É muito difícil prever o que vai acontecer, pois só S. Pedro sabe quanta energia virá dos céus. Entretanto pode-se dizer que se as afluências futuras forem médias e se a carga da região sudeste permaneçer no entorno de apenas 23.GWmes, ao invés dos 27 GWmês anteriores ao racionamento, não se consegue encher os reservatórios de sudeste nem até a metade. Isso mostra, mais uma vez, o desequilíbrio entre a oferta, ainda insuficiente pela ausência de investimentos, e demanda, mesmo reprimida. Tudo isso com o tempero de um aumento de 30% no preço e falência da Enron.
Economia desaba para 5,9% no Sudeste (Estado de S. Paulo 30/11)
Junto com Centro-Oeste, região teve o pior dia do racionamento na quarta-feira
JOSÉ RAMOS
BRASÍLIA – A economia de energia nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste desabou para 5,9% na quarta-feira, menos de um terço da meta que deveria valer até sábado. Com isso, o Nordeste deixou de ser a área com pior desempenho no racionamento. Apesar disso, os reservatórios desse sistema interligado já estavam guardando mais água do que no mesmo dia do ano passado. Segundo dados preliminares do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a economia acumulada no Sudeste e Centro-Oeste em novembro reduziu-se para 15,8%.
Os nordestinos conseguiram economizar na quarta-feira 9,5% de energia, ficando com um acumulado de 12,9% no mês. No Norte, a economia de quarta-feira foi de 18,2%, ficando o resultado em 19,5% no mês. A recuperação dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste está sendo obtida graças ao aumento das chuvas, que permitiu entrar mais água nas barragens do que a perdida com o crescimento do consumo de energia.
A afluência de água nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste foi calculada na quarta-feira em 96% da média histórica, ficando 21 pontos porcentuais acima da curva-guia (o limite mínimo), segundo dados do ONS. Com isso, o armazenamento em todas as barragens de hidrelétricas da região subiu para 22,75% da capacidade total, ante 22,2% em 28 de novembro de 2000. O volume atual está 9,98 pontos porcentuais acima do limite mínimo traçado pelos técnicos e 1,54 ponto acima do nível existente no começo deste mês.
O presidente do ONS, Mário Santos, traçou ontem um quadro tranqüilizador sobre o suprimento de energia a curto prazo. Ele disse que a Usina de Sobradinho, que tem o maior reservatório de água do Nordeste, deverá receber o dobro de água em breve. Com isso, ele acredita que o armazenamento de água no Nordeste poderá passar dos atuais 7,6% para algo em torno de 10% e 15% em abril, quando começará o período seco.
Santos argumenta que o fundamental é que o nível médio das chuvas fique acima de 50% da média histórica. Na quarta-feira, ele chegou a 61%. "A água vai ser maior que o mercado racionado demanda", apostou. A complementação da energia será feita com a instalação de usinas térmicas emergenciais, que fornecerão mais de 800 megawatts (MW) médios no próximo ano. (AE)
Aumento será para compensar perdas das distribuidoras com o racionamento; em dois anos, alta deve chegar a 56%
Energia deve subir 30% em 2002, diz BC (Folha 30/11)NEY HAYASHI DA CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
As tarifas de energia elétrica devem subir cerca de 30% em 2002, segundo estimativas feitas pelo Banco Central. Para este ano, o BC projeta reajuste médio de 20%. Se as previsões se confirmarem, as tarifas terão aumentado 56% em apenas dois anos, período em que a inflação acumulada deve ficar em torno de 10%, segundo estimativas do mercado.
Até o início deste mês, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o reajuste médio acumulado pelas tarifas neste ano foi de 17,4%.
Parte do aumento previsto para o ano que vem será autorizado pelo governo para compensar as distribuidoras pelas perdas causadas pelo racionamento de energia. Até o mês passado, o BC previa reajuste de 20% em 2002.
As previsões constam da ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do BC), realizada na semana passada. Na ocasião, decidiu-se manter os juros básicos da economia em 19% ao ano até o mês que vem.
