Todos já perceberam. Sem examinar o mérito de vender a COPEL. todos concordam que essa é o pior momento. Todos, menos o governador do Paraná Jayme Lerner!
O Nordeste não contou com a sorte do Sudeste e vai entrar no racionamento mesmo. É bom não esquecer que essa crise é provocada não só pela seca, mas também pela irresponsabilidade de "deixar acontecer" o início do período seco com os reservatórios vazios.
Enquanto isso, a insensatez avança. Agora o Banco do Brasil faz um MAE paralelo. Algum dia os próprios agentes de mercado irão perceber que em uma situação como a que estamos vivendo, transações de mercado criam conflitos.
A situação do Sudeste melhorou, mas muita água (ou pouca) e muito calor estão por vir. Se a água não superar o calor, a crise continua!
Crise mundial também atinge leilão da Copel
Além da falta de regras no setor, cenário externo estaria levando empresas a desistir de privatização
RENÉE PEREIRA
A indefinição regulatória do setor elétrico brasileiro é apenas um dos motivos pela falta de apetite dos investidores estrangeiros na compra da Companhia Paranaense de Energia (Copel), avaliam analistas do mercado. Segundo o especialista do Unibanco, Sérgio Tamashiro, por trás da decisão dos empreendedores de desistirem do leilão de privatização da Copel estão questões ainda mais complicadas, como as incertezas do cenário externo e o risco país. "Neste momento, a visão de algumas empresas é correr o mínimo de risco possível, mesmo que isso signifique retornos menores."
Embora a Copel seja considerada uma "jóia" do setor elétrico, com uma saúde financeira invejável, a competição no leilão pode ficar aquém do seu real valor. Além da EDF, Endesa e AES, a tendência é que outras empresas estrangeiras fiquem fora da disputa pela compra da companhia, ressalta o analista da Corretora Sudameris, Marcos Severine. Entre elas podem estar a alemã RWE e a italiana Enel. Ambas acabam de adquirir empresas em território americano. No caso da RWE, diz, a transação envolveu investimento da ordem de US$ 7,6 bilhões; da Enel, cerca de US$ 1,5 bilhão. "Essas empresas estão preferindo comprar caro em mercados estáveis do que barato, em mercados emergentes", diz Tamashiro.
Entre os enpreendedores que ainda manifestam interesse pela Copel, a belga Tractebel desponta como a mais forte concorrente, na opinião de Severine. No leilão de privatização da Gerasul, a empresa conseguiu arrematar a companhia sem oferecer ágio. Aliás, segundo os analistas, a tendência é que a empresa seja vendida pelo preço mínimo, de R$ 4,3 bilhões.
Tamashiro ressalta, porém, que a Duke Energy renovou contrato de garantia de empréstimo para o leilão. Para o presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques, pelo menos dois ou três grupos estrangeiros entrarão na disputa pela Copel. "O momento não é o melhor, mas não seria lógico o adiamento da venda, pois seria uma demonstração da fragilidade."
O governo do Paraná descartou qualquer possibilidade de alterar o cronograma da privatização por causa da desistência já anunciada de três das nove empresas estrangeiras que tinham manifestado interesse no leilão. "Não há nenhum sentido em qualquer notícia que procure desviar o processo", garantiu o governador Jaime Lerner (PFL). "Há um jogo com o sentido de desqualificar o processo."
Outro leilão que pode ser prejudicado pela turbulência do mercado mundial é o da Companhia Energética de Goiás (Celg), previsto para 22 de novembro. A AES foi a primeira a anunciar desistência. "Além de todos os problemas, o preço mínimo para venda está alto", diz Tamashiro. (Colaboraram Jander Ramon e Evandro Fadel)
Nordeste terá três feriados a mais para evitar apagão
Taciana Collet , De Brasília
O governo federal anunciou ontem a decretação de três feriados a mais no Nordeste até o fim de novembro, iniciando assim a execução do plano B do racionamento de energia para evitar o pior, que seria o apagão. O feriado é apenas a primeira medida, mas outras serão tomadas. Houve redução da economia de energia na região e, pelas previsões, se nada fosse feito, o nível dos reservatórios ficaria abaixo da linha de segurança já no próximo mês. " Acenderam-se as luzes amarelas no Nordeste e se a tendência não for revertida pode ser acesa a luz vermelha do apagão " , alertou o coordenador da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, ministro Pedro Parente.
Em seis Estados, as residências com consumo superior a 500 kWh/mês estão entre os que mais ultrapassaram as metas. Por isso, a partir de agora, os cortes de energia por descumprimento de meta serão feitos com prioridade nesse grupo de consumidores. A medida será adotada em Pernambuco, Maranhão, Bahia, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Governos de cinco Estados também descumpriram o limite de consumo e os governadores serão chamados para dar explicações. A Câmara não quis divulgar a relação dos maiores gastadores.
Seis das doze distribuidoras do Nordeste ainda fazem parte da lista das categorias que mais estouraram a meta. Os nomes não foram revelados. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vai intensificar a fiscalização em cima dessas concessionárias, que estarão sujeitas às penalidades previstas, como multas que podem chegar a 2% do faturamento.
A Câmara de Gestão vai estudar uma maneira de impedir que as empresas do Sudeste vendam certificados de uso de energia para empresas do Nordeste. " Neste momento, isto não é cabível porque esta é uma energia que não existe " , explicou o coordenador da Câmara.
Se o feriado não for suficiente para melhorar o nível dos reservatórios, os grandes consumidores industriais serão o próximo alvo do governo e podem ser obrigados a economizar ainda mais energia. " Hoje os grandes consumidores estão cumprindo suas metas, mas, se necessário, teremos de aumentar ainda mais a meta de redução, o que no caso de algumas indústrias será complicado. Esse é o próximo estágio do plano B " , disse Parente.
Os feriados ainda precisam de um ato legal para serem formalizados. Os dias de folgas estão previstos para 22 de outubro (segunda-feira), 16 de novembro (sexta-feira) e 26 de novembro (segunda-feira). Com os três feriados, estima-se uma economia de 250 MW médios. É o suficiente para recompor em 0,5% a água do reservatório do rio São Francisco.
A Câmara autorizou a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) a adquirir 95 MW em caráter de emergência – 25 MW da Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene), 28 MW da Fafen, 28 MW da Relan e 8 MW da Caraíba. " Além disso, vamos dar prioridade ao Nordeste na compra emergencial de energia " , acrescentou Parente. Todas as medidas foram decididas em uma reunião do comitê executivo da Câmara na terça-feira.
Foram apresentadas as novas projeções do Operador Nacional do Sistema (ONS), que indicam que o nível dos reservatórios no Nordeste poderia chegar no dia 30 de novembro com 2,3% de sua capacidade preenchida, bem abaixo da linha de segurança, de 4,7%. Hoje, o nível ainda está em 11,07%. Pelas regras do racionamento, o plano B só seria adotado se o nível dos reservatórios caísse a menos de um ponto percentual abaixo da linha de segurança, mas o governo resolveu se antecipar.
" Hoje é possível ter uma visão prévia do que vai acontecer. Por isso é melhor remediar agora para evitar remédios mais amargos no futuro " , justificou o presidente do ONS, Mário Santos, referindo-se à possibilidade de apagão. " Estamos ainda na primeira medida do plano B, o apagão é a quarta " , frisou Parente.
A redução do consumo de energia no Nordeste no período de 2 a 8 de outubro ficou em 10,7% contra os 20% estipulados. " As notícias de chuvas no Sudeste induziram a um otimismo no Nordeste que não é correto " , completou Santos. Como parte da estratégia, o governo começa a veicular no Nordeste uma campanha publicitária para mostrar a gravidade do problema à população.
No dia 20 de novembro, a Câmara decidirá se haverá ou não um alívio nas metas de consumo para Sudeste e Centro-Oeste, onde as chuvas chegaram a 121% da média histórica.
