A notícia da direita evidencia o outro problema do sistema de mercado em países de base hidráulica, o excesso de energia. Se realmente isso acontecer, (o que, diga-se de passagem, não é bom, pois significa um desperdício de recursos em um país com graves problemas sociais), duvidamos que a queda de preços compense a formidável explosão de preços dos anos FHC. Além disso é bom não esquecer que parte desses investimentos vêm apenas repôr com atraso, uma capacidade de geração e transmissão que terminou por levar o país ao racionamento.
A reportagem da revista Época errou ao atribuir o cálculo ao ILUMINA. Não somos tão ingênuos em simplificar o problema tal como está colocado no texto.
Liberalização do setor começa em 2003 (Estadão 25/02)
O próprio governo admite aumento real de quase 30% nas tarifas
RIO – O setor de energia elétrica é um dos últimos com preços tabelados pelo governo, após a liberação deste ano para os derivados de petróleo. Essa realidade começará a mudar em 2003, quando uma parcela da energia das grandes geradoras federais (25%) começará a ser comercializada por meio de leilões. A previsão do governo é fazer os primeiros leilões já no segundo semestre deste ano, ampliando a parcela liberada para 50% em 2004, 75% em 2005 e 100% em 2006. Junto com a liberação virão os aumentos, que induzirá os consumidores, especialmente os de grande porte, a buscar alternativas. O próprio governo admite aumento real (além da inflação) de quase 30% nas tarifas.
Uma opção é o sistema de co-geração, que começa a ser adotado por algumas empresas. O diretor da Co-gerar, uma das mais ativas nesse mercado, Jacques Haratz, garante que as grandes indústrias e os grandes empreendimentos comerciais pagarão bem menos se adotarem sistemas de co-geração ao invés de se ligarem ao sistema elétrico tradicional. "A economia pode chegar a 45% no consumo de energia", garante. Ele observa, porém, que esse sistema só é válido para indústrias que combinem o uso de energias elétrica e térmica, para permitir um sistema combinado. Os empreendimentos comerciais só tornam viável a co-geração quando são de grande porte, ou seja, acima de 25 mil metros quadrados de área de carpete, na definição de Haratz.
A liberação do mercado vai demandar vários tipos de profissionais, inclusive meteorologistas. Cerca de 80% da energia elétrica brasileira vêm dos rios e prever o regime pluviométrico passa a ser uma aspecto chave para antecipar as tendências dos preços da energia. Outro negócio que deverá crescer será a comercialização de energia, inclusive no mercado futuro. O governo quer padronizar os direitos sobre energia para facilitar as negociações no mercado futuro. Em período de "emagrecimento" das bolsas de valores, pode ser uma excelente opção para os técnicos com experiência em comprar e vender ativos financeiros.
Mas se as mudanças no setor trazem incertezas entre os agentes econômicos, um grupo de empresas pode se considerar vitorioso. São os 23 consórcios que venceram a licitação para fornecer energia emergencial ao governo por meio da Comercializadora Brasileira de Energia Emergencial (CBEE), estatal criada pelo governo para a compra dessa energia. Essas empresas montaram estruturas para fornecer até 2.153 MW de energia usando geradores movidos a óleo diesel, óleo combustível ou biomassa, a preços extremamente generosos. O MW acertado foi em torno de R$ 70,00 apenas para tornar disponível a capacidade. Se houver oferta firme, a tarifa média chegará a R$ 288,00 o MW.
O volume de recursos envolvidos é expressivo: R$ 1,4 bilhão por ano. (A.B.)
Ajudado por uma estação de chuvas copiosas, o governo anuncia o fim do racionamento
Givaldo Barbosa/Ag. O Globo
A partir desta sexta-feira, 1o de março, os brasileiros estarão livres do racionamento de eletricidade. Ao anunciar a decisão, na semana passada, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez questão de dizer que se tratava de uma resolução técnica, e não eleitoreira. Graças a um relatório divulgado pelo governo, pôde-se saber que o fim do corte compulsório do consumo de energia se deve quase exclusivamente às chuvas copiosas dos primeiros 50 dias de 2002. Perto dessa ajuda da natureza, foi praticamente desprezível a contribuição do racionamento que mobilizou a sociedade por nove meses. Menos relevantes ainda foram as obras de ampliação da capacidade de produção de energia concluídas pelas estatais e empresas privadas em 2001.
O papel das chuvas, expresso pela energia natural afluente, uma medida acompanhada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mostra que até 20 de fevereiro deste ano as hidrelétricas do país acumularam um ganho de 48 mil megawatts médios, em relação ao mesmo período de 2001. O esforço de desligar aparelhos e lâmpadas nas residências e empresas gerou uma economia de 3 mil megawatts médios. Os investimentos em geração de energia devem ajudar menos ainda o país. Considerando o grau de produtividade de novas hidrelétricas e termelétricas, serão modestos 2 mil megawatts médios. "Poderemos pagar um custo muito alto a partir de 2003", diz o diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina), Roberto Pereira D’Araújo. "Basta o consumo aumentar acima das previsões e o volume de chuvas cair."
