O parafuso frouxo e o parafuso a menos Muitos parafusos já se afrouxaram no setor elétrico e ninguem percebeu. Porque é que então, só agora, uma ocorrência corriqueira derruba todo o suporte ener …

O parafuso frouxo e o parafuso a menos

Muitos parafusos já se afrouxaram no setor elétrico e ninguem percebeu. Porque é que então, só agora, uma ocorrência corriqueira derruba todo o suporte energético do país?


O ILUMINA explica porque:


1. A falta de investimentos em geração que causou o racionamento é da seguinte ordem de grandeza. Na década de 80 investia-se aproximadamente R$ 10 bi anuais em projetos de novas usinas. No período 95-2000 esse valor cai para a metade. Parelamente, na transmissão, os investimentos despencam de uma média de R$ 4 bi para apenas R$ 0,6 bi anuais. Algum efeito era esperado por conta dessa irresponsabilidade.


2 – As autoridades do setor, se esforçam em desvincular o apagão ao racionamento evitando que mais essa desastrosa consequência seja associada à política adotada pelo governo. Apesar desse esforço, as duas consequências podem estar conectadas. Nesse momento cumpre-se um plano cujo o objetivo é reservar o máximo do recurso hídrico para enfrentar o próximo período seco. Assim, algumas usinas hidráulicas estão funcionando com um mínimo de unidades sincronizadas. Essa configuração de despacho, se por um lado cumpre um objetivo energético, traz problemas para a estabilidade elétrica do sistema de transmissão. Como se sabe, em sistema fortemente interligado, insuficiências de reserva girante podem trazer condições críticas para a estabilidade do sistema na ocorrência de contingências simples.


3 – A regulagem do sistema de proteção que define as características de resposta dos relays e disjuntores que possibilitam o isolamento do resto do sistema é feito com base em estudos prévios, alguns até na fase de planejamento, e que por conta da política de esvaziamento dos recursos humanos do setor, não são mais feitos com a frequencia e antecedência necessárias. Podemos dizer, com pouca possibilidade de erro, que o sistema de proteção não estava preparado para enfrentar a configuração de despacho vivida no dia 21, esta, totalmente influenciada pela estratégia de racionamento.


4 – Resta perguntar no que as modificações do modelo propostas pelo governo afetam essa questão. Entre elas, desponta a separação do sistema de transmiissão e geração, propondo a quebra da estrutura empresarial de FURNAS e CHESF. Como se sabe, o nível de remuneração proposto para esse segmento, que, por acaso, continuará nas mãos do estado, é insuficiente. Com menos recursos e sem poder contar com a natural economia de escala nos usos dos recursos da parcela de geração, corte de custos terão que ser feitos. O resultado será menor nível de manutenção, menos investimentos, menos estudos. Enfim, mais riscos.


As propostas do governo, apesar do reconhecimento implícito de descaminhos anteriores, insistem nessa segregação com apenas um objetivo. A implantação do modelo mercantil, que trata a energia como uma mercadoria qualquer. Não há razões elétricas que justifiquem tal quebra. E o pior! A suposta "neutralidade" do sistema de transmissão em relação à geração, hipótese básica do modelo de mercado, não é verificada no Brasil. Dado o papel de realocação de recursos hídricos entre bacias com diversidade hidrológica exercido pelo sistema interligado, a transmissão afeta a quantidade de energia ofertada e portanto não é neutra em relação à geração. Ponto final!


Portanto o problema não é o parafuso frouxo mas sim o parafuso a menos das cabeças das autoridades do governo FHC que insistem em implantar no Brasil, no maior sistema hidroelétrico do mundo, um modelo só aplicável a sistemas térmicos, e que mesmo assim, tem mostrado diversos problemas. Vide califórnia.


Parafuso frouxo teria iniciado apagão no país – Globo 24/01

Valderez Caetano, Ramona Ordoñez e Ronaldo D’Ercole


BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO. Um parafuso frouxo que fixava o espaçador de um dos cabos de uma linha de transmissão da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira até Araraquara, em São Paulo, soltou-se e desencadeou o apagão que, segunda-feira passada, deixou sem energia dois terços do Centro-Sul do país. A usina pertence à estatal Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP). Em relatório divulgado ontem, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) concluiu que, sem a sustentação desse parafuso, o cabo se rompeu e provocou curto-circuito na linha ao esbarrar num outro cabo. O curto provocou sobrecarga na linha, fazendo com que o sistema de proteção desligasse as duas linhas.


O sistema passou a usar, então, duas linhas restantes, que foram incapazes de distribuir adequadamente a energia acumulada, ficando sobrecarregadas, e também sendo desligadas automaticamente. A usina, que tem seis linhas de transmissão, estava operando com apenas quatro porque duas estavam em manutenção autorizada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).


