Importação de equipamentos, tarifas em moeda americana (apesar dos eufemismos), ameaça de perder lugar na fila das turbinas… Que triste fim para o país dos rios caudalosos. "Não faltam turbi …

Importação de equipamentos, tarifas em moeda americana (apesar dos eufemismos), ameaça de perder lugar na fila das turbinas… Que triste fim para o país dos rios caudalosos.


"Não faltam turbinas ao Brasil, faltam decisões"

Gerente de vendas da GE afirma que empresa espera por respostas para enviar equipamentos


PAULO SOTERO Correspondente


WASHINGTON – O deputado Jim DeMint, republicano que representa a cidade de Greenvile, Carolina do Sul, no Congresso dos Estados Unidos, teve de intervir recentemente junto ao Eximbank americano em defesa da decisão da General Electric de fornecer dezenas de turbinas a gás para projetos de termoelétricas no Brasil.


A reclamação, inspirada por empresas geradoras, era que a GE estaria privilegiando seus clientes no Brasil – Petrobrás e várias companhias estrangeiras, entre elas algumas americanas -, com a ajuda do agência oficial de crédito dos EUA, quando deveria estar vendendo as turbinas que fabrica nos Estados Unidos para projetos mais urgentes na Califórnia, onde o governo local já promove apagões programados.


O episódio ilustra a furiosa competição por equipamentos de geração de eletricidade que a crise energética do maior estado americano e os planos de expansão do setor nos Estados Unidos alimentam desde o início do ano.


Diferente do que afirmam altos funcionários das agências reguladoras do setor de energia no Brasil e altos funcionários da Petrobrás, não é por falta de turbinas que o Brasil deixará de construir a grande maioria das 48 termoelétricas que o governo previu no plano Brasil em Ação. Começaram na semana passada as entregas das primeiras máquinas destinadas a 15 dessas usinas, que o governo incluiu no plano de emergência. Todas devem entrar em operação até o fim do ano que vem.


"As pessoas não devem entrar em pânico por falta de equipamento", disse Gil Amengual, gerente de vendas de turbinas da GE para a América Latina, que vendeu mais de US$ 1,5 bilhão em equipamentos e services ao Brasil, no ano passado. Perplexo com as notícias da imprensa brasileira que apontam a Califórnia como o obstáculo para a compra de turbinas, ele diz que "o que está faltando são decisões sobre questões que afetam tarifas, licenciamento, contratos de compra de energia pelas distribuidoras e outros aspectos, e influenciam o interesse e as decisões de investimentos em geração pelas empresas do setor".


Segundo o executivo da GE, além das 54 turbinas vendidas no ano passado para vários projetos no País, a empresa já reservou várias outras (ele não diz quantas) para o mercado brasileiro. Elas já estão sendo produzidas em Greenville e em outras fábricas da empresa, nos EUA e na Hungria, para entrega em 2002 e 2003. O prazo normal da GE para entrega de novas encomendas é 2004. A Siemens, da Alemanha, outra grande do setor, também só tem turbinas para entregar em 2004.


Outros contratos – Amengual indicou que a empresa não esperará mais do que alguns dias para começar a destinar essas turbinas para outros contratos, se não houver decisões no Brasil. O alvo imediato é a Petrobrás, que já teria manifestado interesse em adquirir mais turbinas, para usinas próprias ou para ter mais controle em projetos com sócios estrangeiros.


"É importante entender a necessidade de reagir às oportunidades enquanto elas existem", disse Amengual. "Estamos certamente interessados em vender turbinas no Brasil, mas não estamos explorando a situação para conseguir melhor preço. Vendemos pelo mesmo preço no Brasil e nos EUA." Cada turbina GE-7FA, de 170 MW, custa US$ 40 milhões. O preço das menos potentes GE-6FA, de 70 MW, e GE-7EA, de 86 MW, é de US$ 20 milhões. As aeroderivadas saem por US$ 15 milhões. No preço não está incluído o pacote de equipamentos adicionais, como os geradores a vapor, e os serviços de instalação.


Lentidão – Foi por causa da falta de decisões sobre a política de preços do gás natural e de outros aspectos relevantes para as decisões de investimentos no setor, uma grande empresa energética sediada em Nova York redirecionou recentemente para a Califórnia duas turbinas GE-7FA, destinadas inicialmente para o Brasil.


Sem minimizar o impacto da crise energética da Califórnia e o crescimento da demanda por turbinas e outros equipamentos de geração nos EUA e em vários países, executivos do setor disseram que a lentidão e a indecisão burocrática e política, que no momento impedem decisões mais ágeis no Brasil para estimular os investimentos no setor e a compra das turbinas disponíveis para entrega, seguem o padrão da paralisia gerencial que jogou o Brasil na pior crise enegética.


