Globo 13/12/98
Elio Gaspari
O BNDES virou fábrica de esqueletos
Desde a escuta telefônica do BNDES, vive-se uma situação na qual uma conversa entre duas autoridades só é entendida direito se vier com a estrutura de um grampo.
Aqui vai uma interceptação das comunicações entre o presidente da Eletrobrás, Firmino Ferreira Sampaio Neto, e o ministro de Minas e Energia, Raimundo Brito. Deu-se em 23 de outubro:
"Alô, ministro, aqui é o Firmino. Queria lhe falar da privatização das empresas de energia elétrica".
"Pois não, Firmino. Diga".
"O BNDES fez uma proposta que considera a criação de empresas de transmissão. Ela mantém as empresas existentes, com o mesmo CGC. Empresas ‘casca’. Essas ‘cascas" abrigariam, a rigor, os chamados ‘esqueletos’, que poderiam impactar o valor de venda dos demais ativos".
Firmino prossegue:
"Tomando-se por base um caso concreto, a proposta versa sobre a venda de Itaparica, da Chesf, mantendo-se na ‘casca’ o reassentamento da usina".
Está dizendo o seguinte:
O BNDES quer vender as hidrelétricas federais despejando suas dívidas ("esqueletos") em empresas-casca. Desse jeito, uma hidrelétrica poderá vir a ser vendida por algo como R$ 1 bilhão. Os maganos aparecerão nas fotografias xepando a cena do martelo do leilão e a galera terá todos os motivos para supor que a estatal foi vendida por R$ 1 bilhão. Nada disso. A Viúva carregará os "esqueletos" despejados nas "casca"s. No caso de Itaparica, pelo menos as despesas com a população despejada das terras do lago da barragem. Algo em torno de R$ 300 milhões.
Ninguém grampeou o doutor Firmino. Todas as palavras que lhe foram atribuídas constam de uma correspondência oficial que mandou ao ministro Raimundo Brito. (Para quem as for procurar, trata-se do CTA-PR 9.193/98.)
Também não é justo mendonçar o presidente da Eletrobrás. Ele apenas mostra os riscos que o BNDES está produzindo. Entre eles, o de provocar uma desvalorização das ações da Eletrobrás.
Na venda da Eletronorte, ficarão na "casca" cinco empresas deficitárias. Furnas carregará o "esqueleto" da Eletronuclear. Em todos os casos, a pressa política e a fome de dólares estão gerando anarquia.
O BNDES está torrando o patrimônio do Estado para cobrir o buraco das contas externas, financiando a política de juros altos que arruína a produção nacional e engorda os gatos da globalização. O banco faz de conta que a venda de 20 hidrelétricas federais poderá arrecadar US$ 15 bilhões, mas não conta que quer colocar algo como US$ 4 bilhões de "esqueletos" dentro das "cascas".