O DIA 25/26.12.97
Curto-circuito na paciência do carioca Calor explode o consumo de energia, 120 transformadores são danificados e provoca fúria do consumidor contra Light
Luarlindo Ernesto, Maiá Menezes e Ricardo França
Irritação às escuras. A Light atingiu terça-feira, às 23h, depois de 94 anos de existência e com um ano e sete meses de privatizada, recorde de transmissão de energia: 4.300 megawatts. A sobrecarga ö causada, segundo a empresa, pelo aumento no uso de eletrodomésticos por conta do calor ö fez com que 120 transformadores parassem de funcionar. Sem poder usar ar-condicionado nem ventilador ao fim do segundo dia mais quente do ano, moradores ficaram revoltados.
Em Rocha Miranda, de madrugada, carro da Light foi atacado a tiros. No Méier, equipe precisou de escolta policial para trabalhar. Na Ilha do Governador, mais uma vez, carro da empresa foi seqüestrado. Os outros 29 municípios abastecidos pela Light sofreram com problemas semelhantes. O recorde de ontem equivale ao consumo de 2,8 milhões de aparelhos de ar-condicionado ligados ao mesmo tempo, durante 24 horas. Muitos perderam a ceia de Natal, outros não conseguiram suportar o calor, que chegou a mais de 41 graus durante o dia. ãFui dormir no terraçoä, reclamou a jornalista paulista Vânia Conceição Souza, 32 anos, que veio ao Rio passar o Natal com a mãe, em Rocha Miranda.
De acordo com o assessor da Light Alexandre Coimbra, o grande número de aparelhos de ar-condicionado ligados por causa do forte calor, as geladeiras lotadas para a ceia de Natal e as luzes das árvores de Natal formaram a equação que detonou a falta de luz. ãOs nossos transformadores têm em média cinco anos. Foram projetados para atender a uma demanda de energia bem menor do que a atualä, explica.
Alexandre pediu aos moradores que avisem à Light quando comprarem aparelhos elétricos, para que aumente a potência dos transformadores. O telefone 196, que tinha, segundo a assessoria, 16 funcionários de plantão ontem, não atendeu à demanda de reclamações. O último recorde de transmissão foi em fevereiro, com 4.200 megawatts.
Um festival de fios desencapados
A falta de energia elétrica inaugurou uma nova modalidade de forçar a Light a apressar o atendimento ö um jeitinho que, pelo Código Penal, pode ser qualificado como crime de constrangimento. O usuário impede a saída das equipes de emergência ö chamadas para religar os transformadores que não agüentam as sobrecargas ö até que a empresa concessionária solucione o problema de falta de energia.
Na Estrada da Bica e na Rua Alasca, no Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, a interrupção de energia motivou o protesto de centenas de pessoas. Nervosos e calorentos ö sem ventiladores nem ar-condicionado, além de estragos em geladeiras, aparelhos de TV e vídeo e máquinas de lavar ö, moradores do prédio 400 da Estrada da Bica esconderam a chave de ignição do carro da equipe de emergência. ãVão religar o transformador e daqui a meia hora, como de costume, estaremos sem energiaä, contou um morador que não quis dar o nome.
Com o jogo de esconde-esconde, as negociações começaram. Diante do impasse, a Light mandou aumentar a carga ö com outro transformador. A chave de ignição do carro da equipe de emergência foi devolvida. Apesar da normalização do serviço, o prejuízo não podia mais ser evitado. Somente em um prédio, o síndico Antônio Carlos Souza contou sete aparelhos elétricos queimados.
Na Rua dos Rubis, em Rocha Miranda, um grupo de homens atacou a tiros carro da empresa, que levava equipe para consertar defeito em transformador. Os funcionários acionaram o 9º BPM (Rocha Miranda), mas os autores dos disparos não foram encontrados. ãNão dá para dizer que esses fatos têm relação com a falta de luzä, afirmou o assessor da Light Alexandre Coimbra.
Funcionários da empresa também tiveram problemas com moradores revoltados nas ruas José dos Reis e Magalhães Couto, no Méier. A Light pediu escolta do 3º BPM (Méier) para garantir a segurança de seus técnicos de manutenção.
Só se salvou o panetone Morador de Piedade sem luz desde segunda perdeu toda a ceia de Natal, que estragou na geladeira
A ceia de Natal do jornalista Helio Ferreira Marques e de sua mulher, Terezinha Grilo, moradores da Piedade, só vai ter panetone. Ontem, ele conseguiu comprar gelo em cubo e um compartimento de isopor para gelar refrigerantes, cervejas e o champanhe. Comida, do leite até o tradicional peru, tudo estragou na geladeira e freezer, desligados desde a noite de segunda feira. Hélio vai acionar a Light e, para isso, guardou as notas de compras de tudo o que estragou. ãO calor, em todos os sentidos, não sei como vou refrescarä, ironizou.
