Ipanema fica 9 horas na escuridão Luciana Rodrigues, Múcio Bezerra e Rolland Gianotti Emperrado pela falta de energia, o relógio digital na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Farme de Amoedo exibia o momento …

Ipanema fica 9 horas na escuridão

Luciana Rodrigues, Múcio Bezerra e Rolland Gianotti


Emperrado pela falta de energia, o relógio digital na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Farme de Amoedo exibia o momento exato em que a confusão se instalou no bairro mais charmoso e sofisticado do Rio: às 9h59m, uma falha no sistema de distribuição da Light interrompeu o abastecimento de luz em 33 ruas de Ipanema, tumultuando a vida no coração da Zona Sul. O trânsito virou uma desordem; o comércio teve um dia de prejuízos e até agências bancárias suspenderam o atendimento aos clientes. O setor turístico também não escapou dos transtornos: nos hotéis, não foram poucas as reclamações de hóspedes insatisfeitos com a falta de elevadores e de ar-condicionado. O fornecimento em Ipanema só foi normalizado às 18h50m, quando o problema chegava ao Leblon – bairro que, às 21h, ainda tinha ruas às escuras.

Para encarar o apagão e o desconforto causado pela pane, o ipanemense lançou mão da criatividade. Com cabeleireiro marcado desde a véspera, a aposentada Sylene Fernandes, de 61 anos, por exemplo, não abriu mão do corte e do penteado confiados a Washington Teixeira de Lacerda. Para driblar a escuridão que tomou conta do salão, ela levou Washington com seus pentes e tesouras para a calçada da Rua Visconde de Pirajá, onde se embelezou.

– Cortar o cabelo na rua não é vergonha. Humilhante é o desserviço prestado pela Light – disse, enquanto era observada por curiosos.

Dona do salão de beleza que atendeu Sylene, Patrícia Pimentel calculou em R$ 1 mil o prejuízo provocado pela falta de luz. Mas ela não foi a única a ver o faturamento de seu negócio despencar por causa do corte do abastecimento de energia elétrica. O também cabeleireiro Paulo Cesar Carvalho atendeu a apenas dois clientes e estima que perdeu R$ 800 com as desistências.

Na livraria Letras e Expressões, também na Visconde de Pirajá, o encarregado Antonio Pinnola providenciou lanternas para o atendimento aos clientes. Mas muita gente cancelou a compra ao saber que os cartões de crédito não estavam sendo aceitos – o contato com as administradoras foi interrompido com a falta de energia.

– Estamos vendendo o mínimo – afirmou Antonio.

Na Casa Alberto – vizinha a uma agência do Banco Itau que interrompeu o expediente e no mesmo quarteirão do Mc Donalds que suspendeu a venda de sanduíches -, os funcionários serviam água mineral aos clientes para compensar a falta de luz e de ar refrigerado.

– Mas nem assim o calor dá uma trégua – reclamou Cristiane da Motta Miguens, de 27 anos, que foi à loja de tecidos experimentar um pesado turbante que usará em um concurso de beleza em Punta del Este. – Como embarco na quinta-feira (amanhã) para Punta, não terei outro dia para provar a fantasia que vou usar na escolha da rainha mundial das comissárias de bordo – emendou ela, justificando o sacrifício.

Na lanchonete Chaika, as tradicionais filas para o almoço deram vez a uma infinidade de velas acesas no salão. Para os poucos clientes, nada de frituras, gratinados, milk shakes ou sucos. A fritadeira, o forno, o liquidificador e o espremedor de frutas são elétricos e, assim, não funcionaram durante todo o dia. A chapa a gás, única alternativa na cozinha, encheu o salão de fumaça – o exaustor também não funcionava. A estudante Renata Mandarino resolveu almoçar na lanchonete mesmo assim. Acompanhada da filha, pediu salada para as duas e só se queixava do calor.

– Já comprei dez caixas de vela e 50 sacos de gelo para as saladas. Não sei mais o que fazer – disse a gerente da loja, Francisca Lopes Braga.

