Estado de São Paulo 30/3/2001 Distribuidores vão propor racionalização Empresas só admitem falar em racionamento se o governo decretar oficialmente a situação PAULO CABRAL RIO – A Associa& …

Estado de São Paulo 30/3/2001

Distribuidores vão propor racionalização

Empresas só admitem falar em racionamento se o governo decretar oficialmente a situação


PAULO CABRAL


RIO – A Associação Brasileiras das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee) definiu ontem suas propostas – que serão enviadas à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) – para implementar a racionalização do uso do energia. A carta com as propostas pode ser entregue hoje.


O grupo já está planejando, na semana que vem, um encontro para discutir o que teria de ser feito em caso de racionamento, caso a situação energética do Brasil se agrave. Por enquanto, porém, a Abradee quer apenas falar em racionalização, até porque para poder discutir livremente o racionamento – sem correr o risco até de ser processada – é necessário que o governo decrete oficialmente a situação. O diretor-geral da Abradee, Luiz Carlos Guimarães, explicou que a entidade vai propor à Aneel o aumento dos recursos para os programas de conservação de energia. Atualmente, o setor recolhe 1% de seu faturamento – cerca de R$ 200 milhões por ano – para um fundo que divide este dinheiro igualmente entre pesquisas e programas de conservação.


"Nossa proposta é que todos esses recursos sejam direcionados para os programas de conservação enquanto o País está passando por dificuldades de energia", explicou Guimarães.


A Abradee também vai propor que, em caso de racionamento, a Aneel estabeleça as cotas com base no gasto histórico e não no consumo imediato. "O objetivo é evitar que as empresas sejam prejudicadas com a utilização, para o cálculo das cotas, de um consumo menor, induzido pela racionalização de energia", diz Guimarães.


Um agente do setor dá outra explicação para esta proposta. "Há empresas que já estão aumentanto agora o seu consumo de energia para, no caso de serem estabelecidas cotas, o cálculo ser feito com base em um pico de consumo", disse.


Guimarães garantiu ainda que as distribuidoras estão intensificando seus programas de redução de perdas. "Os investimentos em novas subestações e transformadores para aumentar a eficiência do sistema estão sendo antecipados", declarou.



Valor Econômico 30/3/2001

Plano de emergência inclui construção de duas térmicas

Fábia Prates, De Brasília


A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou ontem novas medidas para tentar amenizar a crise de energia que se anuncia no país neste ano por causa do baixo nível dos reservatórios. Uma delas foi a autorização para que a Petrobras se estabeleça como produtor independente para construir duas novas termelétricas movidas a gás que somam capacidade de 1.067 megawatts de geração.


Com as autorizações de ontem, sobe para 12 o número de empreendimentos dessa natureza – de um total de 16 em andamento – em que a estatal tem participação minoritária, mas decisiva. Por causa da possibilidade de o país vir a ter problemas de abastecimento neste ano, a empresa trabalha para antecipar para meados do ano oito desses empreendimentos, previstos inicialmente para dezembro.


As autorizações de ontem são para a construção da termelétrica de Canoas (RS) e de Três Lagoas (MS). A primeira tem capacidade para 601,8 MW e a segunda para 465,8 MW. A usina do Mato Grosso do Sul deve ser acelerada, segundo Delcídio Gomez, diretor de gás da estatal. As obras de terraplenagem já começaram. Todos os oito empreendimentos a serem antecipados estão no Sudeste e Centro-oeste, regiões que junto com o Nordeste enfrentam o problema de baixa dos reservatórios.


Outra medida para aumentar a oferta de energia foi a autorização para a EDS importar 1,2 mil megawatts de energia da Argentina. Desses, 400 MW, previstos para entrar em janeiro do próximo ano, devem ser antecipados para meados deste ano. A empresa vai utilizar a linha de corrente contínua de Itaipu para transportar a energia. O sistema de transmissão convencional não tem capacidade para agregar energia nova.


A energia, segundo José Mário Abdo, diretor-geral da Aneel, virá de uma usina da divisa da Argentina com o Paraguai. A importação está prevista no plano de emergência com medidas de racionalização que o governo prepara para tentar evitar racionamento.


Abdo anunciou a primeira leva das 18 hidrelétricas que serão licitadas neste ano para fortalecer o sistema. Hoje a empresa publica edital para construção de oito empreendimentos que somarão 2.272 MW. O leilão será no dia 28 de junho na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. As hidrelétricas que serão construídas no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás e Tocantins exigirão investimentos de R$ 3,5 bilhões.


O diretor-geral da Aneel recebeu ontem representantes das indústrias química, siderúrgica, de alumínio, de cloro, de ferro e dos grandes consumidores para discutir as medidas que serão tomadas para evitar racionamento.Foram mais de três horas de conversas da qual participou também o presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico, Mário Santos. Todos saíram do encontro otimistas e com discurso solidário.


A indústria está disposta a "cortar gorduras" a fim de evitar que o governo tenha de lançar mão de medidas mais radicais – racionamento – para enfrentar o problema do setor. "Existem caminhos para evitar opções piores", disse José Giannoti, presidente da Abrace, associação de grandes consumidores.


João Paulo Duarte de Oliveira, representante do conselho de consumidores no Mercado Atacadista de Energia (MAE), diz ser possível reduzir o consumo em 15% com ações voluntárias. Na reunião as entidades apresentaram sugestões e ficaram de encaminhar novas idéias até a próxima segunda-feira. O plano de racionalização será divulgado no final da próxima semana.


Mario Cileto, vice-presidente da Carbocloro afirmou que uma das alternativas é que as empresas antecipem para o período seco eventuais paradas programadas para o fim do ano. Segundo Abdo, a indústria de ferro-liga disse que é possível economizar 650 MW médios. Ele negou que haverá aumento de tarifas para forçar queda no consumo. Repetiu que a situação é delicada, mas que o governo ainda não estuda medidas de racionamento.


"O que assistimos hoje foi uma demonstração edificante. Cada um de nós terá que entrar no spa da racionalização", disse Mário Santos, do ONS. Segundo ele, o nível dos reservatórios está ainda pior. No Sudeste reduziram de 34,4% para 34,1%. No Nordeste, estão em 37,2%.


A situação hoje demanda chuvas 120% superior às médias histórias. quantidade na série histórica. O diretor-geral da Aneel afirmou que mesmo com a queda contínua do nível de água dos reservatórios, o nível de preocupação é o mesmo das semanas anteriores. A situação de ontem exigira aumento de geração ou redução do consumo de 12%. Para cada cinco pontos percentuais de queda nos reservatórios, é preciso aumentar a geração em quatro pontos percentuais.


Santos citou duas alternativas para aumentar a geração: aumentar a capacidade das usinas Ilha Solteira e Henry Borden, ambas em São Paulo. A primeira opção resultará em problemas na navegação do Tietê-Paraná. A segunda exigiria autorização ambiental. O governo federal já estaria negociando com o governo de São Paulo essas alternativas.



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