"Se esperar, o Brasil perderá a vez na fila", disse um deles. As três empresas que lideram a produção das turbinas – a General Electric, a Siemens, e a franco-britânica Alstom – não vencem atender os pedidos. A GE, que recebeu 71% das encomendas mundiais de 75 mil megawatts de capacidade de geração por turbinas a gás feitas em 2000, faturou US$ 23 bilhões no ano passado. "Até a primavera (ou seja, até o final deste mês), entregaremos mais unidades do que produzimos durante todo o ano passado", disse o vice-presidente da GE International, Mark Little. A Siemens ficou com 23% do mercado.


Nos últimos meses, a empresa acrescentou 600 novos empregados aos 2100 que já tinha na fábrica em Greenville, para fabricar um total de 275 turbinas este ano – quatro vezes mais do que a produção de 1998.


Mudança – De acordo com a Datamonitor, empresa de pesquisa de mercado, as turbinas a gás representaram 42% dos 173 mil megawatts em novos pedidos de equipamento de geração de energia no ano 2000. A demanda deve continuar forte por vários anos porque, além da ser a solução para situações de emergência como as da Califórnia, as turbinas estão no centro de uma transformação importante da matriz energética de vários países, a começar pelos EUA.


No mês passado, o presidente George W. Bush apresentou um plano de construção de 1.300 a 1.600 novas termoelétricas nos próximos 20 anos, a maioria delas movidas a turbinas a gás. Nesse período, projeta-se um aumento da participação do gás natural na produção de energia nos EUA, dos atuais 16% para 36%. A mudança reflete não só a necessidade de expandir a produção, mas também a de substituir por fontes mais limpas as usinas a carvão e as nucleares que atingirão o limite de vida útil ao expandir a capacidade de geração. Hoje, 52% da energia elétrica dos EUA é derivada do carvão mineral. A energia nuclear representa 20%. (Estadão 14/6)


Só 14 térmicas vão sair do papel

São as que têm parceria com a Petrobrás. As demais dependem de acordo no preço do gás


DENISE CHRISPIM MARIN


BRASÍLIA – O governo federal poderá contar com a geração termoelétrica de apenas 14 projetos da iniciativa privada em parceria com a Petrobrás e de dois outros, de usinas independentes (as chamadas mercantis). O investimento nas outras térmicas, previstas no plano oficial de aumento de oferta de energia – com início de operação até o final de 2003 – depende da decisão do governo sobre a cotação dos custos do transporte do gás natural. A proposta preliminar sobre essa questão deverá ser negociada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) somente em 1.º de julho.


Ontem, a Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE) discutiu o programa da Petrobrás para o segmento termoelétrico. A relação das usinas foi apresentada pelo presidente da estatal, Henri Philippe Reichstul. A reunião foi somente preliminar. Na semana passada, o ministro de Minas e Energia, José Jorge, entregou à GCE a previsão de oferta adicional de energia até 2003, que mencionava a geração de mais 10 mil megawatts em usinas térmicas.


Segundo David Zylbersztajn, presidente da ANP, as 14 usinas que têm a participação da Petrobrás estão cobertas pelas regras da portaria nos ministérios da Fazenda e de Minas e Energia, que definiu um modelo de proteção para as termoelétricas contra os impactos da variação cambial sobre o preço do gás natural. Para essas mesmas usinas, o preço máximo doinsumo será US$ 2,581 por milhão de BTU (unidade britânica de medida do gás). Excluídas das regras da portaria, as duas termoelétricas mercantis, ambas no Rio de Janeiro, seguirão cláusulas negociadas diretamente com fornecedores.


As demais terão de esperar a decisão final dos ministérios sobre a proposta da ANP. Em princípio, o Programa Prioritário de Termoelétricas (PPT) previa a construção de 49 usinas. Restam, assim, ainda 35 projetos, que poderão ser beneficiados pela cotação em real do custo do transporte do gás. Com isso, o preço final do insumo tenderá a ser menor que US$ 2,581 – fato que, segundo técnicos da ANP, seria essencial para atrair investimentos para o setor térmico.


"Trabalhamos na linha de trazer o gás ao menor custo possível", declarou Zylbersztajn. "O preço máximo do gás é o previsto pela portaria, de US$ 2,581. Podemos ter o gás mais barato, se o transporte for cotado em reais", completou.


A questão, porém, será definida pelos dois ministérios. Durante a formulação da portaria, a Fazenda foi contrária à chamada "desdolarização" dos custos do preço do gás. Entretanto, acabou dobrada pela ANP em dois pontos: a extensão dos benefícios para usinas abastecidas pelo gás trazido por outras empresas, além da Petrobrás, e a ampliação para o gás de outros países, além da Bolívia.


Segundo Zylbersztajn, no início de julho deverá estar concluída a nova versão da portaria 169, regulamentando o primeiro desses pontos.



(Estadão 14/6)


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