Indefinição agrava o risco de crise de energia
Los Angeles, 12 – A crise energética da Califórnia (Estados Unidos), onde as regras são semelhantes, deixou os investidores ainda mais receosos. O Governo teme que uma liberação dos repasses de custos possa provocar alta da inflação, indicador que vem sendo tão cuidadosamente controlado pela equipe econômica desde que o Brasil firmou o acordo de ajuda econômica com o Fundo Monetário Internacional (FMI). – Não é fácil transformar um modelo estatal num modelo privado, é natural que haja certa demora nas definições. Os agentes precisam sentar e negociar. Enquanto isso não acontecer, enquanto não houver uma coordenação para conciliar os interesses de geradoras, distribuidoras, consumidores e Governo, não haverá novos empreendimentos – afirma Gil Maranhão Neto, diretor da Tractebel. A empresa tem três projetos de geração listados no Plano Prioritário de Termeletricidade do Governo federal e prevê a construção de 49 usinas termelétricas até 2003. Esses projetos garantiriam uma geração adicional de 15 GW de capacidade para o País.
O gerente-geral da Perez Companc no Brasil, Miguel Biancheti, confirmou que o problema cambial representa um dos motivos para a empresa – que hoje atua no País na petroquímica e na exploração petrolífera – ainda não ter entrado na área de geração de energia. – Não digo que seja impossível investir nas condições atuais, mas o risco é muito grande – afirmou o executivo, acrescentando que a Perez Companc, uma das maiores geradoras de energia térmica na Argentina, tem planos de tornar-se uma companhia integrada também no Brasil, logo que surgirem boas oportunidades e ficarem melhor definidas as condições de atuação das empresas do setor. Diretor da Cataguazes-Leopoldina, Maurício Botelho, disse que a crise energética da Califórnia representa o exemplo perfeito para ilustrar os temores dos investidores. – Hoje, investimos o mínimo necessário em geração. Se não puder haver o repasse de custos, a atuação das empresas fica praticamente inviável. Um dos problemas graves que enfrentamos é a dificuldade de obter financiamentos. Os bancos avaliam que o risco cambial é muito alto e alegam que os investimentos não são auto-sustentáveis – conta Botelho, que reclama também do atual Valor Nominal (VN) estabelecido pela Aneel.
LUCROS. O Valor Nominal – preço máximo da energia que pode ser repassado ao consumidor final – está em R$ 72,35 para as usinas a gás e óleo (cerca de US$ 36). Na opinião de boa parte dos investidores e analistas do mercado, precisaria ficar em torno de US$ 40, para garantir margens de lucro atraentes aos investidores. Já o VN para usinas a carvão está em R$ 74,86 e o fixado para usinas do tipo PCH é de R$ 79,29. Na última reunião da Aneel, realizada no fim do mês passado, os valores subiram até 26% (caso do VN para usinas a gás e óleo), mas o aumento ainda não foi suficiente para satisfazer aos empresários. – O repasse ainda é insuficiente. Além disso, há falta de clareza nas regras, o que vai criando um clima de desconfiança – acrescenta Botelho.
RESISTÊNCIA. O economista Luciano Dias Losekann, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também tem observado a resistência que os investidores privados têm mostrado para realizar novos investimentos. – A possibilidade de haver déficit no abastecimento elétrico é cada vez mais preocupante. A execução plena do Programa Prioritário de Termoeletricidade no prazo previsto é incerta. Por hora, praticamente só os programas nos quais a Petrobras está envolvida estão andando – analisa o economista. Um problema adicional é a dificuldade para aquisição de equipamentos para as centrais termelétricas. Losekann explica que o mercado mundial de turbinas para geração termelétrica é controlado por apenas quatro empresas e que, como atualmente a demanda é superior à oferta, o prazo de entrega desses equipamento tem sido de, no mínimo, três anos. – O fato de vários projetos ainda não terem encomendado turbinas gera dúvidas quanto ao cumprimento dos prazos firmados – acrescenta Losekann. O analista Marcos Severine, da Sudameris Corretora, cita como um problema adicional a dificuldade das geradoras fecharem seus Planos de Venda Antecipada (PPAs) como as distribuidoras. Com receio do risco cambial, as distribuidoras relutam em fechar contratos de compra de energia. E por não conseguirem fechar contratos, a geradoras não conseguem garantias para seus investimentos. – As empresas também estão descontentes com o descasamento dos prazos de reajuste. Enquanto a correção do gás é trimestral, o reajuste para distribuidoras é anual. Não faltam problemas para serem resolvidos – diz Severine. Fonte: Jornal do Commercio (Larissa Morais)
< Comentário do ILUMINA
Vejam bem a enrascada em que nos metemos! A energia elétrica, produto essencial sob qualquer ponto de vista, fator preponderante como insumo para qualquer projeto de modernidade, item de custo de todos os setores produtivos está a ponto de ser dolarizada. Exagero? Mesmo com uma razoável estabilidade da moeda, talvez a única façanha do governo FHC, os investidores e os bancos financiadores consideram o risco "muito alto" .