CLIQUE AQUI PARA RECAPITULAR "TERMELÉTRICAS A GÁS NATURAL A SOCIEDADE BRASILEIRA PRECISA SER INFORMADA COM TOTAL CLAREZA E DETALHE" E LEIA O TEXTO A SEGUIR QUE ANALISA BREVEMENTE AS CARACTERÍSTICAS DE OPERAÇÃO OTIMIZADA DE SISTEMAS MISTOS (HIDRELÉTRICOS-TERMELÉTRICOS) E O PROBLEMA DAS RESERVAS DISPONÍVEIS DE GÁS NATURAL:
O PAPEL DAS TERMELÉTRICAS E ASPECTOS BÁSICOS DE USINAS A GÁS NATURAL
O anuncio, em página inteira do Correio Brasiliense, publicado em 31/08/999,foi comentado nessa página. Voltamos ao assunto examinando alguns aspectos relacionados à termeletricidade, em especial com gás natural, que necessitam de maiores esclarecimentos, bem como o papel das usinas térmicas no nosso sistema e também as repercussões em geral do arrojado programa anunciado pela Petrobrás/Eletrobrás/MME/Governo Federal no jornal da Capital Federal.
O parque gerador brasileiro tem uma composição mista, com usinas hidráulicas e térmicas, com predominância absoluta das primeiras. Nesse quadro, às termelétricas foi reservado um papel de complementação das hidrelétricas. Ou seja, nos períodos secos as termelétricas são acionadas com bastante intensidade no regime chamado de base, o que resulta em elevados fatores de capacidade, garantindo o suprimento. Em períodos de abundância de água, ficam as termelétricas operando com baixa capacidade, economizando combustível. Em anos recentes tem até ocorrido o desligamento total temporário de algumas dessas usinas, o que, aliás, não é recomendável.
Com o uso de um combustível tradicional, como o óleo 1 A , por exemplo, com mercado de porte significativo no Brasil e no exterior, foi possível conciliar, nesse regime operativo complementar, as necessidades desse combustível sem maiores consequências. No entanto, com o gás natural, onde os contratos tipo "take or pay" ( ou consome ou paga o gás disponibilizado) estarão vigentes, certamente ocorrerão repercussões na estratégia operativa até então adotada.
Uma UTE a gás natural, operando ( ou despachada, como se diz em dialeto do setor) com um fator de capacidade mais elevado, em decorrência dos citados contratos, apresentarão custos operativos maiores que os incorridos com um combustível interruptível como o óleo 1 A, por exemplo. Isto trará reflexos na estratégia operacional otimizada em uso. Essa estratégia, que conduz a benefícios com a operação otimizada no entanto, deveria ser mantida.
Vejamos agora a questão das reservas de gás natural. Tomemos, inicialmente, as reservas provadas do Brasil e dos nossos vizinhos Argentina e Bolívia, de onde certamente virão as importações mais significativas de Gás Natural nos próximos anos. Segundo as estatísticas da WEC ( World Energy Council Survey of Enegy Resources 1998) essas reservas são:
País
Reservas Provadas (bi de m3)
Brasil
224
Argentina
686
Bolívia
131
Total
1041
Cabem, sobre esses valores, algumas observações. As reservas da Argentina ocupam o segundo lugar na América do Sul, só inferiores as da Venezuela. Já as do Brasil representam a 4a maior reserva do continente. A maior parte das reservas brasileiras, até então conhecidas, é de gás "associado" ou seja, que ocorre junto com petróleo localizado na plataforma continental. Sua produção, portanto, está diretamente atrelada à programação de extração de óleo.
Para as reservas bolivianas, noticias recentes na imprensa fazem referência a descobertas animadoras. Algo como até 249 bilhões de metros cúbicos em novos campos ao sul daquele país. Confirmados esses dados, as reservas bolivianas passariam para 380 bilhões de m3.
Para se ter uma idéia dos impactos nas reservas de gás natural dos três países, na geração de energia elétrica, vejamos o quadro que se segue:
Capacidade Instalada
Energia MW Médio (*)
Consumo diário de Gás (MMm3)
Consumo em 20 anos (bi de m3)
% das reservas provadas do Brasil
% das reservas provadas da Argentina
% das reservas provadas da Bolívia
1.000
600
2,6
19
9
3
15
5.000
3.000
13,1
95
42
14
73
10.000
6.000
25,9
190
85
55
145
(*) Fator de Capacidade = 0,60
– Rendimento = aprox. 50% (Equivalente a um Consumo Específico "Heat Rate" de Aprox. 6800 BTU/Kw.h; ou algo como 180 Nm3/Mw.h, para gás de 9400 kcal/Nm3 ou 39,36 joule/N.m3)
No quadro está admitida a instalação de termelétricas em três níveis de intensidade.
