatização da empresa. A meu ver, a Eletrobrás é um completo fiasco. Não merecia ter existido. Barragens de resíduos de mineração: Leia com reflexão a reportagem da imprensa “golpista” no link https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/03/22/descomissionamento-de-barragens-da-vale-pode-acabar-com-15-mil-postos-de-trabalho-em-mg-diz-estudo-da-ufmg.ghtml . É isso o que chamo de MAL DA CFEM! A Vale não é a única responsável pelos desastres de Mariana e Brumadinho. Lembre-se: Barragens de hidrelétricas não são barragens de resíduos de mineração. “Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. O exemplo foi, de fato, muito infeliz.

          • Roberto D'Araujo
            25 de março de 2019 at 9:15

            Roldão:

            Não precisa repetir. Eu já entendi que você detesta a Eletrobras porque sua geladeira queimou com um surto de tensão e você acha que a culpa é da Eletrobras. O que responder a essa absoluta falta de informação? Sua incoerência fica evidente quando você diz que a excrecência da Eletrobrás não deveria ter existido, mas ao mesmo tempo menciona que ela fazia o papel do ONS, da EPE e da CCEE. Repare que não inclui a ANEEL nas funções que a Eletrobras assumiu por tanto tempo. Você deve ter esquecido que essa era uma atribuição do DNAEE. Mas, imagine a quantidade de cargos, secretárias, diretorias e custos que dispararam com essa formatação que fragmenta responsabilidades e é uma das consequencias desse modelo mercantil tão ao seu gosto.
            Quando uma grande empresa estatal é privatizada sob tantas obscuridades como foi a Vale, sob mais de duas décadas de administração privada ela ainda mata dois rios e pessoas como você acham que a culpa é da Vale estatal, fica muito claro a sua escolha. Parabéns! A destruição de tudo o que construímos (mal ou bem) está em pleno andamento.

    • Antonio
      15 de março de 2019 at 18:28

      Esse comentario é mais uma prova que a educação faliu ha’ muito tempo atras. Que idiota!

  7. wellington brognoli franco
    8 de novembro de 2019 at 17:56

    Sr.. Roldão,

    Quem vai atender a toda Maria que tu tantos fala, vai ser a iniciativa privada?
    E se não tiver lucratividade em atendê-la? O Wellfare que também falas, vai ser a iniciativa privada?
    Obs: Excrecência ….o Sr. poderia respeitar quem trabalha ou já trabalhou lá !!

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