JORNAL DO BRASIL 26 de janeiro de 2003 INTEGRAÇÃO ENERGÉTICA NA AMÉRICA DO SUL Joaquim Francisco de Carvalho Em suas relações com os países vizinhos , o novo governo deveria , a meu ve …

JORNAL DO BRASIL


26 de janeiro de 2003


INTEGRAÇÃO ENERGÉTICA NA AMÉRICA DO SUL


Joaquim Francisco de Carvalho


Em suas relações com os países vizinhos , o novo governo deveria , a meu ver , tratar com especial interesse a questão energética , particularmente na área do Mercosul .


Naturalmente o Brasil , assim como cada país da América do Sul , deve estabelecer sua própria política energética , tendo como prioridade máxima otimizar , em benefício da população nacional , as fontes de energia disponíveis , cuja exploração seja econômica e ambientalmente viável . Só a partir disso é que se deve então estabelecer entendimentos bilaterais e formular políticas de integração regional , destinadas a tirar partido , em benefício de cada país , das vantagens complementares identificadas .


Além de extensas reservas de petróleo , carvão e gás natural , alguns dos países latino-americanos dispõem de importantes fontes renováveis de energia , tais como o potencial hidroelétrico e grandes extensões de terras adequadas para o plantio de culturas energéticas (cana de açúcar , florestas industriais, etc.) .


No tocante aos rios de fronteira , já estão construídos e operando , na região do Mercosul , três aproveitamentos binacionais muito importantes : Itaipu (parceria do Brasil com o Paraguai) e Yacyretá (Paraguai-Argentina) , ambos no rio Paraná , e Salto Grande (Uruguai-Argentina) , no rio Uruguai .












Em fase adiantada de projeto temos Corpus (Paraguai-Argentina) , no rio Paraná e Garabí (Brasil Argentina) , no rio Uruguai . Em estudos de viabilidade há , no rio Uruguai , os aproveitamentos de Roncador e San Pedro (ambos em parceria do Brasil com a Argentina) . Em fase de inventário está o projeto de Itatí-Itacorá (Argentina-Paraguai) , no rio Paraná .


Têm sido muito simples os entendimentos bilaterais para a exploração desses aproveitamentos .


Entretanto , no que diz respeito aos combustíveis e em outros segmentos do setor energético , podem surgir obstáculos de ordem técnica e econômica , ligados à compatibilização entre o uso ótimo dos recursos existentes e questões relacionadas à logística dos transportes e ao comportamento da demanda ao longo do ano , em sintonia com a sazonalidade de safras energéticas , como a cana de açúcar , por exemplo . Nesses casos , muito cuidado deve ser dispensado às estruturas de formação de custos e ao estabelecimento de tarifas que não inviabilizem certas atividades industriais e comerciais e , sobretudo , que não sacrifiquem ainda mais a população , como ocorre com as termelétricas a gás natural importado que , por força de contratos da modalidade take or pay para a compra do gás , deverão operar na base do sistema , criando sérios obstáculos para o aproveitamento otimizado do potencial hidrelétrico .


Para viabilizar-se uma integração que beneficie a todos os países da região (não apenas aos poderosos grupos multinacionais , interessados somente em explorar o mercado expandido pela integração) pode-se estudar , em colaboração com os países vizinhos , a adoção de algum tipo de moeda-convênio para aproveitar os saldos comerciais gerados pelas trocas no setor energético e explorar , no âmbito da região , complementaridades identificadas em outros setores .

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