O primeiro, bastante suave, considera somente 1000 Mw em usinas a gás. No segundo, mais intensivo, contempla-se algo como 5000 Mw. Por último, um programa mais agressivo, com cerca de 10000 Mw de ordem de grandeza do divulgado pela imprensa, inferior em 3500 Mw ao total divulgado pela matéria paga no Correio Braziliense.
1000 MW consumiria algo próximo como 10% das reservas brasileiras e cerca de 15% das reservas bolivianas, impactando as reservas argentinas em apenas 3%. Já os demais níveis (5000 e 10000 MW) repercutem de forma significativa nas reservas de qualquer dos três países considerados.
Na hipótese das reservas da Bolívia passarem para 380 bilhões de m3, ainda assim um programa de 10000 Mw em térmicas a gás consumiria cerca da metade desse novo patamar de reservas.
Além da termeletricidade não devemos nos esquecer os demais usos comtemplados para o gás natural, tais como: petroquímico e fertilizantes; como combustível em vários outros setores, constituindo-se numa variada gama de utilização. Isto tanto no Brasil como nos países vizinhos citados, sem falar dos programas de geração térmica nos mesmos. Ou seja, são utilizações que demandam significativos volumes de gás, impactando as reservas. Em síntese, com base nas reservas provadas, quer de forma isolada ou no conjunto dos três países, não existe disponibilidade, hoje, de montantes conhecidos desses combustível que assegurem uma utilização generalizada por muitos anos, além de sua inserção, num parque de geração com predominância hídrica como o brasileiro, ser bem mais complexa do que em um de base térmica.
É importante considerar os reflexos na balança comercial. Tomemos um preço médio do gás (somente a "commodity" , não considerando impostos e transporte) de US$1,30/MMBTTU e que cada MMBTUU corresponda à aproximadamente 27Nm3. Assim, aqueles volumes de gás consumidos representariam em dispêndio com importações as seguintes ordens de grandeza:
Geração de 1000 Mw……….US$ 915 milhões
Geração de 5000 Mw……….US$ 4,575 bilhões
Geração de 10000 Mw……..US$ 9,150 bilhões
Devemos acrescentar também que ainda serão necessários alguns anos para que as termelétricas tenham peso preponderante na composição do parque gerador nacional. Na fase de transição, às usinas térmicas ainda estará reservado o papel de complementação às hidrelétricas quando possível, bem como contribuirão para melhorar a confiabilidade operacional do sistema, em decorrência da facilidade de implantações próximas aos grandes centros de consumo.
Dispomos de um potencial hidráulico remanescente de cerca de 100000 MW, com um sem número de empreendimentos economicamente atraentes. Acrescente-se também que para o atendimento do mercado brasileiro de energia elétrica são necessários incorporar, anualmente, cerca de 3500 Mw em usinas novas. Para tal, o potencial hidrelétrico remanescente, mantido o bom senso estratégico, não poderá ser desprezado.
Mais uuma vez somos levados a concluir que muito ainda precisa ser detalhadamente esclarecido à sociedade brasileira, inundada pela desinformação de uma midia acrítica. Os pontos analisados acima, tanto sob o enfoque da capacidade, a curto e médio prazos, de transporte do gás, como sob o enfoque do impacto sobre as reservas dos ambiciosos planos de expansão da geração térmica.
O planejamento do sistema do sistema elétrico brasileiro já teve competência e alguma lógica. Repentinamente essa lógica torna-se esdrúxula e misteriosa. Não que a sociedade, antes, já não convivesse com altas doses de anestesiamento. Entretanto, a maré neoliberal agravou a dose de anestesia e levou a desinformação pública ao auge.
No caso das usinas térmicas a gás, ou os questionamentos ( e esses são simples) são respondidos com rapidez e clareza, ou poderemos ter certeza que a neo-lógica não é a do interesse nacional, mas aquela dos grandes fornecedores e firmas de engenharia/consultoria, na maioria multinacionais, especializadas em usinas térmicas a gás.
ILUMINA 29/10/1999