A falta de luz e do ar condicionado também fez com que a a publicitária Patrícia Naschpitz desistisse do almoço em casa, na Rua Vinícius de Moraes, e optasse por uma refeição leve e na varanda de um restaurante na esquina. Ainda assim, ela não abriu mão de um ventilador portátil, movido a pilha:

– Estou me sentindo no inferno.

Nem os hotéis da orla que não possuem geradores escaparam da falta de luz. No Sol Ipanema, em plena Avenida Vieira Souto, os hóspedes ficaram mais de oito horas sem elevador e ar condicionado, o que fez com que aumentasse o número de reclamações na recepção.

– A solução é esperar na praia – lamentou a californiana Brigite Stuart.

A falta de luz em Ipanema foi provocada por uma sucessão de defeitos nas emendas de três dos oito cabos subterrâneos de 13.800 volts do sistema de distribuição de energia elétrica do bairro. O problema, iniciado isoladamente ainda na madrugada, às 3h, só começou a ser revolvido no final da manhã. Segundo o gerente da Regional Litorânea da Light, José Márcio Ribeiro, a sucessão de defeitos em três cabos de um mesmo sistema é um fato raro.

A área atingida pelo corte de energia tem cerca de 30 quilômetros de cabos de alta tensão, que formam um sistema reticulado ligado a 60 câmaras transformadoras subterrâneas. Os cabos, de cobre, têm uma polegada de diâmetro e mais uma camada de uma polegada de material isolante. As emendas ficam nos cruzamentos das ruas. O principal rompimento aconteceu na esquina das ruas Rainha Elizabet e Canning. Segundo José Márcio Ribeiro, o sistema de cabos subterrâneos de Ipanema tem entre dez e 15 anos e não é considerado velho. Ele acredita que o grande consumo de energia tenha contribuído para o desgaste das emendas que partiram.

Além de Ipanema, outros bairros tiveram cortes rápidos de energia ontem. Ruas do Méier e do Lins, para citar dois exemplos, sofreram cortes de luz no início da manhã. Durante o dia, também faltou energia em ruas da Tijuca, de Copacabana, do Leblon e da Cidade Nova – neste bairro, a 2ª Vara da Infância e Juventude do Juizado de Menores cancelou as 19 audiências marcadas para ontem. Na Rua Pinheiro Guimarães, em Botafogo, onde funciona o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam), o corte de energia durou mais de uma hora. Às 19h, moradores de prédios vizinhos ao Ibam permaneciam nas portarias, aguardando que os elevadores voltassem a funcionar.

Moradora há 12 anos do Leblon, a dona de casa Maria Tereza Souza, de 68 anos, teve uma crise de pânico, ontem à noite, quando a luz apagou em sua rua, a Aristides Espínola, uma das que foi atingida pelo apagão no bairro. Apavorada, ela ligou para a Light, que informou não haver previsão de restabelecimento da energia elétrica.

A Light promete melhorar o atendimento aos consumidores. A partir de hoje, o telefone de emergência da distribuidora para reclamações não será mais o velho 196. O novo número, 0800-210196, permite, segundo a Light, o atendimento simultâneo de até 30 ligações. O número 196 apresentava defeitos em seus troncos.

COLABOROU Roberto Cordeiro, de Brasília


Deputado quer o relatório da auditoria

BRASÍLIA. O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) vai recorrer à Procuradoria do Direito do Cidadão, no Rio, para que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) encaminhe com urgência ao Ministério Público cópia da auditoria concluída ontem na Light pelos fiscais da autarquia. O parlamentar informou que o relatório aponta problemas graves na empresa e teme que a diretoria da autarquia não divulgue integralmente o documento repassado a Brasília.

– Os dados são alarmantes. Mostram que a maneira como a empresa se estruturou encontra-se equivocada. Estou recorrendo ao Ministério Público para que a Aneel revele a íntegra do relatório da auditoria – disse Miro.

O ministro de Minas e Energia Raimundo Brito confirmou ontem que os técnicos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já concluíram as auditorias na Light e na Cerj. Segundo ele, o diretor-geral da autarquia, José Mário Miranda Abdo, virá ao Rio, em 17 de fevereiro, para uma audiência com representantes dos consumidores das duas empresas. O ministro explicou que o objetivo do encontro é apresentar os resultados das análises técnicas e saber dos clientes quais foram as principais dificuldades no atendimento.