Com isso, a Aneel abriu um auto de infração contra a CTEEP e o ONS, considerados responsáveis pelo apagão. Eles agora têm 15 dias para se defender. A CTEEP poderá ser multada em R$ 8 milhões e o ONS, em R$ 3 milhões.


A conclusão da Aneel foi anunciada depois que o órgão analisou os laudos apresentados pela CTEEP, ONS e Furnas – esta última, inicialmente, considerada isenta de culpa. A falha das duas linhas de transmissão foi atribuída à CTEEP. Já o ONS foi responsabilizado pela propagação do apagão. Segundo a Aneel, o operador não poderia permitir que uma empresa de energia elétrica com linhas de transmissão tivesse, naquele momento, duas em manutenção. Com o rompimento de duas linhas, o sistema não conseguiu transmitir energia.


Mauro Arce pedirá nova perícia e deve recorrer


A outra falha do ONS foi o fato de o sistema não ter sido religado rapidamente após o blecaute. Isso fez com que Rio e São Paulo ficassem mais de quatro horas sem energia. Uma das atribuições do ONS, segundo a Aneel, é dispor de um sistema auxiliar a ser acionado em caso de colapso parcial ou total do sistema.


– O back-up , sistema auxiliar que deveria ter funcionado, não funcionou – disse José Mário Abdo, diretor da Aneel. Ele afirmou que, no caso de Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, o mecanismo de ligação automática funcionou. Agora, será investigado por que o sistema foi eficiente em algumas áreas e falhou em outras.


– Não é esse o padrão de desempenho que se espera do sistema de energia elétrica. É preciso proteger a população contra esse tipo de incidente.


O secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce, disse que não há como ter certeza de que foi um afrouxamento no parafuso a causa da ruptura do cabo da linha de transmissão de Ilha Solteira. Arce disse que pedirá nova perícia. O secretário também deve recorrer contra a multa da Aneel contra a CTEEP.


Já o presidente do ONS, Mário Santos, informou que, pelas análises, constatou-se que ocorreu uma falha no sistema de proteção da transmissão de Ilha Solteira.


Plano de segurança está 6 meses atrasado – Globo 24/01

BRASÍLIA. O ministro de Minas e Energia, José Jorge, afirmou ontem que o governo vai averiguar por que o plano de segurança do setor elétrico, que começou a ser implantado em março de 2000 e que deveria ter sido concluído em julho do ano passado – ou seja, há seis meses – não funcionou esta semana, quando ocorreu o blecaute em dez estados e no Distrito Federal. O governo federal investiu R$ 16 milhões no sistema e a iniciativa privada deveria investir outra parcela para garantir a segurança.


– Vamos ver o que foi e o que não foi implantado. Ainda existem algumas medidas a serem efetivadas – disse José Jorge.


Quando foi lançado, em março de 2000, pelo então ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, o sistema foi anunciado como um potente esquema de emergência baseado em Controladores Lógicos Programáveis (CLP). Na prática, trata-se de um sistema de computadores para proteger e detectar problemas no sistema.


Os dois responsáveis pelo programa, o Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel), da Eletrobrás, e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) eximem-se de qualquer responsabilidade pelo apagão da última segunda-feira. O assistente da diretoria da Cepel Fernando Chagas disse que o centro de pesquisa deu só apoio técnico, uma espécie de consultoria para o ONS, mas não acompanhou a implantação do programa de segurança.


Para uma fonte do ONS, o sistema de segurança funciona. Mas, quando ele foi implantado, a Usina de Ilha Solteira, em São Paulo, não foi incluída no programa porque supostamente não apresentava riscos.


– O plano de segurança não previu fragilidade na área de Ilha Solteira – disse a fonte do ONS.


Já a área técnica do ONS explicou que um defeito como o que ocorreu na Usina de Ilha Solteira na segunda-feira não pode ser detectado pelo órgão, que não tem capacidade técnica de perceber problemas físicos nas linhas de transmissão. Segundo essa fonte, o que o ONS fiscaliza é se as empresas estão operando dentro dos limites de segurança impostos pelo operador.


Ontem, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou que será criado no Ministério de Minas e Energia um grupo de alto nível, com participação de pesquisadores, que fará uma avaliação e apresentará sugestões para aprimorar as políticas para o setor elétrico. O presidente considerou precipitada qualquer avaliação negativa sobre a eficiência do sistema de energia do país antes do término das investigações sobre o blecaute de segunda-feira. (Valderez Caetano e Cristiane Jungblut)


Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *