O ENGENHEIRO ELETRICISTA SÉRGIO AGENOR BEBIANNO BARBOSA
No dia 17 de fevereiro de 1999 faleceu Sérgio Barbosa. Claro na memória está o momento em que o vi pela primeira vez. Ele era quintanista da Escola Nacional de Engenharia do Largo de São Francisco. Discursava na assembléia estudantil realizada na grande sala 300 do velho prédio. Corria abril ou maio de 1956. Agitava-se a cidade com mais uma greve estudantil contra o aumento das passagens do bonde. Sérgio sofrera agressões da policia militar durante as agitações na frente da UNE, na Praia do Flamengo.
Em 1960 Sérgio, retornado da Inglaterra, deu-nos aulas sobre projetos de grandes hidrogeradores. A certeza do crescimento econômico do país contagiava todos nós. Sérgio trabalhava em Furnas, jovem empresa de economia mista onde convivia com o pequeno núcleo original liderado por John Cotrim. Se tivessem feito uma pesquisa de expectativas entre os profissionais de ciência, tecnologia e engenharia do país naquele sexagésimo ano do século, a maioria absoluta, quiçá a unanimidade, teria afirmado que 40 anos depois a economia do Brasil seria, não a oitava ou nona, mas a terceira ou quarta do planeta, com avançada justiça social e independência econômica. Convivíamos com muitas oportunidades de emprego, salários superiores aos nossos colegas europeus e, sobretudo um sentimento desaparecido passados 40 anos: esperança.
Sérgio retornou a Furnas no inicio do anos setenta, após período de trabalho na industria privada de bens de capital para o setor elétrico. Presenciou nova fase de euforia e de renovada esperança no setor elétrico, apesar dos primeiros sintomas da perda crescente da autonomia gerencial de Furnas pela ação autoritária da Eletrobrás num ambiente de aparelhamento fisiológico comandado pelos grandes fornecedores de bens e serviços. Convivemos no auge do entusiasmo e da volúpia executiva de uma equipe extremamente jovem, competente e ética na área de engenharia de projetos elétricos de sistemas de geração e transmissão. Era a equipe "Greta Garbo" que, nesse final de milênio, dirigiu-se rapidamente para "Irajá", desfalcada, mais velha, desesperançada, sufocada por chefias para as quais a ética passou a ser parâmetro secundaríssimo.
A partir de 1974 Sérgio passou a prestar serviços ao setor elétrico, levando excelência e objetividade a área tão sujeita – como dizia Sérgio – a "bull shits" tecnológicos, como aquela de serviços de inspeção e qualidade de equipamentos elétricos de geração e transmissão em extra alta tensão. Para Furnas, decidida sua gerência que tais estudos seriam realizados no país, foram produzidos também, entre 1975 e 1977, trabalhos inéditos sobre barramentos rígidos e espaçamentos em subestações de alta e extra alta tensão, bem como extensa modularização dos projetos de subestações de alta e extra alta tensão da empresa.
Os remanescentes em Furnas que ainda vislumbram teimosamente a oportunidade da sua transformação em empresa pública e cidadã de alto nível gerencial e técnico, deveriam lembrar-se de Sérgio, registrando enfaticamente sua presença na memória.
Olavo Cabral Ramos Filho
22/02/1999