Não se enganem! A incompetência vem sempre acompanhada da arrogância e da teimosia. A divisão da CHESF é tão prejudicial ao Nordeste quanto à própria venda. Parece que mudou alguma coisa, mas a essencia é a mesma. Separar a transmissão da geração macaqueando o sistema inglês, apesar de todas as evidências que o sistema brasileiro nada tem a ver com o britanico. A idéia "As usinas emergenciais funcionarão como espécie de seguro do sistema e só entrarão em operação se os reservatórios não forem suficientes para garantir o abastecimento" é mais velha do que o rascunho da Bíblia. Com uma grande diferença: Não era onerosa para o consumidor. Como último ponto, não dá para entender de onde vem o número 50% para suspender o racionamento. Esse nível pode ser pouco pois depende das condições de atendimento no futuro.
Comercializadora comprará de usinas merchants
De Brasília
A Comercializadora Brasileira de Energia Elétrica (CBEE), responsável pela contratação da energia emergencial, comprará também energia das usinas merchants até que o Mercado Atacadista de Energia (MAE) volte a operar. A empresa pagará pelo megawatt 90% do preço negociado no Mercado Atacadista de Energia (MAE).
Mário Miranda, presidente da CBEE, afirmou que já estão assegurados cerca de 1912 MW dessa fonte, usinas termelétricas movidas a gás natural e que não têm contratos de fornecimento. A CBEE deve assinar amanhã os contratos com as usinas móveis -a diesel- que gerarão energia em caráter emergencial. Serão contratado 2.153 MW de potência, o que resulta em 1,16 mil MW de energia média em 2002.
As usinas emergenciais funcionarão como espécie de seguro do sistema e só entrarão em operação se os reservatórios não forem suficientes para garantir o abastecimento. Novos gráficos de referência traçados pelo governo para a região Nordeste mostram que, se os reservatórios chegarem a 48% da capacidade no final de abril, o que é factível, não será necessário acionar o seguro.
Até ontem os reservatórios da região acumulavam 20,20% de armazenamento e as estimativas são de chegar ao fim deste mês com 31%. "As chuvas contam a nosso favor para chegar a 48%. Só se houver uma mudança brusca", disse o ministro de Minas e Energia, José Jorge. O racionamento na região será suspenso se esse armazenamento for verificado.
O governo fez três projeções usando como referência os índices hidrológicos verificados em 2001. Na segunda hipótese, os reservatórios chegariam ao final de abril com 34% de armazenamento. Nesse caso, para garantir 100% de abastecimento, será necessário acionar toda a energia emergencial e as usinas do Programa Prioritário de Termeletricidade (PPT). Na pior das hipóteses -reservatórios com 28% de armazenamento- , só será possível garantir 95% do abastecimento, com o acionamento das térmicas a gás e a diesel.
Hoje o governo anuncia os gráficos de referência (curva guia, no jargão dos técnicos) para as Regiões Sudeste e Centro-oeste. O ministro José Jorge afirmou que o gatilho para suspender a contenção de consumo nas regiões é acúmulo de 50% nos reservatórios. Inicialmente a idéia é que o racionamento seja suspenso em março, mas poderá ocorrer antes se os reservatórios chegarem a 50% antes de fevereiro. Atualmente os reservatórios acumulam cerca de 36% de armazenamento. (FP)
Petrobras investe em geração alternativa
Renata Batista , Do Rio
Os projetos da nova área de energia e gás da Petrobras vão além do tão falado programa de investimento em termelétricas. A empresa começou a testar a viabilidade econômica de várias tecnologias de geração de energia renovável e a área é hoje uma das maiores demandantes do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes).
De acordo com Rui Fonseca, gerente executivo da área de segurança, meio ambiente e saúde da Petrobras, a estatal está investindo cerca de US$ 25 milhões por ano apenas em estudos de viabilidade econômica de programas de geração de energia renovável.
"Não estamos criando novas tecnologias. Queremos verificar a adequação e a eficiência desses negócios às condições brasileiras", afirma Fonseca.
O gerente explica que um dos projetos mais ambiciosos é o do biodiesel, combustível produzido a partir de óleos vegetais que pode substituir o óleo diesel derivado do petróleo.
Os testes para a produção e utilização do combustível estão sendo feitos pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), em convênio com a Petrobras. A Coppe deve produzir cerca de 20 mil litros de biodiesel que serão testados em 10 veículos durante este ano.
A Petrobras espera lançar até o fim do ano um novo tipo de combustível – o B5, mistura de diesel com 5% de biodiesel – com a aprovação da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e dos fabricantes de veículos automotivos. A idéia é acabar com a importação de diesel que é de 15% do total consumido.
Além do biodiesel, a empresa investe em geração solar e pesquisas com biomassa. Este ano, a estatal também pretende construir três plantas para produção de energia eólica nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul. O investimento em cada uma é estimado em US$ 3 milhões para produção de 3 megawatts (MW).
Empresas geradoras de energia saem do programa de privatização
Fábia Prates , De Brasília
Foto: Ruy Baron/Valor
FHC anuncia a governadores do Nordeste decisões sobre o futuro da Chesf
O governo decidiu retirar a Chesf do Programa Nacional de Desestatização (PND) e criar nova empresa de capital totalmente público com parte dos ativos de geração de energia da estatal responsável pelo abastecimento na região Nordeste. Apenas a usina de Xingó, com capacidade de gerar 3000 megawatts, ficará de fora da nova Companhia de Energia e Desenvolvimento Hídrico do Nordeste.
A nova empresa, com capacidade para gerar 7,7 mil megawatts e receita anual própria de R$ 800 milhões, ficará responsável não só pelo abastecimento de energia elétrica nos Estados nordestinos, mas também pela gestão dos recursos hídricos e compatibilização de múltiplos usos das águas do rio São Francisco, como irrigação e abastecimento.
O ministro de Minas e Energia, José Jorge, afirmou ontem que a transposição das águas do São Francisco, projeto polêmico e que está engavetado no Ministério da Integração Nacional, estará na pauta da nova empresa, ainda que não seja o assunto prioritário. "A prioridade é a transposição de energia".
O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou a decisão ontem aos governadores de Estados do Nordeste atendidos pela estatal, em reunião sem a presença do tucano Tasso Jereissati (CE) e de Jarbas Vasconcelos (PMDB/PE). A presidenciável Roseana Sarney (PFL) também não compareceu, embora o Maranhão, para o sistema elétrico, faça parte do Norte, por ser abastecido pela usina de Tucuruí.
A criação da Companhia de Energia e Desenvolvimento Hídrico – que depende de aprovação do Congresso Nacional – ocorrerá após a cisão da Chesf em duas empresas de geração e mais uma de transmissão. A cisão, não só da Chesf, mas também de Furnas e Eletronorte, será concluída até 31 de maio.
A nova empresa reunirá os ativos das usinas de Itaparica, Sobradinho, Boa Esperança, Bongi, Araras/Açucena, Paulo Afonso, Moxotó, Camaçari, Pedra e Funil. A usina de Xingó, por ainda não ter sido depreciada, atuará de forma independente e pode vir a ser incluída, no futuro, no programa de desestatização. José Jorge afirmou que a idéia é pulverizar as ações de Xingó, nos mesmos moldes do que está sendo programado para Furnas, mantendo o controle com a União.
O governo ainda estuda o que fazer para compensar os acionistas minoritários da Eletrobrás pela retirada da Chesf da holding. A nova empresa será controlada diretamente pela União. Eleazar de Carvalho, novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) afirmou que poderá haver permuta de ações. "Haverá a mais absoluta transparência e respeito aos minoritários". Cerca de 30% das ações da Eletrobrás estão nas mãos de minoritários.
A decisão anunciada aos governadores do Nordeste ontem é mais um indicativo claro de que o governo engavetou de vez a idéia de privatizar as geradoras federais. O ministro José Jorge admite "reavaliação" do processo impulsionada pela conjuntura de crise. "Quem pensa muda e nós resolvemos mudar", disse.
Oficialmente, o governo justifica a retirada da Chesf do PND por razões estratégicas, pelo fato de o rio São Francisco ser o único manancial de água doce disponível na região, o que é fundamental para o desenvolvimento do Nordeste. O Conselho Nacional de Desestatização oficializa hoje a decisão de retirar a estatal do programa.
Segundo José Jorge, a nova empresa terá uma atuação global e tentará atenuar os problemas sociais do Nordeste. Ela ficará responsável por ações de perenização dos rios, execução de reservatórios estratégicos, recuperação da bacia do São Francisco e de áreas desertificadas, educação ambiental e saneamento urbano.
Além de duas empresas de geração, a cisão da Chesf resultará também numa empresa de transmissão com 15,5 mil quilômetros de extensão. A separação de geração, distribuição e transmissão é uma das premissas do modelo do setor elétrico.
Decisão implica mudança no modelo para o setor elétrico, que previa privatização da geração de luz
Eleição à vista, FHC desiste de vender Chesf
HUMBERTO MEDINA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O governo desistiu de privatizar a Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco). A empresa é a maior geradora do país em capacidade instalada (10.704 MW em 16 usinas) e, por isso, a decisão modifica o modelo desenhado para o setor, que previa privatização da geração de energia.
O anúncio foi feito ontem em reunião do presidente Fernando Henrique Cardoso com governadores do Nordeste e com os ministros José Jorge (Minas e Energia) e Pedro Parente (Casa Civil). A privatização da Chesf era criticada por políticos da região e a decisão de mantê-la estatal foi tomada em ano eleitoral.
