O GLOBO ON 20.11.97
Escelsa paga 83,8% de ágio e fica com a Enersul
Em leilão ontem, na Bolsa do Rio, a Enersul – distribuidora de energia elétrica do Mato Grosso do Sul – foi arrematada pela Escelsa, distribuidora de energia do Espírito Santo. A Escelsa, sozinha, comprou 55,36% do capital social da Enersul por R$ 625,5 milhões, o que representou um ágio de 83,8% sobre o preço mínimo, fixado em R$ 340,3 milhões.
O resultado surpreendeu o mercado, que apostava que o grupo vencedor seria o EBD, formado por Companhia Vale do Rio Doce, Previ (o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e Enron, empresa americana de energia. O EBD ofereceu R$ 555,9 milhões. Também participaram do leilão, o primeiro após o pacote fiscal anunciado pelo Governo federal na semana passada, o consórcio liderado pela americana CMS, que ofereceu R$ 562,1 milhões, e o comandado pela belga Tractebel, que ofereceu R$ 432,8 milhões.
Estiveram presentes ao leilão, além do presidente da Bolsa do Rio, Fernando Opitz, o governador de Mato Grosso do Sul, Wilson Barbosa Martins, e o presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio. O presidente da Escelsa, Francisco Gomide, disse que nos próximos três anos deverão ser investidos cerca de R$ 100 milhões na Enersul.
– Vamos investir o que for necessário – garantiu Gomide.
A Escelsa, privatizada em 1995, pretende aumentar dos atuais 4,5% para 10% sua participação no mercado de distribuição de energia elétrica. Com um patrimônio de R$ 850 milhões, a Escelsa é 50% maior que a Enersul.
Do valor total da venda da Enersul, 40% vão para o Governo de Mato Grosso e os 60% restantes para a Eletrobrás. Sampaio disse que as próximas empresas a serem privatizadas, ainda este ano, são Cemat, Energipe e Coserne.
Em Brasília, o ministro do Planejamento, Antônio Kandir, disse que o leilão da Enersul mostra que o programa de privatização está no caminho certo. Segundo ele, o período de turbulência nos mercados externos, que afetou os setores financeiro e mobiliário do país, não alterou os interesses dos estrangeiros no programa de desestatização brasileiro.
Segundo o ministro, há dois pontos importantes no processo de venda da Enersul. Um foi o lance da Escelsa, que gerou um dos maiores ágios em leilão dos últimos anos. O outro foi a participação de investidores estrangeiros, que apresentaram propostas entre 26,17% e 65,15% acima do preço mínimo preestabelecido.
– Gostaria de registrar o aspecto qualitativo do leilão da Enersul. Tivemos pelo menos três grandes grupos estrangeiros fazendo lances. Isso mostra que realmente o programa de privatização não deve ter o seu ritmo alterado. O que assistimos no mercado financeiro não vai mudar esse processo – disse Kandir.
Segundo Kandir, as privatizações ocorridas este ano, incluindo a da Enersul, totalizaram US$ 23,7 bilhões. Esse montante é 16,17% superior aos US$ 20,4 bilhões arrecadados pelo Governo federal entre 1991 e 1996.
O ministro disse que a venda da Enersul também foi importante por ter sido o primeiro leilão de uma estatal federal sem batalha jurídica.
ÎEstamos estudando a Eletropauloâ
Cleide Carvalho
FRANCISCO GOMIDE
SÃO PAULO. Com R$ 910 milhões em caixa para investir, o presidente da Escelsa, Francisco Gomide, diz que a compra da Enersul era estratégica e, por isso, o ágio chegou a 83,79% do preço mínimo.
Qual a razão de um ágio tão alto para a Enersul?
FRANCISCO GOMIDE: Temos um interesse especial pela concessão, que é da Enersul, para a construção da termelétrica a gás natural na fronteira com a Bolívia. Devemos consumir seis meses no projeto. É possível iniciar a construção já em 1998.
Há interesse em participar das privatizações das elétricas de São Paulo?
GOMIDE: Nosso foco é a distribuição, e estamos estudando a privatização da Eletropaulo, que será dividida em duas empresas de distribuição.
A Escelsa vai utilizar o financiamento de R$ 170 milhões do BNDES?
GOMIDE: Pretendemos usar integralmente, mas temos a opção de tomar crédito nos bancos que são parceiros na Escelsa. Pudemos dar um lance alto porque nos preparamos antes da crise. Em junho, captamos US$ 500 milhões em Yankee Bonds, além de termos um caixa da própria Escelsa superior a US$ 300 milhões.
A Escelsa pretende ter uma operadora internacional como parceira?
GOMIDE: Por enquanto, o objetivo é transformar a empresa numa grande operadora. Por enquanto, temos apenas 3,5% do mercado. Um parceiro não está fora de questão, mas não é objetivo de curto prazo.
A Escelsa entregou o envelope por último para dar aos concorrentes a impressão de que não iria participar?
GOMIDE: O tempo foi gasto apenas no percurso entre a corretora e a bolsa.
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