Comentário do ILUMINA:
Finalmente alguem do ONS começa a dizer a verdade. Leiam o parágrafo em Negito na coluna da direita! É verdade que os meses de Janeiro e Fevereiro estão com níveis de precipitação baixos. Os reservatórios brasileiros guardam água por muitos anos e foram concebidos para suportar situações bem piores que a atual. No período estatal os anos de 1971 e 1986 foram anos terríveis em termos de energia hidráulica e nem por isso tivemos ameaça de racionamento. A estúpida decisão de proibir as estatais de investir e a falta de apetite e exigências de garantias do setor privado para construir novas usinas é que está levando a essa situação. Destruiu-se o planejamento e hoje o sistema está operando com diversos gargalos. O principal é a limitação de transferência de energia do Sul para o Sudeste, que está provocando perdas energéticas significativas. O Sul joga água fora dos reservatórios e o Sudeste está com um enorme espaço vazio. O argumento de que a solução é mais privatização está começando a surgir. É preciso resistir!Estadão 24/2/2001
Temor de escassez de energia elétrica eleva tarifa
Primeiros reajustes já foram concedidos pela Aneel e variam entre 13,39% e 18,08%
RENÉE PEREIRA
O risco de escassez de energia elétrica já começa chegar ao bolso do consumidor. Os 12 primeiros reajustes autorizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que variam de 13,39% a 18,08%, assustaram até mesmo os especialistas de acompanhamento de preços. A preocupação aumentou após a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), na 4ª-feira, prevendo para 2001 reajuste médio de 15,8%. "Se o Banco Central faz uma previsão dessas, é porque a situação está pior do que a gente imagina", comentou o coordenador de Pesquisa da Fipe, Heron do Carmo.
No mercado, no entanto, não faltam justificativas para explicar uma elevação tão expressiva. Entre elas: falta de chuvas, incentivo para instalação das térmicas movidas a gás natural, expansão do parque gerador e alta do dólar (ver quadro).
A principal delas recai sobre a estiagem em algumas regiões do País, principalmente, no Triângulo Mineiro. Como os níveis dos reservatórios estão baixos, o risco de um colapso das geradoras é grande. A saída, segundo o diretor da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Luiz Carlos Guimarães, está sendo recorrer às usinas termelétricas para manter a oferta de energia no mercado. O problema é que o custo do óleo aumenta o preço das tarifas. "Só em 2000, foram consumidos cerca de R$ 2 bilhões em combustíveis para suprir a falta de água; e a perspectiva é que o número aumente este ano."
Crescimento – O temor pela escassez de energia tem crescido principalmente por causa das perspectivas de crescimento econômico do País. Segundo o diretor do departamento de Infra-estrutura da Fiesp, Luiz Gonzaga Bertelli, se a economia crescer 4% ao ano, o consumo de energia sobe para 6%. Isso porque, num cenário estável, a população passa a ter poder aquisitivo para comprar mais aparelhos eletroeletrônicos, avalia.
Na opinião do economista da Tendências Consultoria, Fábio Silveira, o País não tem capacidade para suportar um aumento tão grande no consumo. "Com a oferta limitada e as geradoras sem potencial para investir, a solução é apressar o programa de instalação das térmicas movidas a gás." Mas, se o reajuste previsto para este ano está sendo considerado alto, o custo das térmicas será ainda maior, diz Silveira. Pelo menos, durante o período de expansão das usinas. Além disso, o preço do gás acompanha as oscilações do petróleo.
Aliás, uma das hipóteses levantadas pelo coordenador de pesquisa da Fipe, para justificar o reajuste das tarifas de energia em 2001, é que o governo estaria embutindo no aumento um incentivo para que geradoras e distribuidoras invistam na instalação dessas usinas. O programa de geração térmica prevê a instalação de 49 usinas até 2003, sendo que a Petrobrás tem parceria minoritária em 29 projetos.
Outra possibilidade seria a necessidade de manutenção dos equipamentos das geradoras para evitar o esgotamento da oferta de energia. "Tivemos a privatização das distribuidoras, mas as geradoras continuam no poder do governo e sem investimentos", analisa Silveira da Tendências.
Estadão 3/3/2001
Falta de chuva pode causar escassez de energia
No subsistema Centro-Oeste, por exemplo, o nível de água está em 37%
RENÉE PEREIRA
A falta de chuvas em determinadas áreas das regiões Sudeste e Centro-Oeste fez acender o sinal amarelo em relação à possibilidade de escassez de energia nas duas maiores cidades do País, São Paulo e Rio de Janeiro. Os principais reservatórios dessas regiões trabalham com capacidade bem abaixo do normal. No subsistema Sudeste, por exemplo, onde o problema é mais crítico, o nível de água está em 33,4% e no Centro-Oeste, em 37,71%, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). No mesmo período do ano passado, a energia armazenada no Sudeste era de 45%, explica o diretor titular de Infra-estrutura da Fiesp, Pio Gavazzi.
Para conseguir sustentar a demanda de energia no período de seca, que começa em maio e vai até outubro, os reservatórios teriam de armazenar até o fim de abril 50% de energia potencial (água). Para isso, é necessário chover, pelo menos, 90% do índice histórico para março e abril – 159,8 milímetros e 75,8 milímetro, respectivamente.
O problema está em Minas Gerais e Goiás, regiões onde estão localizados os maiores reservatórios do País, que abastecem principalmente a região Sudeste e Centro-Oeste. Nessas áreas, o índice de chuva ficou bem abaixo do esperado. A situação só não é pior porque as chuvas de dezembro conseguiram elevar um pouco os níveis dos reservatórios. Mas os meses de janeiro e fevereiro decepcionaram os técnicos, que agora mostram-se preocupados com o risco da falta de energia. "Estamos consumindo toda água que entra", comenta Gavazzi.
Transferência – Enquanto isso, a energia armazenada nos reservatórios da região Sul chega a quase 100%. Atualmente, segundo técnico do ONS, para manter o fornecimento adequado de energia no Sudeste estão sendo transferidos diariamente cerca de 1 mil megawatt (MW) gerados nas regiões Norte e Sul, o que equivale à energia produzida pela usina Angra II.
Esta quantidade de energia poderia ser maior, explica o técnico, com a ativação do terceiro circuito da hidrelétrica de Itaipu e com a construção de mais linhas transmissão. Por enquanto, a capacidade dessas bacias ainda é pequena para solucionar o problema.
Segundo Gavazzi, a situação é crítica, mas é preciso aguardar os próximos dias para ter um diagnóstico preciso sobre os riscos de escassez de energia.
O secretário do Ministério de Minas e Energia, Xisto Vieira Filho, considera prematuro falar em racionamento de energia em função da falta de chuva, uma vez que a estação das chuvas ainda não terminou. "A situação dos reservatórios não é boa, mas ainda é cedo para pensar em racionamento."
Segundo ele, o problema não é a quantidade, mas o local das chuvas.
Na avaliação de Gavazzi, a situação atual é decorrente da falta de investimento no setor nos últimos anos. Há três anos, por exemplo, os reservatórios eram suficientes para mais de um ano de consumo. Para ter idéia, explica, em 1997, os reservatórios terminaram o período de seca com aproximadamente 66% de energia armazenada. No ano passado, esse número ficou em 18%. "Em três anos, conseguimos gastar toda nossa energia potencial."
Segundo ele, com a falta de chuva, o País não vai conseguir elevar os níveis dos reservatórios como em épocas anteriores. A única solução será apressar o projeto das térmicas a gás. O temor é que os problemas políticos dos últimos dias, que derrubou Rodolpho Tourinho do Ministério de Minas e Energia, interrompa os projetos em andamento. Além disso, ainda não foi definido o nome de dois substitutos de diretores da Aneel. (Colaborou Gerusa Marques/AE)