O GLOBO 24.08.97 Márcio Moreira Alves alves@rudah.com.br O setor elétrico O ministro Antônio Kandir anunciou que até o fim do primeiro semestre de 1998 as Centrais Elétricas de Furnas seriam privatiz …

O GLOBO 24.08.97






Márcio Moreira Alves

alves@rudah.com.br

O setor elétrico

O ministro Antônio Kandir anunciou que até o fim do primeiro semestre de 1998

as Centrais Elétricas de Furnas seriam privatizadas. Furnas gera e distribui

energia para uma região que gera 67% do PIB, interligando os sistemas estaduais

de São Paulo, Rio, Minas e Paraná. No ano passado, faturou 3,3 bilhões e teve

R$ 362 milhões de lucros, apesar de subsidiar a energia nuclear gerada por Angra

I, muito mais cara que a hidrétrica.

O primeiro passo para a privatização de Furnas foi dado pela resolução 15 do

Conselho Nacional de Desestatização, que mandou transferir para a Nuclen a

parte nuclear de Furnas. A Nuclen continuará estatal e dará prejuízo, pois o

contrato que fez com Furnas para a venda de sua energia prevê um preço inferior

ao custo de geração de Angra I e muito inferior ao de Angra II, que tem obrigações

financeiras maiores. O prejuízo justificará o relaxamento das medidas de

segurança, o que deveria dar calafrios na espinha de cariocas e paulistas, ainda

que os seus parlamentares não tenham se interessado pelo assunto.

Como todo mundo precisa de eletricidade, desde o favelado à grande indústria, o

sistema elétrico funciona como um arrecadador automático de parte da poupança

da sociedade. Hoje, as tarifas das estatais são relativamente baratas, em média

R$ 86 por megawatt/hora, até porque a água vem de graça e muitas usinas são

antigas e já estão amortizadas. No entanto, as empresas já privatizadas

aumentaram substancialmente as suas tarifas, o que já está agravando as

condições de vida das populações de baixa renda.

A privatização de Furnas arrisca aumentar o custo Brasil e a onerar ainda mais as

contas externas, porque as suas compradoras, quase certamente estrangeiras e

freqüentemente estatais, vão remeter para o exterior lucros que hoje ficam no

Brasil.

Minas Gerais, que tem no setor elétrico uma tradição estatal pioneira e de boa

administração, criou para a Cemig um modelo próprio, no qual o Estado

compartilha as decisões com dois sócios estrangeiros, a AES e a Southern

Eletric, ambas americanas, e com o banco Opportunity, que compraram 33% das

ações ordinárias da empresa. A diretoria é colegiada, o preço de captação de

recursos externos para a expansão de seu sistema se reduz e há uma cláusula

no acordo de acionistas que diz: “em hipótese nenhuma a empresa poderá fazer

negócios escusos ou apoiar campanhas eleitorais”. Colocar isso no papel é

esquisito, mas necessário, como sabemos todos.

Na Inglaterra, segundo informa um artigo do embaixador Rubens Barbosa, a

reformulação do setor elétrico levou 16 anos, sendo que a sua discussão no

Parlamento durou nove anos. Mesmo assim, a substituição do monopólio estatal

por minimonopólios regionais privados aumentou as tarifas, diminuiu os

investimentos na manutenção dos sistemas e na preservação ambiental, provocou

uma queda na qualidade dos serviços e causa constantes manifestações de

insatisfação dos consumidores.

Em nenhum dos países desenvolvidos, da Suécia à Itália, passando pelos

Estados Unidos, os sistemas de geração hidrelétrica são privados, dadas as

características técnicas da sua operação. No Brasil, 96% da energia que

consumimos é hidrelétrica, portanto renovável, o que é uma vantagem única no

mundo.

A Secretaria Nacional de Energia do Ministério das Minas e Energia encomendou

o desenho do setor elétrico a uma consultora inglesa, a Coopers & Lybrand.

O relatório consolidado da consultora não dá a mínima bola para as diretrizes

políticas do Governo e, muito menos, para a autoridade do Congresso Nacional.

Em relação a tarifas, por exemplo, diz, na página 35: “Deve-se, ainda, considerar

a hipótese de oferecer proteção contra a variação da taxa de câmbio se for

impossível a obtenção de arranjos de indexação das tarifas.” Ora, o pilar básico

do Plano Real é a desindexação da economia. O que a Coopers & Lybrand propõe

é o restabelecimento de uma cláusula-ouro, como as que existiam nos contratos

do início do século e que foram abolidas pelo Código de Águas e pela

Constituição de 1934. Em contrapartida, não há uma única proposta de proteção

ao consumidor e, muito menos, garantias de investimentos para a preservação do

meio ambiente. Ao contrário. Na página 29 está escrito, com a maior

tranqüilidade: “O procedimento de licenciamento ambiental também deverá sofrer

ajustes para atender às necessidades do setor privado, principalmente fazendo

com que o enchimento de reservatórios ou ativação de usinas deixe de depender

da emissão de uma licença operacional após realizado o investimento.”

As taxas de retorno sobre o patrimônio investido no setor elétrico, que constam

das páginas 36 e 37 do relatório, são : para a geração, 12 a 15% ao ano; para

transmissão, de 10 a 12%, para distribuição, de 11 a 13%.

Politicamente, o mais extraordinário desrespeito ao Congresso está expresso na

página 20 do relatório: “Nossa idéia inicial seria a promulgação de uma lei federal

de eletricidade que abrangesse as mudanças jurídicas desejadas. Reconhecendo

ser preferível, no atual contexto, minimizar qualquer alteração legal que envolva o

Congresso, recomendamos que, uma vez tomadas as decisões, o Ministério de

Minas e Energia desenvolva conosco uma avaliação das medidas legais a serem

encaminhadas para permitir a implementação de definições, deixando-se para o

futuro a consolidação de uma Lei Federal de Eletricidade abrangente.”

Peter Grainer, secretário nacional de energia, foi a Belo Horizonte expor o projeto,

que lhe dá carta branca para o que quiser. Quase saiu vaiado.









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