Plano B deve provocar demissões no comércio e indústria da região
Luiz Herrisson , De Recife
A deflagração do plano B do racionamento no Nordeste, com a adoção de três feriados, deve provocar cortes de pessoal na indústria e comércio da região. A previsão é dos presidentes da Federação das indústrias de Pernambuco (Fiepe), Armando Monteiro Neto, e da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Recife, Eduardo Catão.
De acordo com Monteiro Neto, a medida deve causar impacto em setores específicos, como eletrointensivos, exportadores, de alimentos e bebidas. " Os segmentos com vendas aquecidas no final do ano serão os mais atingidos " , estima.
O empresário pondera que o impacto não se dará da mesma forma para todas as empresas de cada setor. "Aqueles que tenham geração própria de energia sofrerão menos", ressalta Monteiro Neto, acrescentando que essa avaliação é preliminar e que a situação poderá ser melhor analisada em novembro.
Segundo ele, os setores industriais que já se encontram em ritmo de desaceleração por conta da conjuntura nacional e internacional poderão se adaptar melhor às novas medidas. " Alguns segmentos da região, como o têxtil, já vêm enfrentando queda nas vendas e concedendo férias coletivas. Nesses casos, com estoques elevados, não precisarão reduzir mais a produção " , cita.
No comércio, o efeito dos feriados será ainda pior, acredita Eduardo Catão, da CDL-Recife. " O setor, que já não está bem, vai se prejudicar mais ainda " , prevê.
Na sua opinião, os feriados afetarão a taxa de emprego do setor não só pelos dias parados, como também porque ocorrerão no momento de seleção da mão-de-obra temporária para trabalhar em dezembro. Apenas no Grande Recife, cerca de 14 mil pessoas são contratadas no comércio para o período do Natal. " Os lojistas vão adiar o máximo que puderem essas contratações e vão rever suas necessidades para absorver o menor número de temporários " , acredita Catão.
Além disso, o presidente da CDL sustenta que os feriados vão prejudicar mais os consumidores comerciais e industriais da região. " Com o comércio fechado, a população ficará em casa, gastando mais energia, ou irão a cinemas e bares, que vão elevar o faturamento as nossas custas " , reclama.
Para piorar, o gerente comercial da Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), Ricardo Galindo, acredita que os feriados não serão suficientes para compensar a queda na economia de energia e evitar os apagões. " Qualquer ponto percentual a mais ajuda, mas o feriado por si só não resolve o problema " , afirma. De acordo com os cálculos da distribuidora, um feriado às segundas-feiras permite uma economia adicional de 0,5 ponto percentual no mês. Quando o dia de folga programado pela GCE antecede ou sucede um feriado oficial, a economia pode chegar a dois pontos percentuais.
Banco do Brasil lança leilão de energia
Roberto Rockmann , De São Paulo
Embora seja fundamental, ainda sobram incertezas e decisões sobre o pleno funcionamento do Mercado Atacadista de Energia (MAE). Enquanto o governo tenta fazê-lo funcionar, bancos, elétricas e entidades aproveitam o racionamento para lançar leilões de comercialização de energia.
Ontem foi a vez do Banco do Brasil (BB) anunciar a criação de um sistema eletrônico de comercialização de excedentes de energia elétrica. O início das operações, marcado para a próxima quinta-feira, será ambicioso.
Em parceria com a União Corretora, o banco vai oferecer 20 mil MWh em duas ofertas – número bastante alto, considerando-se que em mais de quatro meses, a Bovespa comercializou 27 mil MWh. "O mercado está muito aquecido, só em setembro comercializamos mais de 52 mil MWh", afirmou o presidente da União, Francisco Lavor.
E a liquidez do mercado deve continuar em alta. "A carência de energia do Nordeste deve manter a liquidez", afirmou a analista do BB, Vitória Morgado. Para atingir mais interessados, o BB também tenta incluir nessa plataforma mais 29 bolsas de mercadorias e futuro, que já usam o sistema do banco para comercializar commodities.
