ENTREVISTA Ex-ministro Tourinho diz que governo teve de injetar recursos em termelétricas que esperava vir de empresas "Mercado não quis investir em energia" FELIPE PATURY ENVIADO ESPECIAL A SALVADOR O ex-ministr …

ENTREVISTA


Ex-ministro Tourinho diz que governo teve de injetar recursos em termelétricas que esperava vir de empresas "Mercado não quis investir em energia"


FELIPE PATURY ENVIADO ESPECIAL A SALVADOR


O ex-ministro de Minas e Energia Rodolpho Tourinho foi demitido a 11 dias do que imaginava ser sua virada de jogo. Ele anunciaria na próxima terça a conclusão do programa de termelétricas, com a inauguração de 15 usinas este ano, que supririam o déficit de energia até 2004. Tourinho, dono da festa, não irá. Fica com o descrédito do setor de energia, que acredita que só quatro usinas ficarão prontas em 2001 (leia texto abaixo). Critica, no entanto, as empresas, ao dizer que não investiram nas termelétricas, o que acabou sobrando para o governo. Demitido por ser afilhado de ACM, Tourinho não quer mais cargos públicos nem fazer discursos. Abriu uma exceção para a Folha em sua casa de praia.


Folha – O senhor esperava a demissão?


Rodolpho Tourinho – Era uma coisa que já se falava tanto em relação a mim quanto a Waldeck (Ornélas, ex-ministro da Previdência). O motivo foi político. Não foi técnico nem moral.


Folha – Haverá, então, demissões por problemas morais?


Tourinho – Não sei, mas não houve comigo. O problema foi político. Só o senador (Renan) Calheiros (PMDB-AL) sugeriu num requerimento que havia problemas no setor elétrico.


Folha – De que se trata?


Tourinho – Ele critica um contrato da Eletrobrás com o mercado de energia. Quer que o Tribunal de Contas (da União) investigue, mas não há o que examinar. Não há o tal acordo. Angra 2 tem uma pendência de R$ 180 milhões com o mercado. Isso foi discutido publicamente pela Eletrobrás durante um ano e meio.


Folha – Qual é o problema?


Tourinho – Calheiros diz que se transferiu dinheiro para empresas privadas. Na verdade, o mercado não quis acordo. Queria aumentar as tarifas ao consumidor. A Eletrobrás tinha ressalvas para negociar e não aceitou. O acordo não podia ter ônus para a Eletrobrás, o governo, o consumidor e tinha de ser aprovado pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Se as empresas ganhassem, não teriam recusado o acordo.


Folha – De quanto seria o ônus para o consumidor?


Tourinho – Não dá para calcular. Mas existia ônus e o governo não aceitou. A denúncia de Calheiros foi colocada para envolver a Eletrobrás numa coisa que não existe, porque não tem contrato.


Folha – Como fica agora?


Tourinho – A Aneel ou a Justiça vai decidir quem paga a conta.


Folha – O senhor brigou com o mercado?


Tourinho – Quando desagradei, foi para fazer o certo. Só não cedi a chantagem.


Folha – Como assim?


Tourinho – O mercado tem uma estratégia -e é do jogo- de sempre trazer um problema novo quando você tenta resolver o que está em pauta. É uma maneira de ganhar mais. Disse às empresas que não aceitava isso.


Folha – Sua demissão deve-se apenas a sua amizade com ACM?


Tourinho – É. A nota divulgada por FHC fala em lealdade. Fui leal a FHC. Não se pode exigir é que eu seja desleal à Bahia e a ACM.


Folha – O senhor sai ressentido?


Tourinho – O governo tem direito de tomar essas providências.


Folha – FHC demonstrou que estava insatisfeito com seu trabalho? Tourinho – Sempre recebi demonstrações de apoio.


Folha – O senhor culpa ACM pela sua demissão?


Tourinho – Cabe a ACM e a qualquer político fazer denúncias e ao governo apurar. Ninguém põe em dúvida a seriedade de FHC, mas as denúncias têm de ser apuradas.


Folha – Antes de ir para as Minas e Energia, o senhor foi cotado para presidir o BNDES?


Tourinho – Foi quando o Luiz Carlos Mendonça de Barros ia para o Desenvolvimento. Ele e FHC sabiam que há gente competente e decente trabalhando para ACM.


Folha – Quais foram, então, os seus piores momentos?


