O ESTADO DE S.PAULO 10 de agosto de 1997
Privatização de estatal energética na Bahia segue receita de
sucesso
HELIO GAMA NETO
Enviado especial
SALVADOR – O processo de privatização da Companhia de
Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba), vendida há duas semanas para o
grupo espanhol Iberdrola por R$ 1,73 bilhão, repetiu a fórmula que o Estado
vem adotando há algum tempo, com resultados promissores. A receita, vista
com simpatia por governadores de Estados em crise financeira, é uma política
centrada em dois pontos.
Em primeiro lugar, o governo baiano antecipou-se à reforma
administrativa desde 1991, ainda no governo de Antônio Carlos Magalhães,
quando decidiu enxugar a máquina administrativa do Estado, sanear as contas
públicas e incentivar os investimentos privados. Em segundo, os baianos têm
aproveitado ao máximo as oportunidades garantidas pelo governo federal,
graças à força política do PFL de ACM.
A companhia de distribuição de energia baiana foi cuidadosamente
preparada para ser privatizada. O presidente da empresa, André Teixeira,
conta que há aproximadamente quatro anos a Coelba passou a desenvolver
sofisticados programas de qualidade. Uma política que ganhou intensidade a
partir de julho do ano passado. Naquele mês, foi firmado o contrato entre o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a
Eletrobrás, que permitiu o saneamento financeiro da empresa, impulsionando
sua reestruturação.
A decisão de vender 65,64% das ações ordinárias da Coelba foi
tomada em paralelo com a emissão de debêntures da empresa, o que
proporcionou a capitalização de R$ 225 milhões. “Quitamos a dívida de curto
prazo, restabelecendo a saúde financeira da companhia”, lembra Teixeira. A
partir daí a Coelba dispôs de recursos para investir em um programa de
demissão e aposentadoria incentivadas. De 1991 para cá, a empresa reduziu o
número de servidores de 7.316 para 4.744.
“Os recursos também possibilitaram um retorno que garantiu
investimentos na modernização da empresa em termos de automação, sistema
de informática, renovação da frota de veículos e melhoramento do sistema
elétrico”, explica Teixeira. “Fizemos ainda um grande esforço para enxugar
nossa estrutura organizacional.” Em novembro de 1995, a Coelba possuía 765
orgãos espalhados pela capital e pelo interior. Hoje, são 146.
Essa política austera deu o tom na maior parte das ações administrativas
do governo baiano, na gestão do ex-governador Antônio Carlos e na do atual,
Paulo Souto. “A Bahia iniciou um processo de ajuste quando não se falava em
programas de reformas fiscal e do Estado”, garante Souto.
Segundo o governador, logo no primeiro ano de mandato de ACM o
número de secretarias de Estado caiu de 21 para 13. “A partir daí, acabamos
com uma série de empresas, autarquias e fundações para começar a aplicar a
Lei Camata”, explica. Desde 1991, o governo baiano mantém os gastos com
pessoal abaixo do porcentual de 60% da receita corrente líquida, estipulada
pela lei. “Tivemos também muito cuidado com os vencimentos dos servidores”,
ressalta Souto. “Não há no Estado problema de supersalários.”
Disciplina – O secretário de Fazenda do governo baiano, Rodolpho
Tourinho, garante que a saúde das contas estaduais é resultado de disciplina
operacional e do continuísmo. “Com essas palavras mágicas nós administramos
as nossas quatro contas básicas: pessoal, dívida pública, custeio da máquina e
investimentos.”
Segundo Tourinho, que ocupa o cargo desde os tempos de ACM, o
PFL herdou do ex-governador Nilo Coelho, em 1991, uma situação financeira
tão caótica que não era possível saber o quanto exatamente o Estado devia. “O
governo não pagava FGTS nem INSS”, reclama. Tourinho afirma que sua
equipe passou dois anos e meio dedicando-se a pôr em dia os pagamentos e
as obrigações do Tesouro.
Com as contas atualizadas e protegida pela disposição do governo
estadual de continuar a promover a reforma do Estado, a Fazenda da Bahia
entrou com o pé direito na economia estabilizada do Plano Real. “Nós
soubemos fazer a transição da época inflacionária para o período de
estabilidade”, comemora o governador Paulo Souto.
Os baianos têm hoje uma dívida pública renegociada de R$ 4,9 bilhões.
Recentemente, garantiram a rolagem, por 30 anos, do débito mobiliário (cerca
de R$ 790 milhões). Em contrapartida ao refinanciamento, o governo estadual
comprometeu-se em transferir para o governo federal ações do Banco do
Estado da Bahia (Baneb), dando início ao processo de privatização da
instituição.
O balanço das contas do Tesouro baiano, de 1992 a 1996, mostra
como o governo da Bahia conseguiu ajustar a matemática financeira de uma
forma a garantir investimentos próprios sempre acima dos R$ 400 milhões.
Este ano, a projeção de investimentos públicos feita pelos técnicos da Fazenda
estadual é maior: R$ 750 milhões. Já o total dos investimentos até o fim do ano
deve bater em R$ 1,1 bilhão.
Segundo o governador, com os pagamentos em dia o governo da Bahia
passou a recuperar a “credibilidade”, o que tem garantido contratos de
financiamentos nacionais e internacionais no total de R$ 1,9 bilhão.
Ao combater o gigantismo da Coelba, a direção da empresa esbarrou
nos interesses políticos que existem em torno de boa parte das estatais. Foi aí
que entrou a mão de ACM e o trabalho do governador Paulo Souto, que
segue à risca a cartilha do presidente do Senado. “O governo tem o mérito de
defender a filosofia da busca da eficiência, de uma estrutura enxuta de Estado e
de ter valorizado a proposta técnica de reestruturação da Coelba”, defende
André Teixeira, presidente da companhia de energia.
Ele admite que a decisão de enxugar a Coelba contrariou alguns
interesses políticos. “Além da vontade do governo foram importantes as
lideranças do senador Antônio Carlos Magalhães e do governador Souto”,
explica.
Qualidade – Além de promover a mudança administrativa da empresa e
driblar as situações políticas, o governo do Estado e a direção da empresa
trabalharam o tempo todo olhando para mercado. “Mudamos a cultura dentro
da empresa, fazendo com que as pessoas se ajustassem à mentalidade de uma
companhia privada, em termos da qualidade e dos serviços prestados”, diz o
presidente da companhia. Ao contrário do que ocorre com muitas estatais que
passam para a iniciativa privada, a Coelba foi transferida praticamente sem
passivo trabalhista.
Mesmo assim o preço pago pela espanhola Iberdrola, um ágio de 77%,
foi de tirar o fôlego. “Surpreendeu, acreditávamos entre 30% a 50% de ágio,
no máximo”, afirma Teixeira. O preço mínimo da distribuidora baiana de
energia elétrica havia sido fixado em R$ 975,8 milhões.
Para os analistas de mercado, o sucesso da venda também está
diretamente associado ao índice de crescimento do setor de energia da Bahia,
de 5% a 6% ao ano. “Como o mercado de energia está vinculado à economia
local, à indústria, ao comércio e à capacidade de consumo das pessoas,
abriu-se uma perspectiva de mercado ainda mais atrativa”, avalia o presidente
da Coelba.
O cenário criado a partir da política desestatizante do governo Fernando
Henrique Cardoso completa o perfil do processo de privatização da Coelba. E
o governo baiano soube mostrar aos investidores as garantias que promete o
programa de privatizações. “A Iberdrola coloca o pé no mercado brasileiro
com enormes perspectivas de investimentos, em distribuição e até em geração
de energia”, diz Teixeira. A empresa espanhola pode ser uma candidata na
futura disputa pelo controle da Companhia Hidrelétrica do São Francisco
(Chesf), do sistema Eletrobrás, que fornece a energia na Bahia.