"Esses sinais são importantes, mas o fundamental, o MAE, não deslanchou", diz um analista. Visto como sinalizador dos preços, o MAE ainda tenta dar seus primeiros passos. Nessa segunda-feira, dia 15, o Conselho do mercado divulga a segunda contabilização de negócios, de setembro do ano passado a abril desse ano.
"Esse será o teste para sabermos se as liquidações sairão mesmo", diz Lindolfo Paixão, um dos conselheiros do mercado. E no fim do mês sai a terceira contabilização, de maio a junho desse ano.
Porém, incertezas cercam a liquidação dessas operações, já que vários assuntos polêmicos, como energia de Itaipu (que o Comae julgou que as distribuidoras devem comercializá-la), e o anexo 5, estão nesse pacote.
"Há risco de os agentes não aceitarem e entrarem na justiça", diz Paixão. O que mais uma vez emperraria o MAE. Para reduzir as chances de isso ocorrer, Paixão torce para que o governo anuncie nesse mês a solução ao anexo 5. "A contestação contra Itaipu está na segunda instância e ainda não preocupa tanto."
Chuvas ainda não permitem reduzir meta
Resultados positivos não são suficientes para diminuir racionamento no Sudeste e Centro-Oeste
BRASÍLIA – O governo considera prematura qualquer previsão de redução da meta de economia de energia para o Sudeste e o Centro-Oeste, mesmo com os resultados positivos obtidos com o início do período de chuvas.
"Já é visível o resultado do começo do período chuvoso", disse o presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), ministro Pedro Parente. "Desde o início do mês, os reservatórios estão acumulando água no lugar de estarem gastando."
O nível dos reservatórios das duas regiões aumentou 0,18 ponto porcentual na terça-feira, em relação à segunda-feira, e 0,72 ponto porcentual, se comparado ao primeiro dia do mês. "A transição tem se mostrado favorável, mas pode inverter", ponderou o presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Mário Santos.
"Estamos em pleno limbo e vamos continuar a viagem para o céu." Santos lembrou que, no ano passado, choveu muito acima da média no mês de setembro e nos meses de outubro e novembro a hidrologia piorou.
"Em janeiro, estávamos bem no Nordeste, mas em fevereiro e março passamos por uma seca pavorosa." No Sudeste e no Centro-Oeste, a economia de energia nos nove primeiros dias do mês foi de 16,9%, abaixo da meta de 20% estabelecida para esse período de racionamento.
O nível dos reservatórios estava em 21,3%, ficando 5,87 pontos porcentuais acima da curva-guia. No Norte, a economia foi de 18,8% e o reservatório da Hidrelétrica de Tucuruí chegou ontem a 50,1% da capacidade máxima.
Segundo o presidente do ONS, mesmo que o nível dos reservatórios no Sudeste e Centro-Oeste esteja 5,5 pontos porcentuais acima do limite mínimo – como foi registrado ontem -, é necessário esperar o fim da transição para fazer uma reavaliação da meta. "Antes disso, qualquer prognóstico é precipitado."
A previsão do governo é de anunciar as novas metas de economia para o período chuvoso no dia 20 de novembro.
Horário de verão – O governo espera economizar 0,9% de energia com o horário de verão nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Essa economia representa redução de 756 mil MWh, equivalente ao que é gasto nas cidades paulistas de Campinas e São José do Rio Preto. A previsão é de queda de 0,7% no consumo de energia no Nordeste, equivalente a 96,7 mil MWh, o suficiente para abastecer uma cidade como Feira de Santana, na Bahia, que tem 525 mil habitantes. O horário de verão começa no domingo, dia 14, quando os relógios terão de ser adiantados em uma hora, e termina no dia 18 de fevereiro. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a redução na demanda deverá ser de 3% no horário de pico, entre 18 horas e 21 horas, o que significa uma economia de 1.080 MW no sistema Sul/Sudeste/Centro-Oeste e de 180 MW no Nordeste. (G.M)