Tourinho – Os problemas decorrem de duas grandes mudanças que fizemos: uma na área de petróleo e outra na elétrica. Quebrou-se o monopólio e se mudou a matriz energética com o gás.


Folha – O que aconteceu, então?


Tourinho – As empresas privadas não investiram na construção das termelétricas como esperávamos. Fizemos algumas das usinas com dinheiro da Petrobras e da Eletrobrás. Na marra. Se não fosse assim, isso aqui ia ficar igual à Califórnia, onde falta luz até para acender a árvore de Natal.


Folha – O sr. é criticado por prometer 49 termelétricas e não entregá-las. Tourinho – Não prometemos 49 termelétricas, mas de 11 mil a 12 mil MWh de energia. Na terça, anunciaríamos que colocaremos mais 15 mil MWh. É mais que o previsto.


Folha – Mas não se percebe mudanças em petróleo e energia. As termelétricas não estão operando.


Tourinho – Na área da Petrobras, se percebe. No sistema elétrico, não é imediato. Neste ano, serão inauguradas 15 termelétricas. A Petrobras está em 10 delas.


Folha – Quanto a Petrobras gastou nisso?


Tourinho – Cerca de US$ 2,5 bilhões, mas o importante é que a Petrobras passa a ser uma empresa de energia, não de petróleo.


Folha – Mas está nas termelétricas por causa do governo. E o lucro? Tourinho – A Petrobras produz metade do gás da Bolívia e tem campos no Brasil. Em 2005, a Petrobras venderá 75 milhões de m3 de gás por dia. As termelétricas consumirão dois terços disso.


Folha – A Petrobras é uma caixa preta?


Tourinho – Não mais. Antes, o conselho e a diretoria da empresa se fundiam. As pessoas que faziam eram as mesmas que aprovavam. Muitos desvios eram devido a isso. Agora, o ministro é o presidente do conselho, que não é integrado por gente da empresa.


Folha – Mas continua fechada.


Tourinho – É corporativa, autoritária, mas não é motivo para se pensar em privatizar a empresa.


Folha – Nem mesmo para se abater as dívidas do governo?


Tourinho – Nada justifica.


Folha – As outras privatizações foram feitas para isso. Tourinho – Acha-se dinheiro em outro lugar. A Petrobras é eficiente e tem reservas estratégicas.


Folha – Então por que ela tem de concorrer com estrangeiros?


Tourinho – Para não privatizar. Ela tem 50 parcerias com as maiores empresas do mundo. A concorrência serve para que nunca se pense em privatizar.


Folha – Mas não cumpriu seu objetivo: parar de importar petróleo. Tourinho – Em 2005, o país será auto-suficiente. Já tem reservas e dinheiro. Falta tempo.


Folha – Na sua gestão, vazou óleo no Rio e no Paraná.


Tourinho – A Petrobras nunca deu atenção à ecologia. Quando vazou no Rio, quiseram esconder o tamanho do vazamento. Não deixei. Um diretor foi demitido por isso. Depois dos desastres, passou a investir na prevenção.


Folha – Os vazamentos seguem.


Tourinho – A Petrobras tem canos debaixo da terra há 50 anos. Um perigo. Mas as pessoas só falam da Petrobras porque só ela atua aqui. Quando as outras também vierem, diminuirá a pressão.


Folha – Faltou regulamentação para obrigar as elétricas a investir? Tourinho – Faltou, mas é preciso diferenciar as coisas. A venda das distribuidoras foi bem-sucedida.


Folha – Ainda falta dinheiro?


Tourinho – Parte do problema é do governo. Os cabos e equipamentos da terceira linha de Itaipu estavam comprados e empacotados havia dez anos.


Folha – Mas não se consegue privatizar Furnas e as geradoras.


Tourinho – Furnas é política. O governador de Minas Gerais (Itamar Franco), o Aécio (Neves, presidente da Câmara dos Deputados) e o governador do Rio (Anthony Garotinho) são contra.


Folha – E as outras geradoras? Tourinho – A Chesf depende do rio São Francisco numa região sem água. É arriscado para o Nordeste que a Chesf esteja na iniciativa privada. O déficit na Eletronorte é grande. Tucuruí pode ser vendida. As outras empresas, não. Se vender antes da universalização, não há como garantir que a população será atendida.



