ELIO GASPARI
FFHH deve suspender a coleta do Alvorada
FFHH deve suspender a coleta de fundos para a sua ONG, o Instituto Fernando Henrique Cardoso. Deve-se ao doutor Cardoso a fundação de uma das instituições que mais influenciaram o pensamento político brasileiro. Foi o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, em 1969. Agrupava professores expulsos da USP, teve a ajuda de empresários e o amparo da Fundação Ford. É uma linda história de sucesso. Não fica bem para o professor, hoje um presidente em fim de mandato, coletar fundos reunindo empresários para jantar no Palácio da Alvorada como fez na última segunda-feira.
Em 1969, tratava-se de financiar uma instituição de intelectuais proscritos. Pelo menos um banqueiro fez sua doação depois de obter um "nihil obstat" do poderoso ministro Antonio Delfim Netto, da Fazenda.
Agora a situação é outra. O presidente da República reuniu 12 empresários. Lá estavam Emílio Odebrecht, Benjamin Steinbruch (CSN), Pedro Piva (Klabin), e David Feffer (Suzano). Todos quatro comandam grandes empresas financiadas pelo BNDES. A Klabin está com um empréstimo de R$ 450 milhões pronto para sair do forno. Os três primeiros, além de terem recebido financiamentos do velho e bom banco, renegociam parte de seus débitos. Juntos compõem uma carteira de pelo menos R$ 2 bilhões. À mesa estava também o banqueiro Lázaro Brandão (Bradesco), que emprestou algum a todos os demais e tem um justo interesse em receber o seu de volta.
Com exceção da Klabin, os outros quatro compraram parte do patrimônio da Viúva durante a grande liquidação tucana. Em alguns casos compraram empresas pequenas, em outros, gigantes, como a Vale do Rio Doce, que ficou com Steinbruch (R$ 391 milhões no BNDES) e hoje está com o Bradesco. O empresário Jorge Gerdau, que estava no jantar comprou umas poucas coisas. Numa demonstração de que o país vive bons tempos, tanto ele como Steinbruch, estavam na quinta-feira numa reunião com Lula. Nela, o Bradesco tinha outro representante.
Como na gerência de quermesses, cada um ficou com a tarefa de conseguir interessados em subscrever cotas da ONG do futuro ex-presidente. FFHH deve suspender essa arrecadação porque não tendo feito em oito anos de mandato nenhuma loucura presidencial, não tem porque fazê-la agora. Bill Clinton, por exemplo, alugava quartos na Casa Branca em troca de doações ao partido Democrata. Ronald Reagan teve uma vaquinha de empresários e ganhou uma casa de presente.
Pode-se argumentar que FFHH tem a virtude de arrecadar recursos às claras. Verdade. Pode-se também dizer segue a norma de presidentes americanos que aceitaram doações de empresários para organizar suas bibliotecas e centros de estudo. Falso, por duas razões. Os presidentes americanos não ficam na política, como FFHH já mostrou que vai ficar. Ademais, e aí é que a porca torce o rabo, nos Estados Unidos não há BNDES. Falta à boa cultura capitalista americana a a figura do grande empresário com dívida e/ou rolagem no banco estatal.
São muitas as dificuldades dos empresários nacionais, sobretudo daqueles que, como os Klabin, Suzano e Steinbruch, produzem mercadorias. É justo, racional e necessário que uma economia como a brasileira tenha um banco de desenvolvimento como o BNDES. O que não faz sentido é que o BNDES empreste dinheiro para depois rolá-lo, muito menos que empreste à mesma empresa a cada cinco anos. É absurdo que um empresário seja financiado pelo BNDES num guichê e, noutro, ponha dinheiro na ONG do presidente. Poderiam botar o mesmo ervanário num fundo de amparo aos trabalhadores que desempregaram por conta da polítikekonômika dos últimos oito anos. Pode-se estimar que, desde 1995, os convidados da mesa do Alvorada tenham fechado pelo menos 10 mil postos de trabalho.