O comerciante Eduardo Antônio Machado Grijó, proprietário da Panificação Ágape, na esquina das ruas Xisto Bahia e Antônio Vargas, vizinho de Hélio, amargou um prejuízo maior. Desde terça feira, não consegue fabricar e vender pão. Perdeu sorvetes, derivados de leite, frios.
No bairro da Piedade, o clima é de indignação. ÎÎQuando procuramos a Light, nos davam informações desencontradas. Chegaram até a nos oferecer uma vara para que religássemos o transformador que fica na Rua Xisto Bahiaä, reclamou Hélio. ãEstão mudando o transformador agora. Mas não acredito que o problema vá ser solucionado. Acho melhor comprar aparelhos movidos a pilhas, ou a gás, ou a vapor – aproveitando o calor ou a energia solarä, desabafou.
Consumidor pode processar
Se um aparelho quebrou ou a comida estragou na geladeira por causa da falta de luz ou de uma sobrecarga quando a energia voltou, o consumidor pode pedir indenização à Light. De acordo com o artigo 22 do Código de Defesa do Consumidor, as concessionárias de serviços públicos essenciais ö como luz, água e gás ö devem oferecer serviços adequados e contínuos, ou seja, sem nenhuma interrupção. ãE se o consumidor sofrer algum dano, ele pode e deve exigir indenizaçãoä, explica o advogado Jorge Beja.
O advogado esclarece que os danos vão desde alimentos estragados e eletrodomésticos quebrados a casos de morte de pessoas hospitalizadas, como as que precisam de hemodiálise. O consumidor lesado deve, primeiro, provar a relação entre seu prejuízo e a falta de energia, através de testemunhas ou de laudos técnicos. Depois, pode tentar um acordo diretamente com a Light, por meio de seus postos regionais. Segundo a Assessoria de Comunicação da empresa, existem casos em que a concessionária indeniza diretamente o consumidor.
Mas, se não houver acordo, pode-se entrar na justiça. Se o prejuízo for de até 40 salários mínimos (R$ 4.800), o consumidor deve procurar os Juizados Especiais de Pequenas Causas, levando o orçamento do conserto ou prejuízo e apresentando testemunhas para dar entrada no processo. Se o prejuízo for maior, deve-se procurar uma das varas cíveis do Fórum.
Nove bairros foram afetados
A pane de ontem atingiu nove bairros da cidade (Copacabana, Ipanema, Jacarepaguá, Irajá, Vila Valqueire, Méier, Lins, Todos os Santos e Ilha do Governador). ãColocamos toda a nossa equipe na rua, mas não podemos garantir que não faltará energia em outros bairros, nem nos que já foram atingidosä, disse a assessora de comunicação da Light, Ilma Maria Soares. O telefone 196, de atendimento ao consumidor, recebeu 126 ligações. A Light informou que nenhum bairro chegou a sofrer a sobrecarga verificada em Copacabana no último fim de semana, quando 21 ruas do bairro ficaram sem luz durante a final do Campeonato Brasileiro
Privatização
Gabriel Oliven
No princípio, eram as trevas. Depois, vieram os apagões. Os serviços da Light começaram a piorar quando o consórcio multinacional que administra a empresa decidiu fazer um blecaute interno. De um total de 11.500 funcionários, sobraram pouco menos de sete mil depois da privatização. A grande maioria dos demitidos (62%) saiu dos quadros operacionais da empresa. Eram técnicos responsáveis por serviços de manutenção e consertos, a maioria com 10 anos de casa ou mais. Hoje, a empresa não tem pessoal para atender a tantos pedidos. À noite, cada posto de atendimento só funciona com uma dupla. Em dias de chuva, é o caos. Resultado: a Light é um das campeãs de reclamações no Procon: em 1995, foram 102 queixas. No ano seguinte, quando a empresa foi privatizada, o número triplicou. Este ano, são quase 500 reclamações.
Sem energia
ãDormi rodeada de mosquitos, porque não podia ligar os ventiladores. Ontem (terça-feira) e hoje (ontem), a luz ia e voltava toda hora. Aqui perto da minha casa tem um poste da Light que costuma pegar fogo. O pior é que ele fica em frente a um depósito de gás. Está assim desde o ano passado. A minha ceia está estragando na geladeira. A gente compra e estraga. O pior é que a gente chama os técnicos, eles dizem que vão resolver e não aparecemä,Jurema de Souza, 34 anos, auxiliar de faturamento, moradora da Estrada dos Bandeirantes, em Jacarepaguá.
