Globo 19/11/98 – Coluna de Marcio Moreira Alves
20/11/98
Venda de Furnas
Contam que as crianças de Araxá viviam correndo atrás do doido da cidade, pedindo que olhasse para trás. O doido ficava firme. Dizia: "Arrodeia, menino. O que passou, passou". Exemplo de bom senso para o PT e partidos auxiliares, que batem caixa a pretexto de uma CPI sobre as privatizações, que não tem a mínima chance regimental de sair, e deixam passar em branco a privatização que sairá, e, dizem, sairá errado: a de Furnas.
Sexta-feira, mais de 600 pessoas lotaram o grande salão do Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro, para protestar contra a forma como se prepara a venda da principal empresa do setor elétrico brasileiro. Estavam presentes políticos que são contra todas as privatizações, mas presentes também estavam outros, como o engenheiro e deputado Márcio Fortes, que são a favor mas consideram um erro a forma como está sendo proposto o negócio. Márcio, aliás, levou uma estrondosa vaia quando declarou-se a favor da privatização. É que os vendedores, os técnicos do BNDES, têm a cabeça voltada para os aspectos financeiros do negócio, quando o que se pleiteia é uma visão econômica, na perspectiva do desenvolvimento do país. Entre os que assumem essa posição está o próprio presidente de Furnas, Luís Laércio, mineiro há muitas décadas trabalhando num setor que teve a sua origem na Minas Gerais de Juscelino Kubitschek.
Os números de Furnas são impressionantes. A venda da energia de suas 11 usinas próprias e da usina de Itaipu representa 43% do total brasileiro. Fornece 88% da energia consumida no Estado do Rio, 45% da de Minas Gerais, 34% da de São Paulo e a quase totalidade da energia de Brasília. O seu patrimônio está avaliado em R$ 10,5 bilhões e seu endividamento é de apenas 7,4%. Em 1995, a empresa ainda deu um prejuízo de R$ 99 milhões, herança dos tempos de inflação, mas o lucro líquido de 96 foi de R$ 335 milhões, o de 97 foi de R$ 361 milhões e este ano, só com o ajuste de tarifas já concedido para as empresas da Gerasul, pode chegar a R$ 1 bilhão. Os investimentos cresceram com rapidez semelhante, somando R$ 2,6 bilhões em apenas três anos, com recursos próprios ou captados no mercado internacional a juros mais baixos que os pagos pelo Tesouro. A usina de Corumbá I foi concluída no ano passado, este ano se conclui a de Serra da Mesa, devendo a usina nuclear de Angra II ficar pronta em 1999. A soma dessas usinas representa um aumento de 36% sobre a capacidade instalada em 1995. Neste período, Furnas construiu dois mil quilômetros de linhas de transmissão, dos quais 1.500 são as de mais alta tensão no mundo.
A Constituição reserva para o Governo federal a exclusividade da energia nuclear, o que provocou a criação de uma nova empresa, a Eletronuclear, para ficar com as usinas de Angra, que são deficitárias. Segundo os cálculos do antigo Departamento de Geração Nuclear de Furnas, o custo da geração de energia de Angra I é de R$ 163,73 por MWh, que Furnas compra a R$ 47, vende para a Light por R$ 34 e a Light revende ao público por R$ 84 em média. O custo de geração de Angra II será maior ainda. Há, portanto, um subsídio cruzado nas tarifas de Furnas, que um futuro comprador privado dificilmente assumirá, passando o prejuízo para o Tesouro. Tendo em vista a redução do Orçamento federal, qualquer ajuste fiscal pode cortar esses recursos, o que significa deixar de investir na segurança das usinas. Correríamos o risco de um Chernobyl a meio caminho do Rio e de São Paulo.
A discussão que hoje ocorre não é mais sobre se vão vender ou não a empresa. Há um certo fatalismo a esse respeito, apesar dos aproveitamentos hidroelétricos serem estatais no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos, na proporção de 65% de empresas estatais e de 35% das empresas privadas. É que os reservatórios têm usos múltiplos, de interesse para as populações e para o meio ambiente, usos que requerem pesados investimentos, quase todos deficitários.
O eixo da discussão é sobre se Furnas deve ser vendida em bloco, como preferem os seus dirigentes, mantendo a sua capacidade de crescer, pesquisar, proteger a natureza, ou se deverá ser dividida em três empresas, mais fáceis de serem vendidas, como querem os "modeladores" do BNDES. O Governo federal conservaria a empresa de transmissão de energia, que dá prejuízo, e formaria empresas de geração, lucrativas, uma com as usinas da região Centro-Sul, outra com as da região Centro-Oeste.
A decisão terá profundas conseqüências econômicas para o Estado do Rio. Sendo a sede de Furnas no Rio, a empresa contribui para o estado com R$ 130 milhões de impostos por ano e gera três mil empregos diretos, que correspondem a R$ 270 milhões por ano em salários e benefícios sociais. Os defensores da divisão garantem que as sedes continuarão no Rio, embora as geradoras tenham as suas usinas em Minas e Goiás.
É uma opinião, com a qual os novos donos poderão concordar ou não.