O festival de besteiras que assola o país continua a pleno vapor! Leiam a reportagem à direita e entendam porque o modelo implantado no Brasil, que trata a transmissão e geração como se fossem atividades completamente diferentes, trará um enorme prejuízo ao país. O efeito citado na reportagem é uma amostra grátis do que acontece entre as regiões com hidrologias distintas, como é o caso da perda de 1800MW médios por falta de transmissão entre o Sul e o Sudeste. Embaixo, mais um festival de asneiras do Dr. David Zylbertajn… Salve-nos Stanislau Ponte Preta!
Governo estuda como fazer cortes em residências
A primeira ação na Justiça contra o racionamento. Pedro Parente fala do futuro do modelo energético. Dicas para economizar e escapar de cortes e sobretaxas. A crise energética no dia-a-dia. Os racionamentos na história. A preocupação com a desaceleração da economia. O que indica de fato o nível dos reservatórios. A política energética de Bush
DENISE CHRISPIM MARIN e LEANDRA PERES
BRASÍLIA – O ministro da Casa Civil, Pedro Parente, começa a analisar, a partir deste fim de semana, o detalhamento do plano de racionamento de energia. O principal tema de sua pauta será a definição de regras claras para os cortes de eletricidade em residências e empresas do Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Também será avaliado até que ponto o plano se limitará a essas regiões, sem atingir o Norte e o Sul do País.
O desafio do governo será criar uma regulamentação para as distribuidoras seguirem, toda vez que a questão for o corte de energia nas residências e nas empresas. Esses procedimentos poderão evitar, por exemplo, uma avalanche de processos judiciais e mais transtornos na relação entre distribuidoras e consumidores. Um dos tópicos ainda não definidos, segundo Parente, é a notificação aos consumidores antes de os cortes serem executados. Ainda não há definição sobre essa necessidade.
Norte e Sul – A inclusão das Regiões Norte e Sul no programa de racionamento dependerá da situação dos reservatórios de água de suas hidrelétricas. Se houver redução da capacidade de transferência da energia gerada nessas regiões para o Nordeste e o Sudeste, causada pela queda do nível de água, os consumidores locais também serão atingidos. O governo quer evitar, a todo o custo, o agravamento da situação, principalmente do Sudeste, já considerada crítica.
Pedro Parente e os demais integrantes da Câmara de Gestão da Crise Energética (CGCE) também já decidiram instalar mais três comitês técnicos. O primeiro, comandado pelo general Alberto Cardoso, terá a função de estudar o atendimento a áreas essenciais – hospitais, delegacias, corpo de bombeiros, etc. – no período de racionamento e também para a eventual necessidade de apagões.
Outro comitê vai tratar da adaptação do Mercado Atacadista de Energia (MAE) às novas regras. Trata-se de uma entidade privada que atua como bolsa, à qual as empresas recorrem quando não conseguem elevar o fornecimento de eletricidade pelas vias normais. Com o plano, o MAE terá de seguir regras específicas para comprar a energia economizada pelas empresas e para realizar leilões com os interessados numa quantidade adicional.
O terceiro comitê vai tentar amenizar os impedimentos à execução de obras emergenciais de geração de energia – como novas hidrelétricas e usinas térmicas -, impostos por razões ambientais.
Na primeira reunião da CGCE, na semana passada, o Ministério do Meio Ambiente sofreu críticas pelo atraso do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na avaliação de projetos de instalação de usinas. Ontem, Parente abrandou o discurso ao tratar a questão. Afirmou que o maior empecilho vem das procuradorias, e não dos órgãos federais.
Investimento no setor espera definição da tarifa de energiaMedida deve ser adotada com urgência pelo governo para evitar novas crises
CLÁUDIA BREDARIOLI
A definição da tarifa de energia e do preço do gás estão entre as medidas imprescindíveis de serem adotadas pelo governo com a maior urgência possível para que, a longo prazo, não haja novas crises no setor elétrico. Segundo especialistas, somente a partir desses dados seria possível esperar um forte aumento dos investimentos na geração e transmissão de energia elétrica.
São especialmente esses fatores que estão atrasando a criação das tão comentadas usinas termoelétricas, que demorariam cerca de dois anos para ficar prontas e poderiam trazer alívio ao fornecimento de energia no País. "Por enquanto, o governo está se fazendo de ‘gato’ para resolver a crise", diz o economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) Heron do Carmo, numa referência à prática de fazer ligações clandestinas para puxar eletricidade. "É preciso que sejam retirados todos os obstáculos ao aumento da oferta agora. É melhor até decidir com alguns erros do que não regulamentar."
