JB 26.07.97
Disputa por poder divide a Light
Quatro sócios lutam pelo controle da diretoria da empresa, mas vão formar consórcio
para concorrer à privatização da Coelba
FERNANDO THOMPSON
O grupo controlador da Light ameaça rachar por conta de disputas internas e dos leilões de
venda de outras empresas do setor elétrico, que despertam os interesses dos sócios da
distribuidora de energia do Rio.
Privatizada em maio do ano passado, a Light tem como principais acionistas a francesa
Electricité de France e a americana Houston Power Industries, que estão de um lado nas
disputas internas. E de outro, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a American
Corporation (AES).
O pomo da discórdia é a disputa pela direção da empresa, que hoje está divida entre os quatro
sócios. A EDF tem a presidência, ocupada pelo francês Michel Gaillard, além da diretoria de
Distribuição. A CSN tem Benjamin Steinbruch na presidência do Conselho de Administração e
a diretoria de Administração. A AES ficou com a diretoria de Geração e a Houston assumiu a
Diretoria Financeira.
Queixas – Os sócios franceses não estão satisfeitos com essa divisão e exigem mais espaço. O
problema é que dentro do modelo de gestão compartilhada, importado da CSN, o cargo de
presidente é apenas figurativo. Gaillard se sente como a rainha da Inglaterra e pede mais
poder, pois dentro desta estrutura não tem como tomar nenhuma decisão estratégica sem
consultar o conselho.
O presidente da Light chegou a comentar com um amigo que não concorda com o que definiu
como concentração de poder nas mãos da CSN. Procurado pelo JORNAL DO BRASIL,
Gaillard não foi encontrado para falar sobre o assunto.
Benjamin Steinbruch está do outro lado dessa disputa. Luta para manter o modelo de gestão
compartilhada. Ele nega a acusação de centralizador. ” Não tenho nem ido à Light. Tenho me
concentrado no trabalho de reestruturação da Vale”, diz.
Ele admite que há divergências de opinião entre os sócios, mas não acha o problema insolúvel
. ” Os franceses estão querendo mais espaço. Vamos chegar a um denominador comum”,
afirma .
O presidente do conselho de administração negou que a CSN pretenda vender os 7,25% das
ações que tem na Light, notícia que vem circulando pelo mercado financeiro. Ele afirmou que a
siderúrgica não está precisando de dinheiro para pagar os US$ 800 milhões que pegou com a
Nations Bank para participar do leilão de privatização da Vale, conforme informações que
circularam no mercado financeiro.
” Esse empréstimo só vence em 1998. E além disso, o contrato prevê a repactuação
automática, por um prazo de até dez anos. A CSN não precisa de dinheiro. Temos R$ 1,5
bilhão em caixa”, explicou.
Conversa franca – Ontem, foi realizada no Rio uma reunião com presidentes e diretores
internacionais das quatro empresas sócias da Light: Thomas Tribone, presidente da AES, Lee
Hoga, presidente da Houston, Jacks Cizain, presidente da área internacional da EDF e
Benjamin, pela CSN.
O objetivo do encontro foi o de fechar um consórcio único, composto pelas quatro empresas,
para disputar o leilão da Companhia Elétrica da Bahia (Coelba), marcado para a próxima
quinta-feira, na Bolsa de Valores do Rio. A EDF e a Houston ameaçavam ir sozinhas para o
leilão. O acordo saiu e evitou, pelo menos por enquanto, que o grupo se dividisse.
Essa mesma disputa também quase levou a EDF e a Houston a abandonarem o consórcio que
disputou e perdeu o leilão de privatização da Companhia Estadual de Gás (CEG) e Riogás,
realizado no começo deste mês. ” Acho que a disputa levou a erros no modelo de avaliação
das duas empresas. Mas perdemos por pouco, só R$ 400 mil. Acho que isso não vai se repetir
no leilão da Coelba”, diz Benjamin.
União – Benjamin tenta minimizar as divergências. Segundo ele, a união dos sócios é
fundamental para que a Light cresça e siga comprando outras empresas. “No leilão da CEG,
corremos na última hora e perdemos. Isso mostra que temos que ficar juntos. Não acredito que
a EDF e a Houston não percebam isso”, disse.
Presidente do Conselho de Administração da Light, Benjamin disse que a compra da Coelba é
fundamental para a distribuidora do Rio. Segundo ele, as duas empresa, juntas, podem cortar
custos, principalmente nas áreas administrativa e de informática.
Benjamin disse ainda que o grupo Vicunha, do qual é acionista, fez a opção de crescer na área
elétrica através da Light. Ele acredita que a companhia poderá ainda exercer a função de sócia
estratégica de outras empresas do setor elétrico que venham a ser privatizadas.