Basta ler Veríssimo e Gaspari. O ILUMINA não poderia acrescentar nada . Globo 09/02 – Elio Gaspari A privataria quer se internar no cofre AEletropaulo deixou de pagar uma conta de US$ 85 milhões ao BNDES e agora quer …

Basta ler Veríssimo e Gaspari. O ILUMINA não poderia acrescentar nada .


Globo 09/02 – Elio Gaspari


A privataria quer se internar no cofre


AEletropaulo deixou de pagar uma conta de US$ 85 milhões ao BNDES e agora quer que a velha e boa casa de penhores do Largo da Carioca hospitalize sua dívida de US$ 1,1 bilhão. A concessionária de energia de São Paulo pertence à empresa americana AES. Acompanhando-se esse calote, pensa-se que essas empresas precisam da Viúva para preservar suas atividades produtivas. Lorota. Quando o BNDES socorre empresas endividadas que não honram seus compromissos financeiros, o dinheiro da Senhora é usado para ajudar bancos privados a se livrar de maus empréstimos. Trata-se de uma centralização dos micos no BNDES, permitindo que os banqueiros se livrem dos maus papéis de suas carteiras.


Nos Estados Unidos, sede da AES e pátria do dinamismo capitalista, não tem BNDES. Lá, em 2002 os bancos tomaram um calote de mais de US$ 500 bilhões, com dívidas de empresas (US$ 23 bilhões só com a Worldcom, a da Embratel). Estima-se que nos próximos nove meses miquem com mais US$ 400 bilhões. É coisa de quase US$ 1 trilhão, muito mais do que o PIB brasileiro.


Não passa pela cabeça de empresa americana pedir socorro ao governo para escapar de dívidas. Os bancos que afrouxaram seus critérios, tomaram riscos exagerados ou mesmo tiveram pouca sorte tomam cano. Pelos sadios costumes americanos, no ano passado a Bell South não pagou uma dívida de US$ 375 milhões de sua subsidiária brasileira, concessionária de celulares em São Paulo.


As pessoas que consumiram os oito anos do tucanato reclamando do modelo incompetente e predatório de privatização das empresas elétricas e das ferrovias devem se preparar para o segundo ato da lambança. Quando a AES, a Light e diversas ferrovias ameaçam devolver suas concessões ao governo abrem um processo de intimidação política. Colocam a reestatização como um perigo maior do que o socorro financeiro. É sempre bom lembrar que nos anos 80 a Light foi estatizada a pedido de seus acionistas.


Quando uma concessionária encalacrada coloca a reestatização na mesa como forma de intimidação, a patuléia pode ter certeza: vai pagar mais caro pelas tarifas, receberá serviços de pior qualidade e seu dinheiro será usado para financiar gestões desastrosas e banqueiros incompetentes.


Não é justo que o BNDES hospitalize empresários mal-sucedidos. Ele já foi usado, e mal, com a privataria do patrimônio da Viúva. Agora está sendo chamado para socorrer os privatas que se deram mal.


Globo 09/02 – Luis Fernando Veríssimo


Um punhado de sal


Antes da chegada dos ingleses, a Índia tinha todo o sal de que precisava nas planícies de Orissa e nos alagados de Gujarat. O sal existia em crostas no chão de Orissa e Gujarat, era abundante e barato e o seu comércio assegurara a sobrevivência dos nativos das duas regiões por milhares de anos, até a chegada dos ingleses. Os ingleses proibiram o comércio do sal de Orissa porque era muito barato e competia com o sal produzido em Cheshire, na Inglaterra. Para garantir que nenhum sal seria colhido em Orissa, determinaram que era crime colher sal em qualquer lugar da Índia. Houve fome na região de Bengala entre os nativos proibidos de explorar o sal sob os seus pés. A proibição durou anos. E foi numa praia de Gujarat, em 1930, que um homem chamado Gandhi desafiou a lei inglesa, dobrou o seu corpo frágil e buscou do chão um punhado de sal, iniciando um processo que acabaria 20 anos mais tarde com a independência da Índia. Um homem simplesmente se abaixou, pegou um pouco de sal, e mudou a História.


Nós do Corpo Auxiliar "Luma de Oliveira" (CALDO) do PT (não nos envolvemos mas colaboramos), preocupados com a alma do PT, concordamos que não existem muitas alusões aproveitáveis à situação brasileira no exemplo aí de cima. O jugo do capital financeiro nada tem a ver, longe de nós, com o colonialismo clássico, o FMI nada tem a ver com o raj inglês e suas imposições em favor dos interesses da Inglaterra e nem a imagem de um povo miserável impedido de compartilhar a riqueza sob os seus pés por regras vindas da matriz se adapta a nós, pelo menos não exatamente. E é claro que não imaginamos o Lula envolto num lençol desafiando o mercado e pregando a desobediência econômica em alguma praia em Brasília. Somos sonhadores, algo românticos, um pouco chatos, mas não loucos.


O que sentimos falta, isto sim, é de um gesto. Não um grande gesto rebelde mas um pequeno gesto inaugural. Alguém que tenha a singela coragem de apanhar um punhado de sal do chão e começar outra coisa, outra história, e uma que também acabe em independência de uma engrenagem infernal. Um sinal mínimo de que essa aparente faceirice em Brasília só porque o mercado (surpresa!) nos ama é disfarce, é astúcia. Porque sabemos que a boa vontade do capital internacional conosco, hoje, só denuncia a calhordice da crise criada artificialmente, ontem, para impedir a eleição do Lula, e do que esse bando é capaz. Porque sabemos que os ingleses agora são outros mas, fora isso, não mudaram muito.


Um punhado de sal. O CALDO não pede outra coisa. Alguém que se abaixe e pegue um punhado de sal. Depois estamos até dispostos a esperar 20 anos pelo resultado do gesto.


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