
Comentário:
Imaginem o seguinte diálogo de um estrangeiro com um dono de uma usina hidroelétrica no Brasil:
– Você tem uma usina que gera energia a partir da água que passa nos rios?
– Exatamente – responde o gerador
– Mas, como você está tendo prejuízo, já que a energia é tão cara para o consumidor?
– Porque eu estou tendo que comprar energia. Ela está caríssima no mercado. Já custou R$ 822. Agora, deram um jeitinho e reduziu para R$ 388.
– Jeitinho? Ué? Um gerador tem que comprar energia? Afinal sua usina gerou ou não?
– A usina gerou, mas não o suficiente.
– Ahhh, …..então você especulou e vendeu uma energia que você não gera?
– Eu não especulei. Eu tenho um valor que tem que ser gerado obrigatoriamente.
– Você se impôs a esse valor?
– Não! Ele é definido pelo governo.
– Como?
– Chiiii- Não sei direito não. É um negócio complicadíssimo, cheio de equações e que usa um modelo matemático que cria 2.000 anos de dados de afluência.
– 2.000 anos? Quinze anos depois do nascimento do Cristo??? É algo religioso? Mas….será que as afluências eram parecidas com as de hoje?
– Caramba! Não é isso….Acho que é porque o histórico só tem 85 anos e é uma amostra pequena. Foi uma maneira de estender os dados, porque o modelo matemático exige mais.
– Mas mesmo com 2000 anos….como é possível saber quanto uma usina que depende de clima vai gerar?
– É….mas não é só a minha! Todas as usinas tem esse valor definido pelo governo. Chama-se Garantia Física.
– O nome já é estranho…..Todas as usinas? Inclusive as térmicas?
– Inclusive elas. É assim que o governo diz que o sistema está em equilíbrio entre oferta e demanda.
– Quer dizer que a conta é feita através de um número que sai de um modelo matemático que atribui uma energia que não é a que as usinas geram?
– É exatamente isso.
– E quando esse número mágico é definido?
– Ahhhh…foi definido bem antes da minha usina existir. Simularam ela no sistema…
– Simularam? Antes de existir? E qual era o sistema previsto? Era igual ao que tem hoje?
– Não…..várias outras usinas não saíram do papel…
– Juro que não estou entendendo patavina. A tal da garantia física é definida antes da usina operar? E quando entra em operação o valor é revisto?
– É complicado porque os investidores valorizaram o empreendimento por essa Garantia Física. Se diminuírem a minha, meu capital se desvaloriza.
– Bem….se você prefere que não mexam no número mágico, vai ter que pagar essa dívida bilionária.
– Ahhh…mas há sempre um jeito. O BNDES, que às vezes recebe recursos do tesouro, empresta um dinheiro subsidiado.
– Mas isso vai recair sobre vocês mais tarde na forma de impostos. O tal do BNDES vai ter menos dinheiro para outras atividades…até para construir novas usinas.
– É, pode ser….
– Vocês já pensaram em outra coisa? Por exemplo: E quando chove muito e vocês não precisam de geração térmica?
– Ai elas compram a energia que não geram no mercado.
– E pagam esse preço que te causa prejuízo?
– Não…ai elas pagam baratinho. Já aconteceu desse valor ficar abaixo de R$ 20/MWh várias vezes.
– ????? Espera ai……quando você não gera paga uma fortuna e quando as térmicas não geram pagam baratinho?
– É…..
– Com licença…..se eu continuar tentando entender vou arriscar minha sanidade mental. Tchau!
– Espera ai….ainda tem os comercializadores….foi embora….esses estrangeiros não entendem o Brasil!
Por Natalia Viri | De São Paulo
As geradoras de energia querem ajuda do BNDES para cobrir o rombo bilionário provocado pela produção de energia abaixo da garantia física em virtude dos baixos níveis dos reservatórios. A Associação dos Produtores Independentes de Energia (Apine) pede uma linha de financiamento com prazo de carência de dois anos. A partir de 2017, o valor seria transferido para o consumidor via o Encargo de Serviços do Sistema (ESS).
Em 2014, quando o déficit hídrico ficou em pouco menos de 10%, mais de R$ 20 bilhões foram gastos com compras no mercado de curto prazo. Neste ano, mesmo com a queda pela metade no teto do preço spot, a expectativa é que esse custo possa chegar a R$ 30 bilhões. Com os reservatórios em níveis críticos e as térmicas despachando a plena capacidade, o déficit hídrico deve girar entre 12% e 20%, apontam especialistas.
O pedido das geradoras vem menos de um mês após o fechamento da terceira tranche de um conjunto de empréstimos que somam, ao todo, R$ 21 bilhões, direcionados às distribuidoras e que será cobrado nas contas de luz. Nesse caso, no entanto, o financiamento foi tomado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) junto a um sindicato de bancos comerciais.
“As geradoras vão começar a quebrar, o que é uma situação indesejável para todo mundo”, afirma Mário Menel, coordenador do Fórum das Associações do Setor Elétrico (Fase) e presidente da Associação Brasileira de Investidores em Autoprodução de Energia (Abiape). Segundo ele, não há um consenso entre todos os agentes sobre a soluções para o problema. O consenso, no entanto, é que alguma decisão precisa ser tomada de forma urgente para preservar a saúde financeira para que haja interesse em novos projetos.
Pela regulação do setor elétrico, o chamado “risco hidro” lógico é de responsabilidade das próprias geradoras. Elas argumentam, contudo, que, com a seca, a atual metodologia de cálculo do rateio desse déficit já não é mais adequada. Representantes do setor afirmam que o despacho de termelétricas fora da ordem de mérito e a entrada de energia de reserva, via eólicas ou plantas solares, acabam tomando o lugar das hídricas e fazendo com que elas arquem com um custo excessivo com o arranjo regulatório atual. “Isso já não é mais risco hidrológico e a gente segue arcando”, diz Menel.
2 respostas
Olavo,
Não adianta mudar diretoria de uma das entidades do modelo, o que tem que mudar é o modelo e a estrutura do mesmo formada pelo ONS, EPE e ANEEL.
Dizem que não devemos criticar homo sapiens específicos. Sobretudo antigos companheiros. Seria má educação ? Mau comportamento ético ? Não !!!
O modelo mercantil tucano continuou além de 2004 e perdurará . É necessário convencer a Presidente que é suicidio manter o setor elétrico nesse caminho. Dificil, quase impossivel convencê-la. Navegamos por um serviço publico. Não uma mercadoria.
Mas isso é uma velha e óbvia história.
É necessario tirar algumas pedras do caminho. Para tal, seria necessário tirar desse caminho a atual diretoria da EPE.
Seria um bom começo.