Perguntas para o Sr. Wison Ferreira, Presidente da Eletrobras

Perguntas para o Sr. Wison Ferreira preparadas pelo ILUMINA (Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético) que, dada a total falta de debate, certamente, nunca serão feitas.

É preciso salientar que vivemos um ambiente de desinformação e até contrainformação. Antes dos questionamentos ao Sr. Wilson Ferreira é preciso lembrar que a sociedade brasileira, por incrível que pareça,

  • Não sabe que a Eletrobras não é apenas uma geradora e transmissora de energia.
  • Não sabe que, se temos uma rede de usinas e linhas que se estendem pelo território, devemos à Eletrobras.
  • Não sabe que o setor elétrico já é majoritariamente privado na Distribuição, Transmissão e Geração.
  • Não sabe que desde o início desse processo de privatização e mercantilização a tarifa mais do que dobrou (130% acima da inflação para a indústria).
  • Não sabe ou esqueceu que, justamente no período onde a Eletrobras coordenava o setor, a tarifa era a metade da atual.
  • Não sabe que, comparada a outras empresas, a Eletrobras têm o menor índice empregado/potência instalada.
  • Não sabe que a decantada “influência política” na Eletrobras agiu para defender interesses desse setor privado que pretensamente salvará o Brasil.
  • Não sabe que esse falso independente setor privado se pendurou nas tetas da Eletrobras.
  • Não sabe que, sendo todos os consumidores servidos pelo mesmo sistema, quando o “mercado livre” paga muito pouco, os outros pagam muito.
  • Não sabe que esse mercado livre não contratou nenhuma nova usina para atendê-lo.
  • Não sabe que essa venda não vai fazer nem cócegas no déficit fiscal!

  1. Entre os países que têm a hidroeletricidade como a principal fonte primária de energia elétrica, ao privatizar a Eletrobras, o Brasil será o único a não ter o controle do estado de suas principais usinas. Qual sua explicação para sermos uma exceção no planeta?

(Os países com essa característica são: Canadá, Noruega, Suécia. Incluindo os 10 maiores produtores de hidroeletricidade, USA, Rússia, India, China, Japão e Venezuela, apenas o Japão tem suas usinas privadas, mas elas representam apenas 7% do consumo Japonês)


  1. A tese de uma privatização “redentora dos males do nosso setor elétrico” não se confirma ao se analisar a trajetória dos últimos 23 anos. A privatização da década de 90 mostrou uma estratégia onde distribuidoras de estados problemáticos foram “empurradas” sobre a Eletrobras, que foi obrigada a usar a RGR (fundo não destinado a esse fim) para “comprar” essas empresas. Onde estava a pujança do setor privado? O padrão é o mesmo dos aeroportos? Lucrativos para o mercado, deficitários para o estado?

  2. Como anunciado, a Eletrobras absorveria as dívidas das distribuidoras para transforma-las em empresa atrativas ao mercado. Além de ir no sentido contrário ao alívio fiscal, o Sr. considera justo que, depois de mais de 20 anos, com investimentos realizados pela Eletrobras nessas empresas, o resultado líquido para a empresa (leia-se consumidor ou contribuinte) seja apenas a dívida?

  3. A descontratação da Eletrobras a partir de de 2003, sob um mercado deprimido pelo racionamento de 2001 (-15%) levou a empresa a ser uma espécie de patrocinadora de um verdadeiro Bolsa MW no mercado livre, pois sua geração assegurada era liquidada por valores irrisórios nesse mercado. O senhor vê alguma independência desse ambiente, onde viceja o setor privado? O que ocorreria nesse mercado não fosse esse patrocínio ocluso? Que trajetória teríamos sem esse sacrifício da Eletrobras?

  4. Os preços do mercado de curto prazo permaneceram no entorno de 20% das tarifas de energia do mercado regulado por 10 anos (2003 – 2012). Um consumo que representa 25% do consumo total, acostumado com o giro de contratos curtos, não foi capaz de contratar sequer uma usina para atender esse nicho. Onde está a pujança e independência do mercado privado? Quem teve que suprir essa ausência?

