Energia cara – O Globo

http://oglobo.globo.com/economia/mesmo-com-chuvas-bandeira-vermelha-deve-vigorar-ate-abril-18541774

Análise do ILUMINA: É complicado mesmo. Além do Brasil ter adotado um complexo e adaptado modelo típico de sistemas de base térmica, a falta de transparência dos muitos órgãos que gerem o nosso setor elétrico não ajudam nada a imprensa.

Apenas para dar um singelo exemplo da dificuldade que os jornalistas enfrentam para publicar uma análise mais profunda, basta dizer que os dados do ONS são dispostos de modo incompreensível. O histórico da operação só mostra dados de dois anos de cada vez, com unidades diferentes e, pasmem, com ponto (.) nas casas decimais!

O que é preciso mostrar para melhor compreender essa reportagem pode ser resumido assim:

  • Os consumidores de todas as regiões são atendidos por um sistema interligado. Portanto, é preciso olhar o que vem ocorrendo nas 4 regiões.
  • Cerca de 68% das nossas usinas são hidroelétricas, portanto, para avaliar o que ocorre é preciso olhar as energias naturais (afluências transformadas em energia).
  • Em termos de energia natural, a proporção de responsabilidade de cada região é a que está abaixo.

  • Portanto, quase 60% da energia hidráulica dos rios se encontra no Sudeste. O Nordeste, que vêm sofrendo com diminuição de afluências do São Francisco há 20 anos, representa em termos de média, 14% da afluência energética.
  • Como está o comportamento dessas energias naturais nos últimos 2 anos?
  • Como se percebe, desde maio de 2015 as energias naturais do Sudeste (59% do total) estão na média ou no entorno da média.

  • As afluências da região nordeste mostram valores muito abaixo da média, mas representam aproximadamente 14% da energia natural do sistema.

  • A região Sul, com sua típica variabilidade tem apresentado valores acima da média, mas representa apenas 16% do total.

  • A grande surpresa acontece na região Norte, que geralmente apresentaria boas afluências e surpreendentemente mostra valores bem abaixo da média.

Portanto 59% (Sudeste) e 16% (Sul) apresentam energias naturais na média ou acima dela. Assim, 75% do sistema hídrico apresenta boas notícias.

Os outros 25% (Nordeste e Norte) decepcionam. Entretanto, o nordeste confirma uma tendência decenal. Não se pode dizer que é uma surpresa.

Resumindo, o Ilumina afirma que os dados acima não configuram nenhuma desgraça, Além disso:

  • O nosso sistema de reservatórios é capaz de armazenar o equivalente a quase meio ano de consumo brasileiro. Isso sem contar com as térmicas, eólicas ou qualquer outra fonte.
  • A carga está se reduzindo em função da recessão econômica.
  • A quantidade de água armazenada em 2016 é função das afluências e do volume existente em 2015.
  • Por sua vez, o volume de 2015 é função do que foi feito em 2014 e assim por diante em direção contrária do tempo.

Portanto, não há como negar que, além dos problemas ambientais, alguns bem conhecidos, há uma sério problema de gestão de longo prazo no nosso sistema. A permanência das bandeiras tarifárias é uma prova de que não há a segurança alardeada e um injusto castigo para os consumidores.


 

RIO, SÃO PAULO e BRASÍLIA – Treze meses depois da entrada em vigor do sistema de bandeiras tarifárias — que indica se a energia custa mais ou menos, mostrando quando é necessário ligar termelétricas — o consumidor ainda está longe de obter um alívio mais significativo na conta de luz. Desde janeiro do ano passado, o brasileiro arca com a bandeira vermelha, a mais cara, atualmente em R$ 4,50 por mês a cada cem quilowatt-hora (kWh) consumidos. Segundo analistas, apesar do volume maior de chuvas neste início do ano e do aumento do nível dos reservatórios nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o país só terá chance de adotar a bandeira verde (na qual não há cobrança extra) a partir de abril, quando se encerra o período de chuvas. A partir daí, avaliam que será possível avaliar com mais segurança o nível dos reservatórios.