ãEu vim de São Paulo para passar o Natal com a minha mãe e pretendia ficar até o Ano Novo. Mas com essa falta de luz, esse calor insuportável do Rio e a falta de ventiladores, não sei se vou agüentar. Estou desde sexta-feira aqui e já vi os vizinhos subindo para consertar a caixa de força várias vezes. Tem faltado luz desde então e hoje (ontem) foi pior. Os eletrodomésticos estão pifando. Aqui também está faltando águaä, Vânia Conceição de Souza, 32 anos, moradora de São Paulo, está passando temporada em Rocha Miranda.
ãMoro no terceiro andar e tive que subir grudada na parede. Eram 3h da manhã e eu vinha de uma festa. Não tinha vela nem nada. Tive que tirar o sapato alto e me guiar pelo tato. Ninguém conseguiu dormir aqui em casa, por causa da falta de ar-condicionado. Todas as ruas aqui perto estavam escuras de madrugadaä, Aglaia Tavares, 26 anos, jornalista, moradora da Rua Vilela Tavares, no Méier.
26.12.97
O jeito é ir reclamar na França
Dossiê prevendo o colapso de energia foi levado à Eletricité de France, que botou a culpa nos Îgatosâ
Os transtornos que os consumidores estão enfrentando por causa da falta de energia já tinham sido previstos. O Sindicato dos Urbanitários do Rio chegou a preparar dossiê alertando o governo para a possibilidade de que o problema viesse a ocorrer se a empresa fosse privatizada, já que os novos controladores poderiam optar por demissão em massa, o que prejudicaria o atendimento. Dos 11.300 funcionários, 4.500 foram demitidos ou receberam incentivo à aposentadoria. Segundo a diretora de Administração do sindicato, Sônia Latge, a Light hoje apela para empreiteiras com mão-de-obra sem capacitação e salários mais baixos.
O documento foi enviado até para o vice-presidente Marco Maciel, mas nenhuma providência foi tomada. Em outubro deste ano, o sindicato foi à França e mostrou o dossiê para a diretoria internacional da Eletricité de France (EDF), que controla a Light, mas a situação continuou a mesma. Os diretores, segundo Sônia, se revelaram mais preocupados com a perda de energia através de ligações clandestinas, os chamados ãgatosä.
Para medir a eficiência do fornecimento são utilizados dois índices: um apura a duração da interrupção de energia, que é o tempo em que o consumidor fica sem luz em casa. O outro mede a freqüência de interrupção, ou seja, quantas vezes o consumidor ficou sem luz. Sônia explica que ambos aumentaram depois da privatização, em maio de 1996.
ãComo investimentos na área de energia só podem ser sentidos a longo prazo, a Light precisa manter pessoal de qualidade para controlar a situaçãoä, criticou.
Ceia às escuras no Alto da Boa Vista
Se já tinha dado curto-circuito na paciência do carioca no dia 23, o sistema foi para o brejo de vez na noite de Natal. Cerca de 40 famílias que moram na Rua Raimundo de Castro Maia, no Alto da Boa Vista, fizeram ceia às escuras. Potes de salada de frutas, maionese e bacalhau foram parar no lixo e aparelhos de ar-condicionado pifaram depois de três estouros no transformador que fica na esquina com a Avenida Édson Passos. A Light foi chamada e três equipes diferentes estiveram no local entre 1h e 10h de ontem. ãE a única coisa que conseguiram foi passar a batata quente adianteä, reclamou, furiosa, Rachel Murta, moradora da rua há 20 anos.
As funcionárias da Light identificadas como Olívia e Daniele informaram às 10h45 que a empresa não tinha previsão de término do conserto. Sinal de que o sofrimento e o desespero das famílias estavam só começando. ãMeu medo é de que a água da caixa acabe e nós não possamos ligar a bomba da cisternaä, disse, revoltada, Adair Freitas Pinho, 62 anos, que está hospedando 20 convidados e tem apenas comida estragada na geladeira.
Segundo os moradores, a primeira explosão aconteceu por volta de uma da madrugada. A Light foi acionada, esteve no local e constatou que o aparelho deveria ser trocado ö o que demandava a presença de outra equipe. Outras duas estiveram no local, mas nenhuma resolveu o problema. Resultado: Rachel Murta teve de ir até o Itanhangá comprar sacos de gelo para salvar bebidas e a ceia preparada para 20 parentes. ãAntes, a desculpa era a Light ser uma estatal. E agora, que foi privatizada, de quem é a culpa?ä, questionou a dentista Vera Furtado de Mendonça, 66 anos.
Copyright Editora O DIA S/A 1996.