Comentário: A confusão das usinas do Rio Madeira aponta uma série de erros de planejamento. Em primeiro lugar, essas usinas foram imaginadas dentro de um plano estratégico bi-nacional com a Bolívia. Elas fariam parte de um sistema de integração fluvial com o Amazonas, de todo interesse da Bolívia. A construção de uma usina a montante, já em território Boliviano poderia ajudar a regularização do rio, que mostra que cheias podem ocorrer prejudicando os estados de Acre e Rondônia e também paralisando o funcionamento das turbinas de Santo Antônio, que, sendo do tipo bulbo, não operam a partir de certo nível de cheia.
Os defeitos surgiram ao tratar os projetos sob o ideológico mantra “o mercado resolve”:
- Não foram construídas as eclusas reduzindo o envolvimento das usinas com a região.
- Erraram no estudo de divisão de quedas, gerando um conflito judicial entre as usinas onde, para aumentar ainda mais o ridículo, a Eletrobras está nos dois projetos e move ação contra si mesma.
- Certamente houve falha nos estudos do regime hidrológico, pois o descarte da usina a montante desprezou a evidente possibilidade de cheias advindas do degelo dos Andes.
- O governo não faz uma avaliação realista da entrada dessa usina no sistema, preferindo ir empurrando com a barriga apenas para manter a aparência de que o planejamento é seguido à risca.
- O que se esquece é que no singular sistema brasileiro, a manutenção da entrada dessa usina no deck do NEWAVE afeta a operação hoje, pois, no horizonte do plano, mantem-se um cenário mais otimista do que a realidade.
- Como será tratado o evidente aumento de custos desses projetos? É preciso lembrar que os preços desses leilões foram usados pela FIESP para dizer que os preços das usinas antigas estavam caros.
Por André Borges | De Brasília
A escassez da geração hidrelétrica que afeta todo país poderia ser bem menor se a hidrelétrica de Jirau, em construção no rio Madeira, em Porto Velho (RO), estivesse entregando toda a energia que previa. O atraso nas operações da usina, no entanto, não pode ser mais facultado, exclusivamente, à série de problemas que Jirau enfrentou nos últimos anos, por conta de greves e atos de vandalismo que paralisaram seus canteiros de obra por mais de 500 dias, como alega o consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), dono da usina. Nos últimos meses, esse descompasso foi amplificado por dificuldades técnicas na montagem eletromecânica das turbinas. O resultado disso é um rombo bem maior que o imaginado na geração de energia do país.
Em setembro do ano passado, quando ligou a sua primeira turbina, Jirau desenhou um plano pelo qual chegaria a fevereiro deste ano com 17 máquinas ligadas. Esse número, vale destacar, já estava abaixo das 23 máquinas previstas pelo contrato da hidrelétrica. A realidade é que, hoje, Jirau tem apenas seis turbinas em operação, capazes de entregar um total de 450 megawatts (MW), enquanto a meta era lançar ao menos 1.275 MW no sistema elétrico. Na prática, isso significa um déficit de 825 MW que as distribuidoras estão comprando no mercado de livre de geração, a preços de ouro, dada o custo recorde com que essa energia tem sido negociada.
As dificuldades técnicas foram confirmadas pelo presidente do ESBR, Victor Paranhos. “Realmente houve atraso no cronograma. Apareceram problemas que não esperávamos em duas unidades. Foram problemas técnicos. Quando atrasa uma máquina, atrasa tudo o que vem depois. É um efeito cascata”, disse ao Valor PRO, serviço em tempo real do Valor.
A instalação de uma turbina, que deveria ser de 120 dias, tem levado até 175 dias. Até o dia 30 deste mês, segundo Paranhos, Jirau deve acionar mais três máquinas. Com nove unidades em operação, a hidrelétrica terá condições de passar a escoar energia por meio do linhão do Madeira. A estrutura principal de transmissão está pronta, mas não foi usada pela hidrelétrica para despachar sua carga, o que tem sido feito por meio de uma malha de média tensão, que segue para Porto Velho (RO).
Correndo contra o relógio, Jirau tem 3,5 mil operários que trabalham na montagem eletromecânica das turbinas, em dois turnos. Simultaneamente, 34 unidades estão sendo instaladas nas duas barragens da hidrelétrica. Paranhos reconhece que o consórcio tem sofrido pressão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para colocar a usina em operação. “Eles sabem que estamos fazendo tudo o que podemos. Não tem como colocar mais gente para trabalhar na montagem, senão nós colocaríamos. Temos atuado no limite do que a engenharia permite fazer.”
O projeto de Jirau prevê a instalação de 50 turbinas, com capacidade instalada de 3.750 MW. Até o fim deste ano, a promessa é ligar 28 máquinas. Quanto à conclusão plena da usina, ficou para meados de 2016. O prazo original era setembro de 2015. “Comissionar 50 máquinas está muito mais complexo do que a gente realmente esperava. Tem ocorrido problemas novos em máquinas novas, alguns envolvem fabricantes, outras são de montagem”, disse Paranhos.
Apesar de admitir obstáculos operacionais, o executivo garante que a situação seria bem diferente se o empreendimento não tivesse enfrentado todas as paralisações do passado, fatores que, na conta do ESBR, geraram mais de 500 dias de atraso para a usina. “É muito fácil criticar o presente, sem olhar o passado. São eventos que fugiram ao nosso controle. Fazer obra no Brasil hoje é complicado e Jirau é o grande exemplo. Estamos fazendo o possível e o impossível. Se querem criticar, que olhem antes para o passado”, disse o executivo.
O custo da usina, inicialmente previsto em R$ 9 bilhões, já ultrapassou R$ 17,4 bilhões. Há mais de um ano, o ESBR briga para receber quase R$ 1 bilhão de seguradoras, por conta de conflitos ocorridos em seus canteiros de obras.