Quanta ingenuidade

A entrevista do ex ministro de Minas e Energia Rodolpho Tourinho à Folha de São Paulo (jornalista Felipe Patury), publicada em 4 de março, é um "show" de ingenuidade. Suas palavras mostram que teve momentos brilhantes no MME, trabalhou atento a muitos esquemas indecentes e estratégias erradas em grandes estatais nacionais, comandou o MME, contudo, com bases erradas.


De todos os erros cometidos na gestão do ex ministro, a mais grave é mal geral no governo FHC, é acreditar que seres humanos, grandes ou pequenos, queiram usar suas economias para resolver problemas dos outros. Desde o início o programa de desestatização brasileiro ignorou diferenças sutis entre o Brasil e as grandes potências, mentoras do processo de privatização imposto às nações menos espertas. Elas próprias entraram nesse barco e agora amargam resultados ruins. A situação do estado da Califórnia é emblemática. No modelo adotado naquela unidade norte americana as tarifas para os consumidores não poderiam aumentar. Afinal elas são dolarizadas naturalmente e o livre mercado, com a competitividade esperada, forçaria reduções. Triste desinteligência. Esqueceram que o consumo crescia rapidamente, isso levou os empresários a saborear um cenário que eles sonhavam, a falta de energia e a pressão para aumento de tarifas. O governo do estado não cedeu, o modelo foi mantido e agora simplesmente falta energia elétrica e o sistema opera abaixo do limite desejável de segurança.


O Brasil vive um plano de estabilização econômica porque entrou a década de noventa em crise total. O idolatrado Plano Real tem falhas, ou melhor, deixamos a indústria brasileira quebrar, estimulamos importações e passeios pelo mundo, os dólares faltaram e caímos no FMI e na maxi desvalorização da moeda. Nesse momento, para todos os efeitos, reiniciamos a contagem severa de tempo que consagra ou desmoraliza planos econômicos. Assim o Brasil é um país novíssimo, para todos os efeitos, no mundo do dinheiro, merecendo notas ruins na avaliação de riscos. Não é outra a razão de nossos "project financing" terem sido abandonados e a Petrobrás e Eletrobrás entrarem de sola na construção de termoelétricas. Graças a isso estaremos respirando mais segurança em breve. É por isso que os investidores querem tarifas dolarizadas. É por isso que os grandes projetos de construção de centrais geradoras de energia elétrica custam a sair do papel. Candidamente o ex ministro diz "o mercado não quis acordo. Queria aumentar as tarifas ao consumidor". É lógico. Os investidores querem rapidamente o dinheiro investido de volta, não confiam em baixas taxas de retorno, sabem melhor do que ninguém que no Brasil a Constituição Federal é um conjunto de leis que muda sempre, imaginem o resto. O ministro fala em chantagem. Chantagem? Isso é crime ou é uma expressão muito pesada para qualificar um comportamento de segurança sensata.


O Dr. Tourinho defende sua Chesf, não quer que a empresa que atende sua região seja privatizada (esperteza, amor ou competência?). As outras podem, ainda que Furnas seja objeto de atenções políticas quase intransponíveis.


O setor elétrico caminha para a crise anunciada por todos os que sabiam das coisas. Talvez escape na tangente. O ex ministro lembra que "parte do problema é do governo. Os cabos e equipamentos da terceira linha de Itaipu estavam comprados e empacotados havia dez anos". Ou seja, principalmente do governo que fez parte. E não é só isso, todas as estatais estão sendo garroteadas, impedidas de investir, bloqueadas para que o povo as queira mal, para que governadores e prefeitos partam para a desestatização. Assim o Brasil caminha para a falta de energia, água, esgoto, portos etc. O mundo estatal tinha imensos defeitos, defeitos herdados de comportamentos e relações erradas com a iniciativa privada e alguns políticos (incompetentes ou desonestos). Para não corrigir falhas denunciando esquemas impublicáveis o governo optou pela privatização. Assim a indústria de velas e lamparinas ganhará investimentos colossais e nós, brasileiros, pagaremos a conta. Em tempo, corrigindo, como disse o Dr. Tourinho "As empresas privadas não investiram na construção de termoelétricas como esperávamos. Fizemos algumas das usinas com dinheiro da Petrobrás e da Eletrobrás. Na marra. Se não fosse assim, isso aqui ia ficar igual à Califórnia, onde falta luz até para acender árvore de Natal." Ou seja, graças às execradas estatais teremos energia elétrica, ainda que em quantidade limite, abaixo dos níveis de segurança necessários…



João Carlos Cascaes


Engenheiro, Ex-Presidente da COPEL



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