  5. Esse comportamento descolado com o compromisso da expansão da oferta desse mercado livre, gerou a necessidade das SPE’s com a Eletrobras (além do BNDES). O Sr. não considera que parte da “ineficiência” da Eletrobras se deveu justamente a esse papel coadjuvante ao setor privado que, mais uma vez, não mostra sua independência? A ineficiência é da Eletrobras ou é a de um modelo que privilegia o setor privado às custas do estado?

  6. Em 2012, com o setor já majoritariamente privado, a tarifa brasileira já era o dobro da de 1995 descontada a inflação. De 1995 até 2012 surgiram uma dezena de encargos (custos extras) que encareceram a tarifa. Apenas como exemplo, sob o nome de energia de reserva, o consumidor pagou de 2008 até 2016 R$ 155 bilhões (fonte: CCEE). Tendo uma visão ampla sobre o setor, o Sr. acha justo que a intervenção tarifária da MP 579 tenha se concentrado apenas nos ativos antigos da Eletrobras? Isso é ineficiência? A ausência de um amplo diagnóstico, de certo modo, não isentou o setor privado de ter seus ganhos examinados?

  7. Dados da própria Eletrobras mostram que dos 30.000 MW acrescidos ao sistema de 2013 até 2016, cerca de 40% foram feitos com a participação da Eletrobras. Situação semelhante pode ser observada nos leilões de transmissão. Por que foi necessário? Onde está o setor privado independente do estado? O que teria acontecido se não fosse a Eletrobras? Racionamento?

  8. Um país precisa aprender com sua própria experiência. Na década de 90, o Brasil vendeu toda a Siderurgia, Telefonia, Petroquímica, Bancos e 26 empresas do setor elétrico. Segundo o BNDES, uma venda de US$ 100 bilhões. A dívida pública, que em 1995 era de 34% do PIB, em 2002 alcançava 74%. O Sr. percebe alguma lição a ser aprendida? O que garante que hoje a situação é distinta?

  9. O Sr. tem usado por diversas vezes o argumento de que a Eletrobras é um cabide de emprego.

Abaixo, o índice número de empregados por MW instalado de algumas empresas mundiais.

Como se pode ver, a Eletrobras, mesmo com as empresas distribuidoras, é a que tem o menor índice de empregados por MW instalado. Como o Sr. responde a isso?

A fonte da tabela é https://www.power-technology.com/features/featurethe-top-10-biggest-power-companies-of-2014-4385942/

Ou http://www.investopedia.com/articles/investing/022516/worlds-top-10-utility-companies.asp


  1. Segundo dados das próprias subsidiárias geradoras da Eletrobras, apesar da RAG (Receita Anual de Geração) advinda da MP 579 estar no entorno de R$ 40/MWh, a receita própria (exclusão de impostos, taxas, custos de conexão e outros) das usinas atinge apenas 25% desse valor. Isso significa que as usinas da Eletrobras operam vendendo energia a menos de US$ 3/MWh. Como engenheiro experimentado do setor, o Sr. conhece algum outro exemplo semelhante no planeta terra? Isso é ineficiência? Se não é, não seria conveniente para que o consumidor tenha uma exata situação da empresa que o Sr. esclarecesse sua opinião sobre a ineficiência?

  2. Segundo dados do Banco Central, de 2002 até 2016, a Eletrobras pagou cerca de R$ 1 bilhão por ano de dividendos à união. Como fica sua declaração de que a empresa deficitária apenas retira recursos que poderiam ser destinados à saúde e educação? Não seria uma distorção não identificar que, na realidade, é o estado brasileiro com seu desequilíbrio fiscal o verdadeiro responsável por essas mazelas? Não seria minimamente ético salientar que essa venda não altera em nada a situação fiscal do governo?

  3. Entre os R$ 40/MWh e os R$ 200/MWh aventados na descotização das usinas atingidas pela MP 579, existe uma infinidade de valores. Um valor bem inferior aos R$ 200, recupera o equilíbrio financeiro da Eletrobras e não causa o impacto tarifário tão alto quanto o governo insiste em negar contra toda lógica. O que o Sr. tem a dizer sobre isso?

  4. A forma de privatização da Eletrobras está baseada na emissão de ações que retiram o controle do estado da empresa. A atratividade dessa emissão está baseada na “descotização” das usinas e linhas atingidas pela MP 579. Os valores aventados como atrativos ao mercado estariam no entorno de R$ 200/MWh, valor que chega a ser superior aos dos leilões de energia nova para hidráulicas. O Sr. acha justo que, sem acrescentar um novo kW sequer ao parque gerador cobre-se do consumidor preços superiores aos de energia nova?