O último detalhe decisivo no sucesso da venda da Coelba também veio
do governo federal, que manteve a margem tarifária atual por um determinado
período – no caso da Coelba, seis anos – para a empresa que comprar uma
estatal energética. “Trata- se de um item fundamental para as privatizações;
sem ele não teria havido venda”, garante Teixeira. A Coelba compra energia da
Chesf a uma tarifa média de R$ 32,89 o megawatt/hora e vende por uma
média de R$ 93,09 o megawatt/hora. Um ganho por megawatt/hora em torno
de R$ 60, durante seis anos.
O governador da Bahia, Paulo Souto, diz que o governo estadual
cumpriu com a primeira etapa da reforma do Estado e já enfrenta um novo
desafio. “Fizemos os processos de ajuste fiscal e estamos no processo de
modernização do setor público”, afirma. “São os programas de concessão e
privatização de empresas e os projetos de melhoria da qualidade do serviço
público.”
O governador garante que essa etapa de seu governo será impulsionada
por R$ 1,73 bilhão arrecadados com a venda da Coelba e com os recursos
que vieram de novas desestatizações e concessões. “Não vamos usar nenhum
centavo desse dinheiro para pagar despesas correntes ou dívidas”, promete.
Mas antes de gastar é preciso arrecadar. “Assim que entrei no governo
nós fizemos a concessão do sistema de travessia à ilha de Itaparica”, lembra
Souto. Por concessão, o serviço que era feito antes pela Companhia de
Navegação Baiana passou para a Consórcio Marítimo da Bahia (Comab).
“Estamos economizando cerca de R$ 20 milhões ao ano”, diz o governador.
Os equipamentos da estatal foram alugados e a companhia tem hoje apenas
cem funcionários.
“Todas as empresas a ser privatizadas vão passar pelo mesmo processo
da Coelba, e a próxima é a Bahiagás, empresa de distribuição de gás para
indústrias”, afirma Souto. O processo de privatização está na fase de
contratação de uma consultoria que vai fazer a avaliação da companhia. “É uma
empresa pequena, mas tem boas perspectivas de mercado”, diz o governador,
que aposta na desregulamentação do setor de petróleo. “Com isso, as
empresas privadas vão poder promover pesquisas, o que poderá aumentar a
produção”, raciocina ele.
Outra companhia que o governo colocou na linha de desestatização é a
Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa). “E é justamente na área
que essa empresa atua que o Estado vem fazendo seus principais
investimentos”, lembra o governador. O programa Bahia Azul, por exemplo,
que prevê o saneamento ambiental da Baía de Todos os Santos, em Salvador,
está consumindo US$ 600 milhões.
A Embasa é para o governo baiano um instrumento importante em
investimentos de caráter social, principalmente para levar esgoto sanitário e
água para as regiões mais sofridas do Estado. “Por isso, o processo de
modernização e preparação dessa empresa, que já está em pleno andamento, é
mais demorado”, explica Souto. Mesmo assim ele diz que pretende começar
no início do próximo ano os estudos de modelos para a privatização da
Embasa.
O governo baiano também quer melhorar o programa de concessão de
rodovias. “A primeira meta é a ampliação da Estrada do Coco, que sai de
Salvador, passa pela Praia do Forte e vai até a fronteira com Sergipe”, conta
Souto.
Vontade política – Além disso, o governo já assinou o protocolo que
garante a privatização do banco estadual, o Baneb, e a transformação do
Banco de Desenvolvimento do Estado da Bahia (Desenbanco) em agência de
desenvolvimento. “O que está acontecendo na Bahia há algum tempo é reflexo
da vontade política de manter o Estado vivendo com seus próprios recursos”,
garante o governador.
