Globo 5/5/99 Um desempregado muito especial ELIO GASPARI Faltou pouco para que o ex-deputado Luís Carlos Santos fosse nomeado presidente da Centrais Elétricas de Furnas. Talvez o mais certo seja dizer que falta po …


Globo 5/5/99


Um desempregado muito especial


ELIO GASPARI


Faltou pouco para que o ex-deputado Luís Carlos Santos fosse nomeado presidente da Centrais Elétricas de Furnas. Talvez o mais certo seja dizer que falta pouco para que não seja. Na semana passada ele chegou a dormir com a segurança da indicação. Ex-ministro da Articulação Política de FFH, ele ajudou a formar a bancada que permitiu a aprovação da emenda constitucional da reeleição. O presidente da República considera-o homem capaz de "dar nó em

fumaça". Em 1994, elegeu-se deputado com a terceira campanha mais cara da Câmara. Algo em torno de US 500 mil, com cerca de 300 mil vindos de empreiteiras.


Saudando-o, FHH, disse: "Político que tem convicção, político que se respeita, não pode simplesmente olhar para o momentâneo. Ele tem que ver qual é o objetivo, ele tem que saber distinguir entre o aplauso fácil e a consagração que vem com calma, pela História."


O ex-deputado tem o seu nome inscrito no livro de ouro da administração Orestes Quércia no Governo de São Paulo (1986-90). A lembrança do zelo com que se perseguiu a diligência naquele governo ainda está gravado na memória dos paulistas. Superando-se, Santos colaborou decisivamente para a eleição do inigualável Celso Pitta para a Prefeitura de São Paulo. No ano passado, foi candidato a vice-governador na chapa de Paulo Maluf. Era ele quem estava ao lado de FFH e do doutor Paulo no famoso cartaz de propaganda espalhado pelo estado. (Tratava-se de uma montagem gráfica, mas não de uma falsidade política.) Foi do PMDB, passou-se ao PFL e lá está ainda hoje. Foi às urnas, perdeu e desempregou-se. Sua nomeação para a presidência de Furnas esteve apalavrada, mas uma bomba de carbono mandada pelo governador Mário Covas parece tê-la descarrilhado. Furnas é a empresa responsável pelo fornecimento de 35% da energia consumida no país. O Governo pretende privatizá-la ainda neste ano e chegou-se a calcular que valha algo em torno de US 7 bilhões.

Seja qual for o destino da candidatura do ex-deputado, ficam algumas perguntas: Quais são as suas credenciais para presidir uma empresa de energia elétrica? E para privatizá-la? Noves fora seu talento para privatizar, suas relações com a energia elétrica ultrapassam de pouco a capacidade de distinguir uma tomada de um interruptor. Um Governo que passou anos atribuindo o desemprego à falta de qualificação dos trabalhadores brasileiros, deveria ter um compromisso elementar com a nomeação de técnicos capazes para as estatais. Poderia descer um degrau, nomeando técnicos incapazes (a turma que empulhou a choldra com a história do raio que teria provocado o apagão de março, por exemplo).


Nomear políticos derrotados nas urnas é uma bofetada nos eleitores. Nomeá-los para empresas prestadoras de serviços públicos é um exercício vulgar de fisiologismo, corrosivo histórico das estatais brasileiras. FHH acredita que há no Brasil muitos vagabundos que se aposentaram cedo e uma certa mania de se parar de trabalhar na flor da idade. O caso do doutor Luís Carlos seria um exemplo de vitalidade. Aos 66 anos, quer emprego. É justo, mas todos os outros 1,7 milhão de desempregados que a ekipekonômica produziu na Grande São Paulo gostariam de ter uma chance de trabalhar em Furnas. Não querem a presidência. Porteiro serve. A maioria desses desocupados exerceu o seu direito de voto e, com ele, deixaram o doutor Luís Carlos sem emprego. Foi um ato consciente. Deram os empregos de governador e vice-governador de São Paulo a Mário Covas e Geraldo Alckmin. Sabiam que lançariam Paulo Maluf e Luís Carlos Santos às estatísticas do desemprego e fizeram isso com alguma satisfação.

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