Para compensar o aumento nas tarifas de energia, o BC prevê redução de 4,9% no preço dos combustíveis em 2002. Segundo a instituição, essa redução será consequência da queda do preço do petróleo no mercado internacional.
Mesmo assim, o aumento dos preços administrados pelo governo é apontado pelo Copom como um dos motivos para a manutenção dos juros, devido à ameaça que os reajustes representam ao cumprimento da meta de inflação para 2002.
O BC projeta aumento de 5,8% para o conjunto de preços administrados (combustíveis, energia e telecomunicações) em 2002. Isso contribuiria para a elevação de 1,8% no IPCA do ano que vem, sendo que a meta do governo é de 3,5% -com margem de tolerância de dois pontos percentuais.
"Esses aumentos [das tarifas públicas" significam importante choque de oferta para a economia em 2002", afirma a ata. Neste ano, o BC culpa diversos choques de oferta -como a alta do dólar e o racionamento- pelo descumprimento da meta de inflação. Entre janeiro e outubro, o IPCA acumula alta de 6,22%, enquanto o teto da meta é de 6%.
A diretoria do BC tem insistido em sinalizar que vai fazer de tudo para cumprir a meta do ano que vem, mesmo que isso signifique manter os juros altos por mais tempo. O diretor de Política Monetária, Luiz Fernando Figueiredo, chegou a dizer que, no ano que vem, "não tem desculpas" para o descumprimento da meta.
Na ata da reunião realizada na semana passada, o Copom diz que a retomada do crescimento econômico contribui para colocar em risco o cumprimento das metas de inflação, o que justificaria a manutenção dos juros nos níveis atuais por mais tempo.
"A melhora de vários indicadores da economia brasileira não foi acompanhada pela melhora na perspectiva de inflação, apesar dos impactos favoráveis da apreciação do câmbio e da queda do preço internacional do petróleo", afirma a ata.
O BC projeta que, caso o dólar continue cotado na faixa entre R$ 2,50 e R$ 2,55, a manutenção dos juros básicos em 19% ao ano fará com que a inflação fique em torno de 4% em 2002.
Segundo o Copom, os juros praticados no mercado atualmente favorecem o aumento do consumo por parte de empresas e pessoas físicas, "podendo acarretar maior pressão sobre os preços".
Futuro das controladas locais é incerto
Analistas acham que a Enron tentará vender algumas de suas participações
RENÉE PEREIRA (Estado de S. Paulo 30/11)
O futuro das empresas brasileiras controladas pela norte-americana Enron ainda é uma incógnita para o mercado. Com a frustrante negociação de fusão com a Dynegy, as perspectivas de recuperação da companhia praticamente foram anuladas, se ela tiver de recorrer ao pedido de concordata. Neste caso, os ativos do Brasil seriam fortes candidatos à venda, já que a empresa precisará se desfazer de suas propriedades para honrar compromissos com seus credores, avalia o analista do Unibanco Sergio Tamashiro.
A companhia americana entrou no País em 1994 e hoje tem participação tanto no mercado de energia elétrica como no de gás natural. Um dos principais ativos no Brasil é a Elektro, distribuidora de energia que atende aproximadamente 1,6 milhão de consumidores do interior paulista. A empresa foi adquirida em 1998 com ágio de 99%.
A operação foi uma das mais bem-sucedidas no processo de privatização de grandes companhias energéticas. Superou, por exemplo, o ágio obtido na venda da CPFL (70,1%) e da Enersul (83,7%). Mas o negócio parece não ter dado o retorno esperado pela Enron. Há algum tempo, a empresa vem manifestando interesse pela venda da distribuidora, mas o preço não tem estimulado os investidores.
Com o pedido de concordata, porém, a empresa poderia afrouxar esse preço, avalia o analista do BBA Icatu Pablo Terra. Segundo ele, comprador não falta. Empresas como EDP e Endesa, por exemplo, já manifestaram interesse na compra da companhia, mas consideraram o preço alto. Terra argumenta, no entanto, que ainda é cedo para fazer afirmações, pois esse processo pode se complicar.