“A Constituição de 1988 já favoreceu Estados e municípios”, lembra. “E
o governo federal há algum tempo não conta com uma situação fiscal
confortável para distribuir mais dinheiro.”
Para o dinheiro arrecadado com a venda da Coelba, o governador
baiano traçou um plano de investimentos na mesma linha cautelosa que vem
marcando os governos estaduais do PFL baiano. “Nossa idéia é utilizar uma
parte dos recursos, de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões, para criar um fundo
de previdência”, diz. Gradativamente, aposentados e inativos do Estado seriam
transferidos do Tesouro para esse fundo de pensão. “Farei até um sacrifício
maior se a idéia funcionar”, garante. Os recursos com futuras privatizações e a
venda de imóveis e terrenos também podem ser destinados para esse fundo.
O governo baiano empenha de 23% a 25% de sua receita no
pagamento de inativos e aposentados. Se esse débito passar para o fundo,
aumentará muito a capacidade de investimentos do Estado, que hoje é de
cerca de 15% da receita líquida.
Emergentes – Outra idéia do governador é criar um fundo para
financiamento para o que ele chama de empresas emergentes. “São empresas
de boa base tecnológica e de capacidade de gestão, mas com necessidade de
financiamento”, explica.
Na área dos investimentos, o governo baiano trabalha com duas vias. A
primeira é um programa de modernização da infra- estrutura do Estado.
“Queremos reduzir os custos, tanto de instalação como na operação das
empresas que vêm para o Estado”, diz Souto.
Para aproveitar a iniciativa do governo federal, que está fazendo a
hidrovia do São Francisco, o governo da Bahia poderá investir no Porto de
Juazeiro. Os baianos também pretendem atrair mais investimentos em turismo,
um dos grandes filões do Estado. “Além das estradas, vamos fazer um
aeroporto na Chapada Diamantina, na região central, e um outro na área do
município de Valença, no litoral”, conta o governador baiano.
O governador promete investir pesado em educação de segundo grau.
A modelo baiano é a escola estadual Thales de Azevedo. O colégio tem
laboratórios científicos, sala de vídeo, computadores, quadra esportiva, aulas
de dança, capoeira e de línguas estrangeiras. O governador promete investir
em pelo menos mais dez escolas como essa.
Para a saúde, o governo baiano pretende valorizar o programa de
municipalização, incentivando consórcios de municípios na construção de
hospitais regionais. Parte do dinheiro levantado com a privatização da Coelba
também vai para a segurança. “Vamos garantir equipamentos modernos,
principalmente de comunicação”, garante Souto, que promete “carimbar” todas
os investimentos feitos com os recursos resultantes da venda da companhia de
energia.
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3 respostas
Vou deixar uma pergunta só vocês sabe em 1997 a COELBA foi privatizada, e foi ofertado aos seus empregados uns lotes de ações, depois umas sobras, tem como vocês ver isso pra min na sobras quantos lotes foi para cada um, data e valor.
Tenho certeza que serei atendido
Muito obrigado
Boa tarde
Sr. Hélio Gama Neto
Já fiz esse pedido o mês passado não tive resposta.
Estou enviando ao Sr. se possível me enviar o edital da Coelba a onde fala quantos lotes de ações estão a exposição dos funcionários,
na época da privatização só quero saber do rateio que eles fizeram, quantos lotes, valor e data se possível. Muito obrigado.
Boa tarde
Mais uma vez perturbando vocês.
Por gentileza me informa quantos lotes de ações os empregados da COELBA, comprou na época da privatização, eu sei que primeiro ofereceram 10 lotes para cada um, depois veio mais uma oferta de um rateio esse é que estou querendo saber quantos lotes foi para cada um e o valor e data.
Tem como algema ver isso para mim e me enviar pelo E-mail ( adilson.g.c@hotmail.com ), Na certeza que serei atendido desde de já agradeço.
Adilson Guimarães Cardoso
adilson.g.c@hotmail.com