O diretor-técnico da Co-Gerar, empresa carioca que há dez anos atua com o desenvolvimento de sistemas de co-geração de energia, Edison Tito Guimarães, concorda. Segundo ele, enquanto não houver possibilidade de variação do preço da energia a ser cobrado do consumidor, dificilmente o setor receberá os investimentos privados de que necessita. Guimarães compara, por exemplo, que em 1975 o preço da energia no País era de US$ 93,00 cada megawatt por hora (MWh) e, atualmente, está em US$ 48,00.
Ele lembra ainda que o Brasil produz 70% do gás natural que utiliza e por muitos anos foi auto-suficiente na produção dessa matéria-prima. "Além disso, o uso do gás não traz prejuízos às contas externas nem polui o meio ambiente", diz Guimarães.
Inflação – Em relação ao aumento do preço da tarifa, até mesmo Heron, que é coordenador do Índice de Preços do Consumidor (IPC) da Fipe, afirma que, se há necessidade real de aumento, é melhor que ela seja adotada agora, independentemente dos efeitos que essa decisão possa trazer aos índices de inflação. Segundo ele, a variação do custo de vida tornou-se um problema menor diante da gravidade da crise no setor elétrico: "Há dois problemas: gripe e aids. Não é difícil saber qual tem de ser resolvido primeiro", compara.
Segundo Heron, a decisão de sobretaxar a conta de luz mostra que o governo tem apenas uma visão de curto prazo. De acordo com ele, existe uma preocupação excessiva do governo em não atingir alguns setores como forma de evitar impactos negativos sobre a balança comercial. "Mas a questão da balança comercial não é mais grave que o problema da falta de energia, que afeta o crescimento físico do País", diz.
Heron comenta que as empresas de energia elétrica têm declarado que as tarifas no Brasil estão defasadas, o que estaria emperrando o investimento no setor. Para ele, o aumento por conta da sobretaxa deverá ser incorporado às contas de energia e não resolverá o problema da defasagem das tarifas das empresas, que continuarão pressionando por reajustes. Em julho, quando vencem os contratos das empresas do setor, deve ocorrer o um aumento de tarifas com reajuste próximo de 17%, como já foi autorizado em outras regiões do Estado. (Colaborou Francisco Carlos de Assis/AE)
Usinas interligadas aproveitam melhor a água
No rio Grande, na divisa de MG e SP, o que sai de um reservatório, alimenta outro
JOSÉ MARIA TOMAZELA
FRUTAL – A menor quantidade de água nos reservatórios, decorrente da falta de chuvas, não pode ser apontada, isoladamente, como causa da crise que levou o governo a adotar o racionamento de energia. Um bom gerenciamento do sistema pode elevar ao grau máximo o aproveitamento da água disponível sem o risco de apagões. Um exemplo é o reservatório da Hidrelétrica de Marimbondo, no rio Grande, divisa dos Estados de São Paulo e Minas Gerais. O volume de água é o mais baixo dos últimos 25 anos, mas as oito turbinas continuam trabalhando muito próximas de sua capacidade total, de 1.440 megawatts.
"O sistema é todo integrado e não há risco de termos que parar os geradores por falta de água", informa aos visitantes o engenheiro Luís Fernando Gonçalves, responsável pela operação da usina. A hidrelétrica do Marimbondo tem um dos quatro principais reservatórios de acumulação administrados pela estatal Furnas na bacia do rio Grande.
Visitantes – A área de alimentação dessa bacia foi uma das mais castigadas pela estiagem nos últimos 18 meses. A falta de chuvas baixou o volume útil da represa – líquido reservado para geração de energia – para apenas 8,8%. Entre os 24 principais reservatórios que acumulam água para gerar energia em todo o País, é o que tem o nível mais crítico.
Para se ter uma idéia do que isso representa, o reservatório da hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo em produção, operava quinta-feira com 92,45% de volume útil, ou seja, estava praticamente cheio. A represa de Sobradinho, no rio São Francisco, considerada crítica, tinha 25,99% de volume útil. A pequena reserva de água não impede que os geradores da usina de Marimbondo continuem consumindo, e liberando rio-abaixo, mais água do que recebe.
Na quinta-feira, a vazão era de 916 metros cúbicos por segundo e a afluência, ou entrada de água, era de 881 metros cúbicos. Aos visitantes – com a crise, aumentou o interesse do público pelo funcionamento da hidrelétrica – Gonçalves explica que a Operadora Nacional do Sistema (O N S) controla a vazão das barragens.