Presente do céu
Contribuição para o fim do racionamento em megawatts médios
Governo: 2 mil
População: 3 mil
Chuvas: 48 mil
Fonte: Cálculo do Ilumina, com base em dados do ONS e da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica
Brasil pode passar a ter excesso de energia (Estadão 25/02)
País se transforma em um dos maiores parques geradores do mundo e cresce 40% até 2004
ALAOR BARBOSA
RIO – O Brasil poderá sair da situação de racionamento para excesso de energia elétrica já a partir de 2003 por causa da conjugação de vários fatores. As chuvas que deixaram de cair em 2001 estão sendo generosas este ano e 2002 poderá ser um dos cinco anos mais "molhados" no período de 70 anos de registro do regime pluviométrico brasileiro. O mês de janeiro deste ano só perdeu para as chuvas de 1963 e de 1940 e fevereiro mantém um ritmo excelente em relação à média histórica.
Outro ponto favorável é que as chuvas estão caindo no "lugar certo", ou seja, nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde estão os maiores reservatórios, conforme acompanhamento do Operador Nacional do Sistema (ONS), que administra a oferta do sistema elétrico brasileiro. O ano de 2001 foi o 11.º pior ano da história, ficando 21% abaixo da média, e as chuvas se concentraram no Sul e no Norte, onde os reservatórios são menores.
Outro aspecto que está transformando o quadro de escassez em um regime de abundância resulta dos pesados investimentos que estão sendo realizados em energia, especialmente pelo setor privado. A previsão do Ministério das Minas e Energia é que o País investirá R$ 43,4 bilhões no setor entre 2001 e 2004, dos quais 78,5% pelo setor privado.
O diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e coordenador do Comitê de Revitalização do Setor Elétrico, Octávio Castelo Branco, garante que o banco financia qualquer projeto viável no setor. Com isso, a capacidade de geração atingirá 103,7 mil MW em 2004, o que consolida o Brasil como um dos maiores parques geradores do mundo, com expansão de quase 40% em relação aos 75 mil MW do final de 2001.
Pelos dados da Eletrobrás, o País já tem a quinta maior capacidade de geração do mundo, só perdendo para Estados Unidos (900 mil MW), Alemanha (115 mil MW), França (110 mil MW) e Inglaterra (75 mil MW). Em termos per capita, porém, o país consome cerca de 2.000 KWh por ano, enquanto os norte-americanos consomem 12 mil KWh e a média dos países ricos da Europa está em torno de 6.000 KWh/ano, o que sinaliza que ainda há grande espaço para crescimento.
A expansão acelerada ocorre em período de forte queda da demanda. Na avaliação dos especialistas do setor elétrico, parte da economia gerada em 2001 será "permanente", ou seja, não voltará mais.
Este ano, a demanda máxima de "carga" do sistema elétrico – indicador que afere o pico de consumo e é um dos principais itens acompanhados pelo sistema – atingiu 46 mil MW. O recorde do País ocorreu em 19 de abril de 2001, quando atingiu 55.845 MW. Ou seja, há um hiato entre o pico deste ano, e o recorde histórico, de quase 10 mil MW.
A Região Sudeste/Centro-oeste deverá operar com carga média de 26 mil MW este ano, praticamente o mesmo nível do ano passado, subindo para 27,3 mil MW médios em 2003, com aumento de apenas 5%, conforme as projeções apresentadas pelo ONS na reunião do último dia 19, quando foi anunciado o fim do racionamento.
O afastamento do risco de racionamento não significa o fim dos problemas de um dos setores mais complexos e relevantes da economia nacional. Um dos efeitos colaterais é a indefinição sobre as usinas termoelétricas a gás natural, que eram apontadas como "solução" no período de racionamento e passam a ser encaradas como "problema" (ver entrevista nesta página).
Tarifas – Outro ponto delicado é o início do processo de liberação das tarifas do setor, um dos últimos segmentos da economia nacional com preços tabelados, que deverá ser conjugado às operações das usinas térmicas.
Essas usinas têm um custo de geração muito superior aos estimados para as grandes hidroelétricas nacionais, e o Plano Prioritário de Termoelétricas (PPT), lançados há exatos dois anos (em 24 de fevereiro de 2000), prevê a construção de 38 unidades, com 14 mil MW de capacidade. Para tornarem viáveis as térmicas a gás natural, o governo terá de fazer dois movimentos: elevar os custos das grandes geradoras hidroelétricas e buscar forma de reduzir o custo das térmicas à gás.
Para o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Adilson de Oliveira, esses movimentos podem ser mais complexos do que imaginam os técnicos oficiais. Ele observa que a ampliação do uso do gás natural na matriz energética brasileira tem de superar problemas técnicos e políticos.
A questão técnica é que o Brasil dispõe de reservas hídricas invejáveis, o que torna a geração elétrica a partir da água quase que imbatível, "se o sistema for gerenciado de forma adequada". Outro aspecto é político. Os investidores em energia a gás natural são totalmente diferentes dos que investem em hidrelétricas e ele considera que há uma disputa ostensiva dos dois grupos o que, muitas vezes, impede a busca de uma solução que atenda a todos os interesses. (AE)