JB 1/6/2000 País corre risco de ficar sem energia Plano Decenal constata que ameaça de déficit é superior ao dobro do limite de segurança do sistema elétrico brasileiro MAIR PENA NETO Os riscos de …


JB 1/6/2000

País corre risco de ficar sem energia

Plano Decenal constata que ameaça de déficit é superior ao dobro do limite de segurança do sistema elétrico brasileiro


MAIR PENA NETO


Os riscos de déficit de energia para este ano chegam a 13,9% no sistema interligado Sul/Sudeste/Centro-Oeste, o que corresponde a mais do dobro do limite de segurança compatível com o sistema elétrico brasileiro. Os dados constam do Plano Decenal de Expansão 2000/2009, do governo, que prevê anos críticos, mesmo que se amplie em 71% a capacidade instalada de geração do país. Para 2001, o cenário é ainda mais sombrio, com riscos de déficit de 17,2% no mesmo sistema interligado, e a situação só se normalizaria em 2003.


O presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, reconhece que a situação é delicada, mas descarta riscos iminentes de blecaute. "Pelos dados operacionais fornecidos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) a gente tem garantia de suprimento para todo o ano de 2000", afirma.


O trabalho do governo, segundo Firmino, é de administração dos recursos energéticos, "que têm sido escassos com o crescimento da economia", para garantir oferta em 2001, 2002 e 2003. Com a retomada do crescimento econômico, o consumo de energia de março de 1999 a março deste ano chegou a 3,7%. O governo já trabalha com a média de 5% este ano, contra 2% ano passado.


Termelétricas – Além de negociar com as indústrias a redução do consumo nos horários de pico, o governo busca agilizar novos projetos de geração térmica. O programa prioritário de termelétricas, que prevê a construção de 49 usinas em todo o país, vem enfrentando dificuldades, e o governo oferece vantagens para tentar antecipar alguns projetos.


O presidente da Eletrobrás diz que algumas termelétricas, como a Termorio e a Termobahia, já estão em construção, e que os empreendimentos nas instalações físicas da Petrobras têm relativa facilidade de serem construídos num prazo mais curto, pela presença da estatal como sócia, o que viabiliza a captação de recursos.


Curto prazo – Mesmo considerando que uma termelétrica não se constrói do dia para a noite, e que o sistema elétrico brasileiro opera próximo ao limite, Firmino Sampaio aposta que térmicas que atuarão no mercado de curto prazo vão atender as exigências do setor. "A Enron discute com a Petrobras a possibilidade de deslocar algumas máquinas de sua propriedade para um projeto de instalação rápida, na mesma área da Riogen, em Seropédica", contou. Esta planta adicional à da termelétrica Riogen, juntaria cinco a seis máquinas de 50 MW, gerando 300 MW para atender situações emergenciais.

Técnico antecipa racionamento

Ao preparar o Plano Decenal 2000/2009, o governo mudou o critério de avaliação de riscos de déficit. A denúncia é do diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina) , Roberto d’Araújo, que diz que sob os parâmetros anteriores os riscos estariam em 20% nos próximos três anos. "Em toda a história da energia elétrica no Brasil, o sistema era dimensionado para garantir que qualquer risco de ficar sem energia não ultrapassasse 5%. Agora, relaxou-se o conceito, e só é considerado déficit o que ultrapassa 5% do mercado brasileiro. Isso corresponde a 15 mil GW/h. É o consumo do estado do Paraná. Nenhum país trabalha com uma margem dessas".


A situação não parece tão sob controle, como prega o governo, no ponto de vista de Roberto D’Araújo. "Vamos ter racionamento no Brasil", assegura, atribuindo a medida extrema à falta de investimentos no setor. Uma análise do comportamento das taxas de expansão do setor elétrico brasileiro revela que a taxa média caiu de 11,8% ao ano na década de 70 para 4,1% na década de 80 e 2,6% na década de 90. Esta redução significativa nos investimentos deixou o sistema operando próximo a seu limite de capacidade.


Para agravar o quadro, maio foi o pior mês dos últimos 38 anos em índice pluviométrico, deixando os reservatórios em níveis baixos. Como o sistema elétrico brasileiro é muito dependente do regime de chuvas, quando não conta com reservas adequadas fica vulnerável a variações de consumo. "Nosso sistema foi dimensionado para suportar secas muito maiores que estas. O problema maior foi mesmo a falta de investimentos", argumenta Roberto D’Araújo.


O diretor do Ilumina diz que quanto mais baixos os reservatórios mais se perde capacidade de fornecer energia nos horários de ponta, e adverte que se houver a recuperação esperada da economia, "de uma hora para outra a gente vai ter um apagão nacional". D’Araújo diz que racionamento é ainda mais complicado que apagão, pois trata-se de desligamento programado por não se ter água para gerar a energia necessária. "Corremos o risco de termos racionamento como os da década de 50. E não ter energia significa perda de PIB e desenvolvimento". (M.P.N.)

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