Paranaíba – Nos sistemas interligados, como o do rio Grande, uma represa alimenta a outra. As hidrelétricas de Furnas e de Mascarenhas de Moraes, localizadas ao longo do curso desse rio, estão com um volume útil maior de água, de 16,67% e 70,88% respectivamente. O líquido que liberam alimenta a represa de Marimbondo. Mesmo com o nível baixo, as turbinas podem continuar operando sem risco.
"Ter bastante água no reservatório apenas melhora a eficiência dos equipamentos, pois dá mais pressão", diz Gonçalves. Abaixo, a de Água Vermelha, tem 36,15% de volume útil e recebe o líquido que passou pelas turbinas de Marimbondo.
As águas do sistema Rio Grande juntam-se às do Paranaíba, que também possui quatro grandes reservatórios, e vão escoar para o sistema Paraná, onde ficam os reservatórios de Ilha Solteira e Itaipu. A bacia do Paranapanema, no sul de São Paulo, cujas represas estão com bastante água – média de 74% de volume útil – também é tributária de Itaipu.
Água rasa – Os sistemas não interligados por rios, o são pelo ar, através das linhas de transmissão e distribuição. "É como uma rede de pesca em que todos os fios estão em contato", exemplifica Gonçalves. Um chuveiro ligado no Rio Grande do Sul, por exemplo, pode gerar uma ordem para que a usina de Marimbondo produza alguns quilowatts a mais. Um pouco mais de água sairá da represa para aumentar a produção de um dos geradores.
O lago de Marimbondo, que cobre uma área de 50 milhões de metros quadrados entre os municípios Frutal e Fronteira, em Minas, e de Icém, no lado paulista, já se afastou cerca de 200 metros das margens, prejudicando as atividades de lazer.
No restaurante Peixe Vivo, próximo da barragem, os turistas não vêem há mais de um ano a água jorrar pelas comportas, segundo o garçom Antônio Firmino, de 51 anos. "É muito bonito ver a água despencando, mas agora está tudo seco", diz Firmino.
Prainha – No Clube Náutico de Marimbondo, os barcos espalham-se pela orla ressequida, coberta de mato. Proprietários de lanchas evitam usá-las porque a represa está muito rasa e há risco de encalhe. A rampa usada pelas embarcações está toda fora dágua. "Os banhistas nem estão frequentando o clube", afirma o presidente Augusto Bailão Júnior. Nunca, desde que a náutica foi fundada, em 1985, a represa ficou tão baixa.
O aposentado Sílvio Fernandes lembra que, nas épocas de cheia, a água chegava até perto dos chalés. "A gente nadava aqui ao lado", relembra. No condomínio de chácaras, uma delas do ex-ministro Antônio Cabrera, as famílias limitam-se a fazer churrascos e jogar cartas. A prainha ficou imensa, cheia de cascalho e pedras, de uso impraticável.
Na hidrelétrica, a ordem do governo para economizar energia fez muitos adeptos. Os holofotes que iluminavam o mastro com as bandeiras foi desligado. O grande salão onde operam as turbinas permanece com as luzes apagadas durante o dia. A claridade provém de telhas translúcidas instaladas no teto. Apenas a sala de controle, que funciona de forma ininterrupta, fica toda iluminada.
A iluminação externa das alamedas e avenidas foi reduzida ao mínimo necessário para garantir a segurança dos funcionários. "O racionamento é bom, pois ajuda a poupar a água, que é nossa matéria-prima", comenta Gonçalves.
Na sala dos geradores, o barulho das oito turbinas incomoda. Cada uma está gerando cerca de 180 megawatts, o suficiente para iluminar uma cidade como São José do Rio Preto e suas adjacências. "Estamos com boa produtividade", diz o técnico. As chuvas dos últimos dias não alteraram em nada o nível da represa. Mas na usina, são poucos os que acreditam em apagão.
"Só se houver um acidente com as linhas de transmissão", ressalva a recepcionista Tânia Helena Martins. Uma opinião comum a funcionários da usina, que preferem não acreditar, ainda, na possibilidade dos apagões, embora torçam por chuvas capazes de fazer fluir a água dos rios dessa região dominada por hidrelétricas.