– O que as empresas precisam é dar permanente satisfação aos seus consumidores. A relação com o poder concedente sempre será fria e dura. O nível de investimento que vem sendo feito pela Light e pela Cerj é superior ao que se fazia antes. No entanto, esse nível de investimento tem sido insuficiente – afirmou o ministro.






Horário de verão prorrogado por 14 dias

BRASÍLIA e RIO. O Governo federal decidiu prorrogar por 14 dias o horário de verão em 12 estados brasileiros e mais o Distrito Federal. O anúncio foi feito ontem pelo ministro de Minas e Energia, Raimundo Brito, ao informar que o horário especial termina à meia-noite de 28 de fevereiro (e não mais à meia-noite do dia 14 de fevereiro), uma semana depois do carnaval. Segundo o ministro, a expectativa do Governo é que as diretorias da Light e da Cerj, nesse período, possam intensificar os investimentos para melhorar o atendimento aos consumidores no Estado do Rio. Desse modo, a prorrogação continua valendo para Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia e Distrito Federal. Essa é a segunda vez que o horário de verão é prorrogado no país. A primeira ocorreu em 1986, e a ampliação se deu por nove dias.

Segundo o ministro, antes de decidir pela ampliação do horário foi mantido contato com os governadores de todos os estados em que o horário especial está em vigor. Brito disse que também fez contatos, por telefone, com o presidente Fernando Henrique Cardoso para expor o resultado das análises feitas pelos técnicos da Eletrobrás. Brito contou que obteve sinal verde do Palácio do Planalto para prorrogar o horário de verão.

O ministro Raimundo Brito explicou que a extensão do horário de verão não trará prejuízo para os moradores dos estados em que não há problemas no abastecimento de energia elétrica. Segundo ele, há uma situação atípica, principalmente no Rio e no Espírito Santo, em face de temperaturas mais elevadas.

O prefeito Luiz Paulo Conde comemorou ontem o adiamento do término do horário de verão. Conde acredita que a economia de energia durante os dias de prorrogação pode evitar que os constantes cortes de luz se tornem ainda mais graves na cidade. O prefeito lembrou que o adiamento do fim do horário especial tinha sido sugerido por ele, na semana passada, ao ministro Raimundo Brito, como forma de atenuar os problemas com a distribuição de energia.

O gerente da Regional Litorânea da Light, José Márcio Ribeiro, disse que o prolongamento do horário de verão por mais 14 dias em nada vai contribuir para resolver o problema no Rio:

– O horário de verão não vai fazer diferença para o sistema da Light, porque o período de maior demanda é às 23h.

O vice-presidente da Cerj, José Luís Echenique, também acha que o prolongamento do horário de verão não vai resolver o problema da falta de energia nas cidades servidas pela empresa, porque o horário de maior consumo ocorre entre 20h e meia-noite. Echenique pede à população para economizar energia.

Diante dos prejuízos acumulados pelas empresas, o presidente da Associação Comercial do Rio (ACRJ), Arthur Sendas, chegara a enviar um ofício ao Ministério das Minas e Energia pedindo a continuidade do horário.

Com a decisão de prorrogar o horário de verão, o carioca comemorou. Além dos que vão poder dar uma “esticadinha” depois do expediente, a medida agradou aqueles que vivem do verão: os vendedores e quiosqueiros, sobretudo.

Nos quiosques da Lagoa, inaugurados domingo passado, a prorrogação foi saudada. Paulo Abranches, do Arab, especializado em comida árabe, disse que o Rio foi o grande beneficiado.

– É muito melhor para a cidade que tem a cara do verão – disse Paulo Abranches.

Mas há quem reclame. João Batista, que vende bebida nas areias do Posto Nove, em Ipanema, acha que não adianta:

– Eles deveriam prolongar as férias, também.

O economista Marcos de Souza Pinto está no time dos que aplaudiram a medida. Saiu do escritório, no Centro da cidade, às 17h e conseguiu pegar mais duas horas antes do pôr-do-sol

– Nada melhor do que uma praia depois do trabalho para relaxar – aconselhou.



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