A implosão pode estar próxima Quem não acompanhou o que foi feito no setor elétrico no passado e lê a entrevista do Presidente da CPFL, da ABDIB e as declarações da ABRADEE, pode, em tese, …

A implosão pode estar próxima


Quem não acompanhou o que foi feito no setor elétrico no passado e lê a entrevista do Presidente da CPFL, da ABDIB e as declarações da ABRADEE, pode, em tese, concordar. Entretanto, essa é uma visão parcial do problema, e como não podia deixar de ser, é apenas a visão das empresas . Como análise capaz de focar o ponto crucial, apresenta uma "amnésia" muito preocupante. "Tem que haver respeito pelo capital? ". Evidentemente! Mas para onde foi o respeito pelo consumidor ? Convenhamos! O que mais se viu nos últimos anos foi o direito do consumidor ser vilipendiado! De 1995 a 2002 a tarifa média residencial no Brasil subiu 166% contra uma inflação de 85%. O racionamento de 2001 é recorde no mundo e dados semelhantes só são observados em países em guerra! Como entender que o consumidor deve pagar por uma energia não consumida? Além desse enorme problema, o que é estranho é a "cegueira" generalizada que não percebe que o modelo de mercado, tal como foi imaginado, não funciona e, apesar de toda a incompetência da ANEEL, não se pode atribuir toda a culpa a ela. Caros executivos, olhem para seus balanços e reparem no crescimento de gastos com os "encargos do sistema" e outros que não correspondem a custos reais. São todos o custo do modelo. Os preços mínimos das empresas que hoje lhes pertence foi calculado projetando preços de energia próprios de países de base térmica e portanto, vossas aprovações silentes foram, no mínimo, ingênuas! Como temos dito: Não é qualquer sistema elétrico que é passível de se adaptar às regras de mercado livre. Seguramente o nosso é um deles. Considerada nossas particularidades, essa experiência é arriscada e solitária. Notícias abaixo do Canal Energia



Wilson Ferreira Jr., presidente da CPFL: "Tem que haver respeito pelo capital"


Em entrevista ao CanalEnergia, o executivo critica a decisão da Aneel de basear a remuneração das empresa nos ativos imobilizados

Oldon Machado, Entrevistas


04/09/2002


A divulgação da base metodológica para remuneração das empresas de distribuição pode causar um novo trauma no setor. A decisão da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) de basear o retorno do capital investido pelo custo de reposição dos ativos foi diretamente de encontro à intenção das distribuidoras, que pleiteavam como base o valor investido na época das privatizações.


A forma escolhida pelo órgão regulador, que pautará o processo de revisão tarifária a partir de 2003, vem especialmente num momento de apreensão para o setor, onde investidores estrangeiros se posicionam para se desfazer de ativos no país. A ameaça de mudanças estruturais na condução da política energética com um novo governo coloca uma interrogação no que pode acontecer a partir do próximo ano.


É esse quadro pouco animador que o presidente da CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz) avalia em entrevista exclusiva ao CanalEnergia . Wilson Ferreira Jr. se disse surpreso com a decisão da Aneel sobre a remuneração das empresas, que pode afugentar ainda mais os investidores do setor elétrico brasileiro. "Se não houver remuneração adequada do capital, não haverá aporte de recursos no país", afirma.


CanalEnergia – Como o senhor poderia avaliar os impactos diretos da decisão da Aneel, que baseia a remuneração das distribuidoras no custo de reposição dos ativos?


Wilson Ferreira Jr. – Essa decisão diminui sensivelmente a capacidade de recomposição das distribuidoras. As empresas foram compradas por valores baseados na capacidade de fluxo de caixa descontado a longo prazo. O próprio PND (Programa Nacional de Desestatização) estabelecia a obrigatoriedade de adoção desse parâmetro, e em relação ao que a privatização considerou anteriormente, não foi um bom sinal. Se este regime de remuneração fosse adotado na época das privatizações, certamente os preços seriam outros, bem menores e sem pagamentos de ágio . A Abradee (Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica) estava negociando há meses com a Aneel novas perspectivas para a remuneração.


CanalEnergia – Então a decisão da Aneel surpreendeu?


