Térmica no RS, a mais cara do país, precisa até de diplomacia para operar – Folha de São Paulo – 08/04/14

Comentário: Com todas as dificuldades de gerar energia, envolvendo até  negociações com a Argentina, o modelo brasileiro de certificados de Garantia Física, não faz por menos. Uruguaiana, funcionando ou não, adiciona 565 MW médios à “oferta” de energia (*). Com uma carga total da ordem de 60.000 MW médios, essa usina “responde” por quase 1% da sua fatura de kWh! Mas….quem gera essa energia?

São casos como esse que fazem com que um sistema ameaçado de racionamento seja classificado como equilibrado pelas autoridades do setor. No maravilhoso mundo virtual dos certificados está tudo bem. No mundo real dos reservatórios a cena é a do barro rachado pela ausência de água. Parte dessa água não está ali por causa de Uruguaiana.

(*)  http://www.aneel.gov.br/aplicacoes/capacidadebrasil/energiaassegurada.asp


Térmica no RS, a mais cara do país, precisa até de diplomacia para operar – Folha de São Paulo – 08/04/14

 FELIPE BÄCHTOLD
DE PORTO ALEGRE

 08/04/2014

A emergência no setor elétrico levou o governo federal a elaborar uma complicada operação para acionar uma térmica que depende da Petrobras, de uma estatal do Rio Grande do Sul e de diplomacia com a Argentina.

O objetivo é suprir com gás natural a termelétrica de Uruguaiana (RS), na fronteira, e garantir energia para o Sul.

 Segundo relatório do Operador Nacional do Sistema, a unidade é a que tem produção mais cara no país entre as movidas agás –R$ 740 por megawatt-hora, ante custo médio de produção de térmicas a gás no país de R$ 260,51 por megawatt-hora.

A térmica gaúcha é dependente do combustível procedente do país vizinho. Mas, como a petrolífera YPF, estatizada em 2012 pelo governo Cristina Kirchner, parou de cumprir um acordo que vigorava na década passada para abastecer a unidade, a solução foi o Brasil transportar até lá o gás natural.

O périplo funciona assim: a Petrobras importa gás natural de Trinidad e Tobago (América Central) e transporta por navio a carga até terminais de regaseificação da Argentina. A Sulgás, estatal gaúcha, compra o material da Petrobras e o injeta na rede do país vizinho.

 Os argentinos, então, liberam volume equivalente de seus gasodutos na fronteira com o Brasil, permitindo o acionamento da térmica. Em território brasileiro, a AES Uruguaiana, responsável pela térmica, adquire o insumo da Sulgás.

As partes não revelam os custos. No ano passado, o esquema emergencial funcionou pela primeira vez, por 60 dias, e a AES recebeu aval da Aneel (agência reguladora) para obter R$ 186 milhões de ressarcimento pela operação.

Parte dos gastos no país com térmicas (de quase R$ 10 bilhões em 2013) será repassada aos consumidores.

 MUDANÇA DE PLANOS

O acionamento de Uruguaiana foi precedido por uma mudança na visão do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, composto por Ministério de Minas e Energia e outras entidades da área.

 Em dezembro passado, o grupo informou que a operação da unidade gaúcha só ocorreria “em caso de extrema necessidade” devido ao “custo elevado”.

Dois meses depois, os planos mudaram. Segundo o comitê, houve acordo entre o ministro Edison Lobão (Minas e Energia) e o Ministério do Planejamento argentino para retomar a operação.

A térmica começou a funcionar em 9 de março e deverá operar por 60 dias.

ARBITRAGEM

A história da unidade de Uruguaiana traz ainda um imbróglio entre os dois países, ainda longe de uma solução. Inaugurada em 2000, ela funcionou até 2008 com gás encaminhado pela YPF.

 Diante da crise argentina de energia, os responsáveis pararam de fornecer o combustível aos brasileiros.

 De 2009 a 2013, a usina ficou sem atividade, acumulando prejuízos. O caso foi parar em uma corte de arbitragem internacional em Paris.

 Em 2013, essa câmara deu decisão favorável à AES, que pedia ressarcimentos, mas o caso ainda não foi encerrado.

 Mesmo com essa disputa, o Brasil decidiu firmar novo acordo com o país vizinho. Não há como acionar a usina sem participação argentina.

OUTRO LADO

 Para o Ministério de Minas e Energia, a térmica de Uruguaiana contribui para a “estabilidade elétrica” daquela região do interior gaúcho e há benefícios para todo o sistema em sua operação, “especialmente no verão, quando a carga do Rio Grande do Sul é mais elevada”.

 A pasta afirmou que vem mantendo esforços nos últimos anos para viabilizar o funcionamento dessa usina e que, em 2011, já tinha firmado um memorando de entendimento com os argentinos possibilitando o intercâmbio de energia.

O ministério afirmou que a médio e longo prazos os reservatórios pelo país terão situação mais favorável e a unidade de Uruguaiana não seria mais chamada a operar.

 


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