Questionado se a decisão de não vender a Chesf significa mudança na política de privatizações do setor, o ministro José Jorge disse que "quem pensa muda".
No documento "Programa de Infra-Estrutura Hídrica do Nordeste", elaborado pelo Ministério de Minas e Energia e apresentado ontem aos governadores, as usinas mais importantes da Chesf são consideradas "estratégicas" por estarem localizadas no rio São Francisco, "único manancial de água doce disponível na região".
Ainda de acordo com o texto, a água do São Francisco envolve outros fins que não produção de energia -irrigação e abastecimento, por exemplo- e que sua "importância para o desenvolvimento da região é fundamental".
Divisão
A Chesf será dividida em três empresas. Uma se chamará Companhia de Energia e Desenvolvimento Hídrico do Nordeste. Ela terá dez usinas e, além de gerar energia, cuidaria das políticas públicas na área do São Francisco. Essa empresa será controlada pelo governo, sem minoritários.
Haverá outra empresa de geração, que administrará só a hidrelétrica de Xingó. Essa empresa poderá ou não ter parte de seu controle vendido em Bolsa, de forma pulverizada, mas o Estado mantém o controle. A terceira empresa será estatal e cuidará da transmissão de energia.
Segundo o presidente do BNDES, Eleazar de Carvalho, haverá compensação para os acionistas minoritários da Eletrobrás quando a estatal deixar de controlar a Chesf. Ainda não está definido como isso será feito, mas poderá haver permuta de ações.
Até 31 de maio, todas as geradoras estatais estarão divididas em empresas de transmissão e geração de energia. Não haverá privatização de Furnas ou Eletronorte neste ano, mas 30% das ações de Furnas poderão ser vendidas em Bolsa de Valores, de forma pulverizada. Essas ações poderão ser compradas com recursos do FGTS (modelo igual ao da venda de ações da Petrobras).
Racionamento pode terminar no fim de março
Medida valeria no Sudeste e Centro-Oeste; no Nordeste fim deve ser em maio
JOSÉ RAMOS e GERUSA MARQUES
BRASÍLIA – O racionamento de energia poderá terminar até o fim de março nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, caso se confirmem as projeções mais otimistas dos técnicos do governo. No Nordeste, área mais afetada, a possibilidade é de que o fim do racionamento ocorra em maio.
Essa perspectiva pode se confirmar com o grande volume de chuvas dos últimos dias, que vem enchendo com mais rapidez os reservatórios das usinas hidrelétricas do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Os membros da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), contudo, ainda preferem não fazer previsão sobre o tema. A norma é esperar pelo menos fevereiro, quando o comportamento das chuvas poderá ser avaliado melhor.
No Sudeste e Centro-Oeste o nível de água dos lagos já ultrapassou os limites mínimos previstos pelo governo para fevereiro e março. Dados do ONS mostram que, na segunda-feira, as barragens das hidrelétricas nas duas regiões alcançaram 35,96% de sua capacidade. A expectativa mais pessimista da GCE era de que os reservatórios só chegariam a 35% em fevereiro, mantendo-se neste nível em março.
Projeções de ontem da Câmara indicavam que a demanda normal no Nordeste pode ser atendida caso seus reservatórios atinjam 34% da capacidade máxima em 30 de abril. Na segunda-feira, os reservatórios da região alcançaram 20,2% da capacidade e existe a possibilidade de o nível chegar a 34,9% no fim de janeiro. O racionamento de energia no Nordeste poderia, assim, ser suspenso a partir de maio, caso as chuvas continuem abundantes na região e não haja atraso na instalação das usinas térmicas que estão sendo implantadas. Em outra previsão extrema, a GCE prevê que sem a ajuda das térmicas os reservatórios precisariam atingir 48% de sua capacidade para atender ao mercado.
Segundo o ministro de Minas e Energia, José Jorge, as projeções foram feitas com base na pior hidrologia da história, ocorrida no ano passado. Mas ele lembra que os institutos meteorológicos estão prevendo chuvas superiores às de 2001. "Temos que trabalhar pelo menos com a água na calha do rio", disse.
Nas projeções do governo, a demanda do mercado por energia será atendida com uma oferta de apenas 93% da disponível antes do racionamento. Os técnicos acreditam que 7% de economia foi obtida mediante medidas de racionalização no uso da eletricidade, tornando-se um ganho definitivo.
Além das recentes chuvas, a economia tem contribuído para aumentar o nível dos reservatórios. Segundo o ONS, foram gastos no Sudeste e no Centro-Oeste, de 1º a 7 de janeiro, 20.579 MW médios, para uma meta de consumo de energia de 23.500 MW médios. A economia acumulada do mês foi de 12,43% acima da meta. (AE)