USARAM A ÁGUA DO FUTURO (JB online 20/5)
NAILA OLIVEIRA
RIO – "E agora estão querendo culpar São Pedro". Foi o que disse Olavo Cabral Filho, ex-superintendente de Engenharia de Transmissão de Furnas e diretor da ONG Ilumina – organização não-governamental, apartidária, que se preocupa com os rumos que estão sendo adotados para o setor elétrico. De acordo com a entidade, o problema de energia elétrica no Brasil passa, sobretudo, pela falta de conscientização do próprio governo, que está perdido no jogo político e "mais uma vez alia a arrogância com a mentira".
As declarações do diretor da Ilumina se referem aos números divulgados ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, os quais estão sendo utilizados para demonstrar que o problema da falta de energia que hoje preocupa o brasileiro é fruto de má administração do passado, principalmente dos governos de Itamar Franco e Fernando Collor.
Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a capacidade instalada de megawatts no Brasil passou de 8.943 MW entre 1986/1990, para 5.897 MW entre 1991/1995 e para 15.502 MW entre 1996/2000. De acordo com a Ilumina, os 15.502 MW (1996/2000) divulgados como capacidade instalada nova incluem importações da Argentina e Uruguai (que são capacidades instaladas, mas de outros países), "que nem conseguiram ser totalmente realizadas, pois havia limitações de transmissão".
Incluem também, baseados em dados do Siese (Eletrobrás), uma capacidade instalada de 1.000 MW associada à linha de transmissão que interliga os sistemas Norte – Sudeste.
"Ora, linhas de transmissão não geram energia", ressaltam os diretores da ONG. "O que está associado à LT Norte -Sul é um aumento de oferta de energia garantida que é radicalmente distinto de aumento de capacidade. É apenas uma maleabilidade extra do sistema em alocar recursos hídricos. Não há novas usinas".
Para identificar corretamente a quantidade de megawatts disponibilizados em cada período, seria necessário, de acordo com os especialistas da organização, comparar o consumo com a capacidade instalada e não apenas a capacidade, como mostra a Aneel.
Esse estudo foi feito pela Ilumina. O ano de 1985, por exemplo, apresentou aumento de consumo de 10%, e aumento de capacidade de 7% em relação ao ano anterior: déficit de 3%. No acumulado da década de 80, este déficit chegou a 6,5%.
Se analisada a década seguinte, este índice aumenta surpreendentemente, pois a relação consumo/capacidade registrou déficit ano a ano. Mesmo enfrentando aumentos de consumo muito menores (o recorde foi 6% em 97) a década de 90 fez feio, com destaque para o ano de 1998, com déficit de mais de 12%.
"Na realidade, toda essa comparação de consumo e capacidade, tanto feita pela Aneel como a apresentada aqui, está impregnada de um erro conceitual grave. A bem da verdade, o que deveria ser comparado com o consumo é a "energia garantida" das usinas e não a capacidade instalada. Essa grandeza é que dá a real capacidade de gerar energia sob um critério de garantia ou confiabilidade. Esse dado, muito comum na década de 80, agora está abandonado, pois foi justamente o critério de garantia que foi relaxado e modificado pelo modelo de mercado. Nem a Aneel nem o Ilumina conseguem mais fazer essa análise, pois quem resolve qual é o critério de garantia é o mercado. E o mercado, infelizmente senhores consumidores, decidiu que a garantia é nenhuma", denuncia Olavo Cabral.
A demonstração de pouca habilidade para enfrentar o problema de geração e transmissão de energia é, também na opinião do coordenador do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, Maurício Tolmasquin, uma característica forte do governo brasileiro.
"O governo está dando demonstrações de que está perdido dentro do Programa de Racionamento, jogando com a população", disse Tolmasquin em relação à decisão de voltar atrás na aplicação de multas para os consumidores que não atingirem as cotas de redução da utilização de energia e ao adiamento para 23 de maio da definição, pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), das medidas para o corte – apenas oitos dias antes da data estipulada para o início dos apagões.
"Há poucos meses, antes do final de 2000, o governo negava a possibilidade de falta de energia para o país. Pouco depois, falou apenas em medidas de racionalização do consumo. Em seguida, racionar por cotas e com aplicação de multas. O que mais será?", pergunta.
Site relacionado www.ilumina.org.br
SALTO NO ESCURO
Zylbersztajn quer tarifaço permanente
Se entregarmos o futuro da crise ao "genro", seremos piada mundial. Como consegue um país com a energia renovável mais barata do planeta ter a tarifa mais cara do mundo?