Wilson Ferreira Jr. – Sem dúvida, as distribuidoras foram pegas de surpresa. Acho que a Aneel se precipitou com essa decisão, que certamente não foi a melhor e veio particularmente num momento muito ruim para as empresas e para o setor como um todo. Tivemos uma teleconferência entre os representantes da Abradee para discutir justamente os avanços na discussão dessa questão. As empresas não consideravam a possibilidade de a proposição da Aneel ser validada integralmente. Entre outras conseqüências, isso pode afugentar o capital estrangeiro do país, pois desloca o risco diretamente para o acionista.


CanalEnergia – Dá para imaginar uma fuga de investidores com o uso do ativo imobilizado como base de remuneração?


Wilson Ferreira Jr.- As empresas estrangeiras, da forma como vieram e se instalaram, podem até ficar independentemente disso. Mas é preciso que haja uma política para mantê-las aqui. Elas não vieram para especular, e sim para se estabelecerem a longo prazo. É bom lembrar que esses investidores são grupos empresariais mundiais, que podem investir tanto no Brasil quanto em qualquer outra parte do mundo. Mas acredito que o setor continuará sendo atrativo. Um exemplo disso são os fundos de pensão, que vêem no setor elétrico possibilidades de investimentos seguros, embora não tão rentáveis, se comparados a outros ativos.


CanalEnergia – A medida pode alterar os planos de atuação da CPFL Energia?


Wilson Ferreira Jr. – Isso altera a perspectiva de todas as empresas privadas. É óbvio que ainda não avaliamos o impacto direto no nosso caso, mas os planos de investimentos de curto prazo não devem sofrer mudanças por conta da decisão da Aneel, que, repito, não é boa. A holding tem planos ambiciosos de abertura de capital, inclusive com atuação no nível 3 da Bovespa.


A CPFL Energia foi criada para viabilizar investimentos iniciais de R$ 2 bilhões voltados para geração de energia, que somam atualmente 2,8 mil MW nas usinas de Barra Grande, Campos Novos, Foz do Chapecó e Ceran. Desse total, 1,6 mil MW pertencem à CPFL Geração, que continua como o braço de geração de energia do grupo. A empresa conta com 19 PCHs, uma termelétrica e participação na usina de Serra da Mesa.


CanalEnergia – O senhor acha que ainda cabe algum tipo de recurso contra a decisão?


Wilson Ferreira Jr. – A Aneel não tem instância para este tipo de recurso, que só poderá caber na Justiça Comum. A Abradee ainda fará uma reunião para discutir os últimos acontecimentos. Numa avaliação pessoal, acho que essa era uma questão que deveria ser encaminhada pelo CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), que no atual modelo é a instância que tem a responsabilidade de conduzir parte do crescimento econômico do país e a política energética como um todo. Até porque vínhamos discutindo com a Aneel para que a metodologia não fosse conduzida de maneira unilateral.


CanalEnergia – O senhor teme por uma mudança brusca na política energética com o novo governo?


Wilson Ferreira Jr. – Quem tem que temer é o atual governo e principalmente a população, pois ela é quem pagará a conta no caso dessa mudança brusca realmente acontecer. A racionalidade econômica tem que ser desejada em todas as esferas da sociedade, para o bem dela própria. Se não houver remuneração adequada do capital, não haverá aporte de recursos no país. Privatizar ou não é uma questão de governo, que será respeitada. Mas tem que haver respeito pelo capital, até porque estamos falando de grupos internacionais que vêm para cá com planos de ficar por horizontes de até 30 anos.



Revisão tarifária: Abradee se diz surpresa com publicação da resolução 493

Em comunicado, associação argumenta que a medida modifica alguns pontos das indicações constantes da Nota Técnica que Aneel emitiu em julho

Oldon Machado, Mercado Livre


04/09/2002


A Abradee (Associação dos Distribuidores de Energia Elétrica), em nota divulgada nesta quarta-feira, dia 4 de setembro, manifesta sua supresa com a publicação da resolução 493, da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), estabelecendo que a base para a remumeração das distribuidoras que passarão, a partir de 2003, pela revisão periódica será o valor dos ativos.


Segundo a nota do Conselho Diretor da Abradee, havia uma negociação com a Aneel e órgãos governamentais para levar em conta, no processo, a Nota Técnica de julho da agência reguladora e o documento elaborado pela entidade no mesmo mês.


"Estamos examinando com toda a atenção o texto da resolução que, inclusive, modifica em alguns pontos das indicações constantes da Nota Técnica de julho já referida", diz a nota. A Abradee já solicitou aos associados que refaçam os cálculos já envidados anteriormente para que eles sejam apresentados à Aneel e a outras autoridades do governo. Com isso, a entidade que ter argumentos sólidos para defender a sua posição.