Enquanto isso, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decide nesta terça-feira uma nova regra que deve ser adotada a partir de 1º de fevereiro. A agência pretende criar mais patamares de bandeiras tarifárias do que as três existentes (verde, amarela e vermelha). A proposta em discussão prevê dois níveis de bandeira vermelha. É provável que em fevereiro seja adotado o patamar 1 da bandeira vermelha, o que significaria cobrança de R$ 4. Na avaliação do governo, a redução de R$ 0,50 a cada cem KWh consumidos no preço da bandeira representaria uma indicação positiva para os consumidores, além de mostrar que os custos do setor elétrico estão declinantes.

 

Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o volume nos reservatórios da região Sul subiu de 64,8% para 94% na comparação entre os dias 24 de janeiro do ano passado e deste ano. No Sudeste e no Centro-Oeste também houve alta: passou de 17,2% para 41,4%. O cenário é diverso na região Norte, onde o percentual caiu de 35% para 22,7%. No Nordeste, que apresenta o nível mais baixo, também por consequência do El Niño, o percentual passou de 17% para 12%.

 

AR-CONDICIONADO COMPARTILHADO

 

De acordo com uma fonte, a principal preocupação do governo é achar um ponto de equilíbrio, diante da diferença de cenário entre as regiões.

 

— É uma questão política, porque, de um lado, a região mais rica do país já tem uma situação mais confortável, e, do outro, as áreas mais pobres vêm sofrendo com a queda do volume. É esse equilíbrio que está sendo estudado — disse a fonte.

 

Dados do ONS indicam que a utilização de usinas termelétricas — mais caras que as hidrelétricas — está perdendo força. Em um ano, a geração caiu de 14.426 megawatts médios (MWm) para 8.741 MWm em janeiro deste ano. A participação destas usinas passou de 22,54% para 16,03% de toda a energia gerada na comparação entre janeiro de 2015 e janeiro deste ano.

 

Para Nivalde de Castro, coordenador do Centro de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da UFRJ, já é possível passar para o nível 1 da bandeira vermelha:

 

— A redução do valor da bandeira vermelha é possível porque vem chovendo muito. Mas ainda é cedo para saber se já podemos utilizar a bandeira verde. Isso só vamos saber em abril. Mas ainda acho pouco provável. O Nordeste ainda está com o volume muito baixo nas usinas.

 

Mikio Kawai, diretor executivo da consultoria Safira Energia, lembra que o volume de chuvas neste mês está 20% acima da média histórica no Sudeste:

 

— A chance de termos uma bandeira verde neste ano está cada vez maior. Mas o Nordeste preocupa. Por isso, é preciso esperar o mês de abril.

 

Enquanto o governo analisa quando será possível aliviar a cobrança com segurança, a advogada Giovanna Nunes, de 24 anos, improvisa para arcar com o aumento da conta de luz. Ela, a mãe e a irmã usavam regularmente o aparelho de ar-condicionado. Neste mês, porém, foram surpreendidas pela alta da conta, que saltou de R$ 300 para R$ 715.

 

— No início do ano passado, gastávamos R$ 100. O preço foi aumentando gradativamente, até que fechamos 2015 com uma média de R$ 280. De repente, em um apartamento de 50m², a conta explodiu e ultrapassou os R$ 700! Não gastamos luz assim. Mas, a partir de agora, o ar (condicionado) virou medida extrema, e com todo mundo no mesmo quarto. — disse.

 

Em Niterói, a auxiliar de contabilidade Larissa Pereira, de 22 anos, que mora com a filha, diz ter tido um aumento desproporcional de tarifa:

 

— Uma conta que se mantinha na faixa dos R$ 230, já com a bandeira, não pode chegar aos R$ 600! Com um salário mínimo de R$ 800, quem tem condições de arcar com R$ 600?

 

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