Para ele, medidas podem ser parâmetro de novo modelo de tarifas, que leve em conta o uso na hora de pico
KENNEDY ALENCAR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), David Zylbersztajn, defende que o tarifaço energético seja permanente, com adaptações. A sobretaxa de até 200% para os maiores consumidores residenciais e a manutenção da tarifa normal para quem gasta até 200 kWh/mês são os núcleos do plano de racionamento. Para ele, esses parâmetros poderiam ser usados em um novo modelo tarifário. "Quem consumir no horário de pico paga mais, como na conta de telefone. Defendo isso mais o princípio de cobrar mais de quem gastar mais energia", afirma, referindo-se ao sistema da França. Naquele país, Zylbersztajn, engenheiro de 46 anos, fez doutorado em economia da energia. Segundo ele, 70% dos consumidores ainda pagariam menos, como no plano que o presidente Fernando Henrique Cardoso adotou. "Todo mundo pagar igual é como não dar progressividade ao Imposto de Renda." Revela que o governo estuda acabar com a obrigatoriedade de terno e gravata no trabalho: "O ar-condicionado, que gasta muita energia, poderia funcionar numa potência menor". Para Zylbersztajn, foi "imaturidade e irresponsabilidade" do presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Horacio Lafer Piva, dizer que o plano faria a indústria "regredir ao Terceiro Mundo" por proibir novas ligações elétricas. Avalia que, se o plano for bem-aceito, deve durar até março do ano que vem, para evitar apagões em 2002. Nega que isso tenha motivação eleitoral. Ex-secretário de Energia do Estado de São Paulo, ele afirma que não alertou o presidente do risco de crise porque estava cuidando da ANP, órgão que dirige desde 1998. "Agora, aparecem especialistas que fizeram alertas. Não há como individualizar culpas. Foi um sistema, com órgãos que interagem, que falhou." Leia os principais trechos da entrevista.
Folha – O sr. apresentou a proposta que virou o plano de racionamento e interveio quando FHC elaborava seus primeiros planos. Como convenceu o presidente? David Zylbersztajn – Como integrante do governo e cidadão, seria omissão não dar opinião. Apesar de não estar diretamente na área de energia elétrica, fiz carreira no setor. O apagão para atender à meta de 20% tinha de ser de seis a oito horas no momento em que as pessoas consomem mais energia. Não dá para medir a consequência disso para o emprego, a produção industrial, o atendimento hospitalar. Tinha o dever de falar que o apagão seria um desastre literal, não uma figura de linguagem. Corte de pouca duração programado não adianta porque tem efetividade muito baixa. É fácil o cidadão ou o comércio reprogramar a rotina e fugir dele. Se o corte não for programado, os semáforos apagam e acontece um acidente em cada esquina.
Folha – Por que o sr. sugeriu que não fosse aplicado o sistema de multas, mas o tarifaço? Zylbersztajn – Havia erro conceitual, injustiça social e causaria inadimplência. Não eliminava o apagão e o consumidor ficaria "apagado" porque não pagou.
Folha – Sua proposta não é parecida, uma multa disfarçada? Zylbersztajn – De jeito nenhum. A multa ia até 45 vezes. Começava com cinco vezes a tarifa, para qualquer consumidor. No sistema adotado, até 200 kWh, a meta de 20% só serve para ganhar bônus. Até esse limite, está 70% da sociedade. Agora há premiação e sobretaxa. E, acima de 501 kWh, a sobretaxa atingirá 4% da população. Será atingido quem consome mais, tem mais espaço para economizar e dinheiro para pagar.
Folha – Com adaptações, esse plano poderia servir de base para um novo sistema tarifário? Zylbersztajn – Sim. E, para o setor residencial, não só pelo critério do consumo, mas pelo da hora. Na França, há a chamada tarifa amarela, que considera a hora. Quem consome no horário de pico paga mais, como na conta de telefone. Todo mundo pagar igual é como não dar progressividade ao Imposto de Renda.
Folha – Em quanto tempo isso seria implementado? Zylbersztajn – Demora porque tem de mudar os medidores.
Folha – Seria possível começar no governo FHC? Zylbersztajn – Poderia ser tentado. Defendo como uma questão de justiça social. Quem consome mais é quem tem mais renda. Hoje, usa-se um dinheiro de todos para favorecer uma parcela menor da sociedade.
Folha – O sr. tem uma idéia de custos e parâmetros? Zylbersztajn – O parâmetro estamos usando agora. Com um consumo mensal de 200 kWh, abarcamos 70% dos consumidores, que continuariam a pagar menos.