  5. Não foi exatamente essa estratégia que “esqueceu” as amortizações que foi usada na privatização da Eletrosul na década de 90? Vão aplicar esse golpe contra o consumidor outra vez?

  6. Segundo suas declarações, a empresa estatal Eletrobras sofre influências políticas. Pelas questões apresentadas aqui, parece que muitas dessas influências favoreceram justamente o setor privado (Se examinarmos os organogramas das principais concessionárias é possível notar que a maioria dos ativos não têm o controle acionário das empresas). Na sua opinião, a privatização da Eletrobras é inevitável porque é impossível que essas influências sejam interrompidas? O estado brasileiro é incontrolável? O que garante que esses favores não sejam atendidos via emendas legais, regulamentação e renúncias fiscais, como já fartamente descobertas pelas investigações da Lava Jato?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Roberto Pereira D’Araujo

 

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      6 comentários para “Perguntas para o Sr. Wison Ferreira, Presidente da Eletrobras

    1. adilson de oliveira
      21 de abril de 2018 at 10:45

      Boas perguntas.

      Vamos ver as respostas do presidente da Eletrobras

      • Roberto D'Araujo
        21 de abril de 2018 at 10:52

        Adilson

        Nunca serão feitas. Ninguém debate nada nesse país.

    2. Adilson de oliveira
      21 de abril de 2018 at 14:08

      Roberto

      As perguntas são boas, mas o debate não avança se você não apresentar suas (!!!!!!) respostas para essas perguntas e aceitar que talvez suas respostas podem não ser as mais adequadas.

      Criticar apenas não é suficiente.

      É importante propor soluções sem o maniqueísmo de quem acredita ser o dono da verdade.

      O mundo está em transformação.

      É preciso reconhecer que nossos modelos do passado não permitem antecipar o futuro que queremos.

      É preciso ter espírito e mente aberta para, sem negligenciar o passado, olhar para o futuro aceitando que não se pode retroceder na Historia

      • Roberto D'Araujo
        21 de abril de 2018 at 17:47

        Adilson:
        Em primeiro lugar, as perguntas são para quem está no poder e que, na minha sempre derrotada opinião, deveria sempre responder. Mas estamos no Brasil e falta de debate não me surpreende.
        Dono da verdade? A única verdade que acredito é que o sistema elétrico brasileiro difere MUITO fisicamente dos exemplos onde foi implantado o sistema mercantil e, diga-se de passagem, também está sofrendo críticas.
        Pior do que os modelos do passado, são os modelos de outras realidades físicas. Eu não estou defendendo volta ao passado. Nesse texto não foram citadas as propostas feitas em 2003, mas você sabe quais foram.
        As novidades tecnológicas terão que interagir com o que existe e isso têm efeitos sistêmicos. Essa é uma opinião. Se estiver errada, me mostre porque.
        Abcs
        Roberto

    3. Olavo Cabral Ramos Filho
      23 de abril de 2018 at 9:18

      O presidente da Eletrobrás não restringe sua mediocridade juvenil ao desconhecimento dos fatos da história de 60 anos
      ou daquela iniciada em 1996 . Nessa historia mais recente pontuou um grupo que aderiu a privataria,

      Facilmente listáveis e lamentáveis. Alguns arrependidos mas nem tanto.

    4. José Antonio Feijó de Melo
      26 de abril de 2018 at 18:43

      Pois é Roberto
      A verdade é que o ILUMINA sempre se posicionou contrário ao Modelo Mercantil implantado no governo do PSDB, a partir de 1995, e mantido e ajustado pelos governos do PT, mas sempre teve propostas realistas para o Setor Elétrico Brasileiro.
      E sempre salientou que tal implantação/manutenção desse Modelo Mercantil simplesmente provocou a continuada elevação das tarifas, a queda da qualidade do serviço, a permanente ameaça de crise de abastecimento e a precarização das condições de trabalho dos eletricitários.
      Aliás, registre-se que nestes últimos anos somente não houve necessidade de racionamento em virtude da queda do consumo resultante da crise econômica.
      Saliente-se, ainda, que tudo isto aconteceu associadamente à realização de grandes lucros pelas empresas do setor.

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