Uma projeção da Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica) mostra que, com esta metodologia, as perdas das empresas poderá chegar a R$ 13,1 bilhões, usando como base o preço mínimo da privatização, de R$ 22,7 bilhões, contra a base de renumeração de R$ 9,6 bilhões da Aneel. Se for pelo valor total pago nos leilões, de R$ 31,2 bilhões, esta perda aumenta para 21,6 bilhões, contra a mesma base da agência.


Enquanto a Abradee um novo diálogo com o governo, alguns executivos se manifestam também contrários à edição da resolução 493. "Se não houver remuneração adequada do capital, não haverá aporte de recursos no país", comenta Wilson Ferreira Jr, presidente da CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), em entrevista exclusiva ao CanalEnergia, dizendo-se surpreso com a resolução.

Segundo Fernando Quartim, consultor do Grupo Rede, a proposta de remuneração apresentada e aprovada pela Aneel representa um montante próximo da metade do investimento total feito há época das privatizações – base da proposta de revisão encaminhada pela Abradee.


"Isso sinaliza ao investidor que o risco regulatório brasileiro é muito grande, e que de certa forma ele não deve investir no setor", avalia. A queda de mercado desde o fim do racionamento, em fevereiro deste ano, também é apontada por ele como um dos problemas que estão acarretando em um desinteresse dos investidores internacionais no Brasil.


José Augusto Marques, da Abdib: "Para onde vamos?"

"Retardar ou impedir o processo de privatização vai somente fornecer um sinal antieconômico para a maioria dos analistas financeiros"

José Augusto Marques, Colunistas


04/09/2002


Há um perigoso consenso se formando no horizonte político do Brasil. Nele, a venda das estatais da área elétrica é algo não recomendável. No último debate da televisão entre os postulantes à presidência da República, veiculado pela Rede Record, alguns candidatos manifestaram que não pretendem privatizar grandes empresas do setor. Sem dúvida, isso significa uma pá de cal no novo modelo da área. Uma morte precoce, já que a reformulação começou a ser implantada em 1995.


Qual o problema com a venda de geradoras? A Gerasul foi vendida e vai muito bem. Nenhum problema regulatório, de tarifas ou de administração do fluxo de água na região foi detectado. Além disso, a companhia vai igualmente bem no que toca aos seus resultados, o que vem proporcionando investimentos por parte dos acionistas em plantas de geração de eletricidade. Os consumidores ganham, os investidores ganham e o Brasil ganha.


A crise no abastecimento no ano 2001 acabou vitimando boas e más idéias. Estamos correndo o sério risco de jogar o bebê fora junto com a água do banho. De pífios investimentos no início da década passada, o setor de energia elétrica chegou a receber mais de US$ 15 bilhões por ano em aplicação de capital em novos projetos. Um recorde da história do segmento no Brasil. Sem o capital privado isso teria sido impossível.


O faturamento da área de energia elétrica cresceu 11% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, saltando de R$ 13,1 bilhões em negócios nos primeiros seis meses de 2001 para R$ 14,5 bilhões primeiro semestre de 2002. O crescimento em energia ainda é, sem chances de dúvida, um reflexo do período de racionamento.


No que tange às exportações, o setor diminuiu as vendas em 33,7%, passando de US$ 756 milhões no primeiro semestre de 2001 para US$ 501,6 milhões nos seis primeiros meses deste ano. De qualquer maneira, os números dão a pujança do que pode ainda ser feito na área com a participação de investidores privados, nacionais e internacionais.


Para isso, tem de existir um modelo de regulação que funcione de maneira transparente e lógica. Retardar ou impedir o processo de privatização vai somente fornecer um sinal antieconômico para a maioria dos analistas financeiros.


Os candidatos precisam se informar melhor sobre o segmento elétrico antes de assumirem posturas políticas equivocadas. Não há nada de ideológico na venda de ativos estatais. O que se busca é a eficácia e o atendimento ao cidadão. Conviver mais uma década com 15 milhões de pessoas sem acesso à energia, um contingente de "sem-luz" equivalente à população do estado do Rio de Janeiro, não pode ser o nosso destino no terceiro milênio.


José Augusto Marques Presidente da Abdib (Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base)


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