Folha – Os valores seriam semelhantes aos do racionamento ou deveriam ser suavizados? Zylbersztajn – Os valores hoje têm correlação próxima ao custo da escassez da energia. Logo, faz sentido tê-los como parâmetro.
Folha – As distribuidoras de energia dizem que o plano não dará certo, que é complicado e que os apagões serão inevitáveis. Zylbersztajn – É muito mais fácil para as distribuidoras fazer o apagão. É a teoria da comodidade.
Folha – Se não houver queda de consumo, apesar da sobretaxa, o governo tem um plano B? Zylbersztajn – São os apagões, que podem ser mais suaves.
Folha – Até quando deve durar o plano? Acaba no final de outubro ou se estende até março? Zylbersztajn – A duração dependerá de três fatores. Da adesão da sociedade, o que não tenho dúvida de que ocorrerá, das chuvas e dos projetos de aumento de oferta de energia. Haverá uma série de medidas. Elas darão uma margem para não precisarmos repetir isso em 2002 e termos uma situação confortável em 2003.
Folha – Se for bem-aceito, deve se estender o plano para fevereiro, março do ano que vem? Zylbersztajn – Sim. O presidente até falou de um conceito chinês: da crise, tirar um resultado positivo. A sociedade vai ter desenvolvido uma cultura contra o desperdício. A população vai perceber que ela pode, sem abrir mão do conforto, gastar menos energia e pagar menos. Boa parte das indústrias vai se tornar mais competitiva, porque produzirá o mesmo gastando menos energia.
Folha – Evitar os apagões em 2002 tem relação com a eleição e com a aspiração de FHC de terminar com boa imagem o mandato? Zylbersztajn – Não houve preocupação se era ano eleitoral porque o problema se colocou hoje. Se apagão tem impacto eleitoral negativo? Tem. O melhor eleitoralmente e para o governo é não esticar até março. Por uma questão de responsabilidade, se precisar esticar, estica.
Folha – O plano tem medidas que vão afetar o PIB. A Fiesp diz que a indústria pode abortar o crescimento e "regredir ao Terceiro Mundo". Está certa? Zylbersztajn – Falaram antes de ver as medidas. Cadê a solução, Fiesp? Ah, vão dizer "estamos há anos falando". Não adianta agora. Querem apagão? Foi muito precipitada a opinião, no dia do anúncio do plano. Tem certa dose de irresponsabilidade e de imaturidade nessa história.
Folha – Da Fiesp? Do seu amigo Horacio Lafer Piva? Zylbersztajn – Sim, da Fiesp, do meu amigo Horacio Piva, inclusive. Vai entender primeiro direito o que está acontecendo. Tem de ver o conjunto do Brasil. O Brasil não é a Fiesp.
Folha – Por que não houve a diversificação da matriz energética? Zylbersztajn – Até um ano e pouco atrás, o Brasil batia no peito e dizia: "Junto do álcool, o Brasil é o país que tem a matriz energética com mais recursos renováveis". Acho que tem de ser feita, mas não conheço ninguém, inclusive eu, que defendia a ampliação da matriz com combustíveis fósseis que emitem gases e aumentam o efeito estufa. Devemos ter alternativas complementares ao setor hidrelétrico, que deve continuar a ser a menina dos olhos.
Folha – Ser o principal autor das medidas lhe rendeu críticas de ser eminência parda do setor e de usar o fato de ser genro do presidente para interferir em assuntos fora de sua alçada. Zylbersztajn – Não quero ser eminência parda de nada. Ninguém é obrigado a aceitar minha opinião. Ninguém é presidente por acaso. Quem é presidente sabe calcular riscos, fazer avaliação e tem outros interlocutores.
Folha – No governo, diz-se que ser genro de FHC facilita a relação com ele, mas o impede, por exemplo, de ser ministro de Minas e Energia. O sr. é beneficiado ou prejudicado? Zylbersztajn – Fora a relação pessoal, profissionalmente me dá muito mais trabalho. Prejudica mais do que ajuda. Com exceção deste momento, só dou opinião quando chamado. Nunca pleiteei nem tenho intenção de ser ministro de Minas e Energia.
Folha – Em 1994 e 1998, quando FHC ganhou a eleição, ele usou o discurso de que a oposição não era capaz de gerenciar o Brasil. A crise energética colocou essa capacidade em xeque. Zylbersztajn – E os outros setores? Veja os indicadores da educação, da saúde, das telecomunicações, de petróleo. O gerenciamento não pode ser generalizado pela exceção, mas pela maioria.