Especula-se no mercado a possibilidade de a Enron perder a concessão da Elektro. Mas, segundo advogados especialistas no setor, isso somente ocorreria se a Aneel entendesse que a prestação de serviços seria prejudicada ou que os problemas do controlador fossem afetar as condições financeiras da concessionária. Mesmo que o poder concedente retomasse a concessão, haveria a obrigatoriedade de indenizar a empresa, explicou um advogado da área.
Em nota, a Elektro afirma que a qualidade no atendimento aos seus consumidores é meta prioritária da empresa. Além disso, "uma eventual reorganização das atividades da Enron nos Estados Unidos não gerará impactos nas operações da Elektro, tendo em vista a independência de seus negócios no País."
Mas, para Marcos Severine, analista da Corretora Sudameris, o cenário aponta para a venda das empresas brasileiras. Segundo ele, a Enron poderá ter mais facilidade em se desfazer dos negócios associados ao gás natural, pois é um mercado em expansão. No Brasil, a norte-americana tem participação em cinco distribuidoras de gás no Nordeste, duas no Sul e duas no Sudeste. Além disso, detém parte do gasoduto Bolívia-Brasil. "No caso da distribuidora e das térmicas, ela poderá ter um pouco mais de dificuldade por conta dos problemas regulatórios", diz Severine. A usina térmica Eletrobolt, por exemplo, não está em plena operação até agora por conta de problemas no Mercado Atacadista de Energia (MAE), que não funciona.
Desde que iniciou suas atividades no Brasil, a Enron investiu mais de US$ 4 bilhões no País.
Energia: mudança de meta não aliviará calor
Ramona Ordoñez
A decisão do governo federal de rever as metas de consumo de energia para algumas regiões, como o Rio, não vai aliviar o verão dos cariocas, que só poderão usar o ventilador, em vez do ar-condicionado. A constatação foi feita ontem pelo coordenador do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, Maurício Tolmasquim. O especialista afirmou que, se realmente o Rio tiver uma nova meta, em comparação aos gastos de energia no verão passado, o carioca na realidade terá que conseguir uma redução do consumo de 15% a 19%.
– A nova meta, se for adotada, é melhor que a anterior, mas é insuficiente para resolver os problemas do verão dos cariocas – afirmou Tolmasquim.
O governo federal pretende fixar como nova meta de consumo para o Rio a média dos meses de maio a julho do ano passado, mais 5% ou 10%. Isso significa que, se o consumo de uma residência nos meses de inverno foi de 300 quilowatts/hora (kWh), agora poderá gastar 315kWh, se o percentual for de 5%, ou 330kWh, se for de 10%.
Aumento de consumo teria que ser de 20%, diz Coppe
Segundo Tolmasquim, se levarmos em conta que, no verão, o consumo no Rio aumenta em torno de 30% em relação ao inverno, isso significa que quem consumiu 300kWh nos meses de inverno tem um consumo médio de 390kWh no verão, no mínimo.
– Em relação ao que ele gastava de energia no verão, que era 390kWh, poder consumir agora 315kWh ou 330kWh vai representar uma redução de 15% a 19%, em média – explicou Tolmasquim.
De acordo com o especialista, para que o esforço de economia de energia do carioca durante o verão fosse igual ao esforço dos paulistas, na realidade a Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE) deveria fixar em pelo menos 20% a mais o consumo em relação à média dos meses de inverno, e não em 5% ou 10%.
Governo do Rio afirma que mudança não resolve
O secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Victer, apesar de achar positivo o governo admitir mudar as regras, diz que a alteração em nada resolve o problema para os setores residencial — especialmente a classe média – hoteleiro e de serviços, na área de cidades turísticas.
A Cerj informou ontem que, nos 66 municípios atendidos pela distribuidora no Estado do Rio, a economia de energia nos últimos cinco dias foi de 19%. Segundo a Cerj, devido às altas temperaturas nos últimos dias, a economia de energia tem sido cada vez menor. Na última terça-feira, foi de apenas 18,6%.