Angra I já parou 11 vezes desde 1998
Carter Anderson
Só nos três primeiros meses do ano, a usina nuclear de Angra I foi desligada
seis vezes, por problemas que vão de falhas no equipamento a interrupção no
fornecimento de energia e erro humano, denunciou ontem o vice-diretor da
Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da
UFRJ, o físico Luís Pinguelli Rosa. De junho do ano passado a março, a usina
teve seu funcionamento interrompido 11 vezes – uma freqüência que, segundo
Pinguelli, deixa evidente que há problemas sérios de operação e
manutenção.
Professor de planejamento energético da Coppe, Pinguelli incluiu essas
informações num relatório e o enviou ao procurador Daniel Sarmento, do
Ministério Público Federal. Semana passada, o procurador enviou ofícios,
com pedidos de esclarecimento, à Eletronuclear, operadora de Angra I, e à
Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o órgão fiscalizador.
– Os reatores normalmente param uma vez por ano, para manutenção e troca
de combustível. Umas três paradas por ano ainda são aceitáveis. Mas seis
num trimestre é muito. Esse reator tem que parar de funcionar para sofrer uma
supervisão. Por que há tantas interrupções sucessivas? – afirmou Pinguelli,
que informou ter tido acesso a relatórios enviados pela Eletronuclear à Cnen
e à Associação Mundial de Operadores Nucleares (Wano).
O diretor de Relações Institucionais da Eletronuclear, Luís Soares, disse que
a empresa só dará informações sobre a operação da usina após responder
oficialmente ao Ministério Público, o que fará ainda esta semana. Soares
negou que haja problemas de manutenção e segurança. Segundo Soares,
Pinguelli baseou suas informações no Plano de Ação para Melhoria dos
Indicadores de Desempenho de Angra I, enviado à Cnen em 20 de abril. A
Cnen divulgou nota, na qual informa que a usina vem operando "sem eventos
que afetem a segurança” e que não foi notificada pelo Ministério Público.
Professor de física da PUC-RJ e ex-diretor da Cnen, Anselmo Páschoa disse
que é preciso analisar as causas que levaram às interrupções, mas demonstrou
preocupação com sua freqüência:
– Angra I deve funcionar com uma ou duas paradas por ano. Ou há cuidados
excessivos ou a manutenção não está adequada.
Em seu relatório, Pinguelli enumerou os desligamentos: quatro foram
provocadas por eventos externos (interrupção no fornecimento de energia
elétrica); quatro por falhas no equipamento; dois por erro humano e um por
causa indeterminada. Segundo Pinguelli, é normal que a usina seja desligada
quando houver interrupção no fornecimento de energia. Segundo o físico,
trata-se de uma medida preventiva, uma vez que a energia externa pode ser
necessária para acionar mecanismos de segurança, se o reator falhar.
Pinguelli disse que há outros problemas sérios. Segundo o físico, 9% dos tubos
dos dois geradores de vapor já estão inutilizados. De acordo com ele, usinas
gêmeas de Angra I, em outras partes do mundo, precisaram trocar todo o
gerador, porque os tubos tinham defeito de fabricação. Para Pinguelli,
faltam recursos para a Eletronuclear fazer a troca. A empresa contestou o
físico e informou que foram necessários 17 anos para que 9% dos tubos
apresentassem defeitos. Soares disse que este índice pode chegar a 25%:
– A Eletronuclear tem uma receita anual de R$ 200 milhões, que banca as
despesas de custeio. Vamos triplicar nossa receita com a entrada em
operação de Angra II, em janeiro. Não há problemas de recursos – disse
Soares.